Resenha

Leaving Eden

Álbum de Antimatter

2007

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

16/03/2021



Uma jornada melódica depressiva, mas extremamente cativante!

O Antimatter já recebeu o rótulo de banda mais deprimente do mundo não sem razão. Neste projeto liderado por Michael Moss, que conta também com a participação de Danny Cavanagh do Anathema, entre outros, a música melancólica de temperamento “down” é levada às últimas consequências. O fato é que essa aura "deprê" não é nenhuma novidade para essa banda, da qual já participou Duncan Patterson (ex-Anathema), que abandonou o barco para se dedicar a outras empreitadas após a gravação do álbum anterior, “Planetary Confinement”, de 2005. Mick Moss ficou, portanto, responsável por todas as composições aqui, incluindo a produção ao lado de Martin Koller, que já trabalhou com a banda neofolk Empyrium, conhecida por utilizar no início de carreira uma mistura de doom metal e dark folk melódico, bem como por ter um lirismo que explorava bastante a melancolia, com notável influência do romantismo poético. 

Sendo Moss a única mente criativa em “Leaving Eden” era normal então que a sonoridade sofresse algumas alterações, o que efetivamente ocorreu. Nos álbuns anteriores, era muito comum a utilização de camadas eletrônicas e a presença de fortes reminiscências do trip-hop. Neste disco, porém, as coisas caminham mais alinhadas a um rock de verve acústica e suave, que conta com elementos do space rock floydiano, pitadas do progressivo melódico do Riverside e até passagens doom metal que remetem aos primórdios do Anathema. Todo esse caldo, vale dizer, proporciona uma paisagem sonora devastadora e, surpreendentemente, formosa. A adição de violinos e de teclados sutis, além de erigir um molde mais clássico, são também habilmente misturadas a iminentes ataques de guitarras distorcidas absolutamente fantásticos. 

“Redemption” abre os portões da desolação apoiada num compasso arrastado, na voz suave de Moss e sob tonalidades acústicas, mas adquirindo logo em seguida uma roupagem pesada guiada pelos riffs de guitarra e belíssimo solo. Aliás, os trabalhos contundentes de guitarra são o grande destaque desta faixa. “Another Face in a Window” tem sintetizadores e piano elétrico criando um clima ambiental, atmosfera embelezada pelo violino de Rachel Brewster, todavia, assim como a faixa anterior, descamba para passagens mais intensas, apoiada na bateria e na guitarra de Danny Cavanagh, arquitetando um rock espacial com direito a momentos, digamos, mais musculosos por meio de guitarras barulhentas e flerte com o doom metal.  

“Ghosts” é de uma beleza melódica incrível, Moss dá um tom mais grave e o violão acústico em dedilhado introspectivo pavimenta o caminho até um solo sensacional de guitarra elétrica de Danny, momento em que a música se transforma numa parede sonora abrasiva até encerrar docemente. “The Freak Show” segue o roteiro arrastado e climático, com suas guitarras atordoantes em riffs lentos e viajantes. Um órgão etéreo faz dessa canção uma das coisas mais lindas que já ouvi, que desagua numa sessão doom à Catedral que também lembra Anathema do começo de carreira. Resumindo: a mais pura tristeza embalada em acordes musicais!!  

“Landlocked” nasce das borrifadas sintetizadas de Danny, encontrando logo em seguida uma guitarra dedilhada bastante elegante que segue uma rota repetitiva até fechar em cima de uma base semelhante à introdução. Em “Conspire” a voz de Moss atinge o ápice melancólico nessa peça de cordas acústicas delicadas que lembra até mesmo Riverside. Aliás, fica aqui uma menção obrigatória para a voz de Mick, que canta geralmente num registro indo de baixo a médio. Ele tem uma capacidade impressionante de condensar emoções negativas em seus vocais, sem precisar recorrer a gritos, rosnados ou empostações vocálicas mais apelativas, preferindo um verdadeiro canto lamentoso-sereno. Canção muito linda, porém, muito triste também. 

Já a faixa-título é meio hostil, começa com guitarras uivantes e uma bateria de marcação lenta e repetitiva, mas pujante, com os vocais de Moss embebidos em um estado que transita entre a contemplação e a aflição dissimulada. As paredes sonoras produzidas pelas guitarras são o destaque aqui, além dos solos meditativos um tanto floydianos do próprio Michael Moss. O piano misterioso e ameaçador de “The Immaculate Misconception” divide espaço com palhetadas acústicas, um tom marcadamente sombrio logo recebe a companhia de uma bateria e mais à frente uma sessão sinfônica belíssima de violino. Que peça, meus amigos!! Neoprog, progressivo etc., chame do que quiser, na verdade, isso é o que menos importa nessa canção instrumental (já que tem apenas coros) de um bom gosto tremendo. E como se fosse pouco, ainda fecha com uma seção solo de guitarra arrepiante. Em poucas palavras: perfeição musical!    

No encerramento, a acústica volta à carga em “Fighting for a Lost Cause”, dedilhado relaxante e a voz de Moss em notas comoventes que lembra Mariuz Duda do Riverside. Esta canção sintetiza a face bela e dolorosa deste disco!! Bem próximo de chegar ao final ela ergue uma fileira vigorosa calcada na bateria e na guitarra elétrica, mas encerra em sua serenidade inicial. Gran finale!!  

Ainda que pareça às vezes rodar por um eixo comum, “Leaving Eden” apresenta ótimas canções, principalmente se vistas de forma panorâmica. Essa trilha meio repetitiva, na verdade, não impede que o Antimatter consiga proporcionar ao ouvinte uma jornada melódica cativante, na qual a dor é vivida em pequenas experiências sonoras e que, paradoxalmente, fazem muito mais bem que mal. Audição obrigatória para todos que, assim como eu, gostam de sons melancólicos. Todavia, não custa advertir: moderação para não mergulhar sem retorno nas profundezas!


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Leaving Eden

Álbum disponível na discografia de: Antimatter

Ano: 2007

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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