Resenha

Blue Afternoon

Álbum de Tim Buckley

1969

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

17/03/2021



Folk-jazz entre o mainstream e o experimentalismo

A beleza de “Blue Afternoon” por vezes parece ofuscada pelo fato de estar espremido entre duas obras magníficas de Tim Buckley, "Happy Sad” (1969) e “Lorca” (1970). Tem-se aqui o quarto álbum de estúdio desse camaleônico artista, que foi gravado durante um período conturbado nos idos de 1969, uma vez que os materiais que originariam "Lorca” e "Starsailor” (1970) também estavam sendo trabalhados na mesma ocasião. Já imaginaram o caos??!! O disco saiu pela gravadora de Frank Zappa e seu empresário Herb Coen, Straight Records, em novembro de 1969, aliás, vale lembrar que foi o próprio Herb quem descobriu Buckley. Apesar de tudo isso, este álbum teve até uma boa receptividade da crítica.  

"Blue Afternoon" aproxima-se bastante das linhas musicais traçadas em "Happy Sad" e volta a realizar bravas excursões para além da fronteira conhecida do folk rock em busca de uma maior experimentação em províncias jazzísticas, tendo como resultado pitadas de música de natureza mais vanguardista, embora continue marcando território fortemente no folk rock. 

Sem qualquer titubeio, pode-se afirmar que um dos maiores destaques desse disco são as performances vocais idiossincráticas e comoventes de Buckley. Desta forma, uma parte considerável da excelência musical presente aqui deve-se, além da impressionante entrega emocional de Tim, às melodias vocais intensas que ele consegue oferecer unindo a técnica impecável à faceta interpretativa dramática, capacidade que Elvis Presley também mostrava com maestria um pouco antes dele. Já a instrumentação carrega aquela ambiência acústica de outrora, produzindo uma sonoridade extremamente aprazível e fundamentalmente orgânica. 

A charmosa abertura vem das palhetadas de cordas de “Happy Time", cuja estrada segue traçada a partir do contraste sonoro resultante de um violão rítmico e uma guitarra elétrica. A batida meio country e a voz de Tim remetem vagamente a John Denver. As cordas são relaxantes e constroem uma parede auxiliadas pelo preenchimento do baixo de Miller. Eis que a calmaria se acentua na estupenda "Chase the Blues Away", arranjos delicados e leves como plumas, enquanto o baixo e a guitarra delineiam paisagens jazzísticas um tanto sombrias, ao mesmo tempo há uma empostação vocal gradativa de Tim indo ao encontro de uma tonalidade ligeiramente mais solar. Essa canção parece ter propriedades sedativas, navega em uníssono e tranquiliza a alma.  

"I Must Have Been Blind" acrescenta um compasso mais acelerado, levada por uma batida jazz/country, guitarras semiacústicas e vibrafone cintilante, com a voz de Buckley se sobrepondo ao instrumental, mas deixando lacunas, tal qual um cobertor curto. Tim aborda nas letras as intempéries do amor: “...Aqui estou eu acreditando nas palavras de novo / Aqui estou eu tentando encontrar o seu amor novamente / Aqui estou eu de joelhos novamente / Rezando por um amor / Que costumávamos conhecer / Ambos sabemos / Como é difícil amar / E deixá-lo ir/ Nós dois sabemos / Como é difícil seguir em frente na vida desse jeito...”

Cabe a "The River" encerrar o lado A da versão LP, e o faz com Tim ostentando uma potência vocal admirável. O trabalho percussivo e de vibrafone criam uma atmosfera majestosa e sedutora nesta canção tipicamente folk. E aqui, como de costume, os versos amorosos de Tim são lindos: “Eu vivo pelo rio / E eu escondo a minha casa longe / Então, assim como o rio / Eu posso mudar meu jeito /Oh, se você vir a me amar / Você iria ficar para sempre / Dentro do meu coração / Dentro dos meus sonhos / E o tempo vai desaparecer...” 

A alegrinha "So Lonely" é a primeira do lado B, consiste numa cançoneta suave de textura country e cachimbadas jazzísticas que exala um certo ar de contentamento vindo da voz de Buckley, o qual entoa versos reconhecendo a inafastável solidão: “Oh, eu não recebo nenhuma carta/ Ninguém liga / Ninguém vem mais por aqui / Nem lindas garotas / Nem meninos bonitos / Ninguém vem mais perto da minha porta...” Já “Cafe” é um tanto mais dolorosa que a anterior, calcada em guitarras elétricas melodiosas, mas cujo compasso arrastado e temperamento introspectivo e soturno pintam uma paisagem campestre jururu, amplificada pela performance vocal abatida de Tim. Tristeza e encanto ocupam seus devidos lugares nesta faixa.  

"Blue Melody" segue uma harmonia deleitosa e possui arranjos jazzísticos maravilhosos, incluindo piano, baixo acústico e guitarra elétrica, além de congas tocadas por Collins. O clima inicial é brando, mas logo em seguida ela ganha contornos ondulantes e dinâmicos com Tim se arriscando em timbres mais altos. Uma peça absolutamente fabulosa e que, sem a mínima dúvida, inebriará o fã de música mais sofisticada e de bom gosto.    

A atrevida "The Train" fecha o disco, beirando os 8 minutos é a faixa mais longa e mais experimental também. Seu compasso quase caótico dá pistas do que seria visto em trabalhos posteriores de Buckley, que avança destemidamente aqui sobre regiões desconhecidas e perigosas. Este traço da personalidade artística de Tim, aliás, é o que mais impressiona. Há um pouco de rock, blues, folk e soul. Ele comumente gosta de fazer esse tipo de surpresa ao final dos seus álbuns.   

No geral, "Blue Afternoon" pode ser considerada uma obra de ótima qualidade e também muito homogênea. Se por um lado não há grandes proezas, por outro, nenhuma faixa deixa o nível cair, não havendo, portanto, uma filigrana de deslize sequer. Um disco aconchegante, lhano e de uma melancolia deliciosa, que está posicionado numa zona intermediária entre os lançamentos de alcance mainstream de Tim Buckley e os trabalhos mais apontados para o vanguardismo.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Blue Afternoon

Álbum disponível na discografia de: Tim Buckley

Ano: 1969

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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