Resenha

Do Not Disturb

Álbum de Van Der Graaf Generator

2016

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

08/03/2021



Ainda fazendo boa música, mas já mostrando um certo desgaste criativo

Chegamos aqui ao último registro, pelo menos até a data em que escrevo esta análise, da seminal banda Van der Graaf Generator (VdGG). “Do Not Disturb” foi lançado em 2016 e é o décimo-terceiro de estúdio dos britânicos liderados pelo multi-instrumentista, poeta e compositor, Peter Hammil, um dos mais prolíficos artistas da música progressiva. A banda novamente repete a formação em trio que vinha sendo adotada desde “Trisector de 2008”, com Hammil assumindo os vocais, guitarra e piano, Hugh Banton no órgão, teclados e baixo e Guy Evans na bateria. Falar da ausência do saxofonista David Jackson a essa altura do campeonato não faz mais sentido, visto que a banda já parecia ter conseguido compensar essa falta em álbuns anteriores. Obviamente que, se você perguntar a qualquer fã do VdGG acerca da importância que Jackson tinha, haverá unanimidade quanto ao fato de ele ter trazido uma qualidade instrumental quase inigualável durante o período em que esteve com a banda. Mas vamos olhar um pouco para frente, até porque o trio remanescente também possui notável competência. 

A priori, é importante salientar, porém, que um dos aspectos que talvez possa não agradar tanto ao ouvinte neste álbum é que, por vezes, “Do Not Disturb” parece ser um projeto solo de Peter Hammil. Não que isso seja assim tão ruim, porém, tem-se a impressão de que a música se move fortemente em razão dos trabalhos vocais de Hammil, como se houvesse um imã em torno do vocalista que arrasta o restante do instrumental. A propósito, as letras abordam temas relacionados à passagem do tempo, liberdade humana, arrependimento, culpa, finitude, despedida etc.   

Nesta empreitada ainda estão presentes, sem dúvida, todos os elementos que tanto distinguem o som da banda: passagens e andamentos complexos, paradigmas musicais não ortodoxos e cativantes, belos fluxos melódicos, performances vocais díspares, influências jazzísticas e de art rock, ótimo conteúdo lírico etc. Entretanto, um certo cansaço criativo parecia rondar o grupo, principalmente quando se observa a insistência na repetição de padrões do passado sem, contudo, conseguir surpreender o ouvinte da mesma forma que outrora. Ficando a impressão de que o combustível da banda estava, infelizmente, entrando na reserva. Mesmo assim não custa nada tecer uma análise mais detalhada a fim de constatar se a tese de “desgaste criativo”, levantada acima, pode ser efetivamente corroborada. 

Na versão em CD, que comentarei abaixo na ordem de faixas, há um total de 9 canções que duram em média 7 minutos, sem que nenhuma delas extrapole os 8 minutos.

A abertura vem com a melódica e reflexiva, "Aloft", cujo destaque inicial são os vocais delicados de Hammil seguindo uma guitarra suave, evoluindo em seguida para uma seção mais animada por um órgão, acordeão, bateria e o próprio trabalho de voz. Enfim, bons instantes altivos e melodia bastante criativa, mas sem nada de extraordinário. A experimental "Alfa Berlina" começa com barulhos de sirenes e vozes desconexas para logo depois amparar-se nos vocais falados de Hammil. Eis que a chegada de um belo órgão e da bateria de Evans inauguram uma seção melódica diversa e muito sedutora. Perto dos 4 minutos a faixa é inundada por uma atmosfera experimental que combina efeitos espaciais e Hammil acaba assumindo um timbre aterrorizante antes de a canção retornar à harmonia básica.

Quando disse que este disco lembrava muito as aventuras solo de Hammil é justamente pela introdução de faixas como "Room 1210", um tema de piano suave. Mas, felizmente, a coisa evolui com acordeão e bateria sendo adicionados ao cenário e a faixa acaba ganhando uma dinâmica interessante e ares mais otimistas, graças principalmente ao trabalho percussivo de Evans, com um interlúdio mais calminho voltando sub-repticiamente porque, afinal de contas, estamos falando de VdGG e normalidade não é uma palavra que frequente muito o dicionário deles. O pecado aqui foi não ter seguido para uma transição mais rápida. Todavia, esse lapso vai ser compensado na seguinte, a alegrinha "Forever Falling", com sua batida cativante, vocais mais ágeis e trabalho instrumental mais musculoso. Posso dizer que estamos diante de um dos destaques do álbum.  

A instrumental "Shikata Ga Nai" é bastante assustadora e um tanto exótica também, apoia-se num clima de música de câmara sombria, enquanto “(Oh No, I Must Have Said) Yes” é uma peça mais ostensiva que exala um som rugoso de guitarras e bateria pesada, experimentando ainda uma passagem jazzística elegante calcada numa excelente linha de baixo, que logo depois tem a presença de uma guitarra meio psicodélica e gritante que faz um fechamento a partir de riffs bem pesados e baquetas possantes. 

A suavidade de "Brought To Book" tem como base inicial o acompanhamento de um piano jazz, baixo vistoso e vocais relaxados de Hammil. Mas, assim como nas anteriores, as coisas esquentam um pouco brevemente com o órgão e bateria. E segue-se aqui, novamente, a estrutura cíclica suavidade-incisividade-suavidade-incisividade. Devo dizer que esta faixa acaba cansando um pouco com essas alternâncias que, a julgar pelo momento da audição, se mostram “manjadas”. Lá pelo final, quando ela retorna à melodia da entrada, confesso que dá vontade de avançar logo para a seguinte.    

A melodia tristonha de "Almost The Words" adquire roupagem de um hino fatídico, no qual o vocal abatido de Hammil, o piano e a percussão acústica constroem algo surpreendentemente deleitoso no primeiro segmento da faixa, que muda depois dos 4 minutos por meio de teclados espaciais, bateria em compasso mais apressado e uma multi-vocalização sobreposta, até encerrar numa sessão poderosa de órgão, baixo e bateria. Gosto desse momento final da música e senti falta desse “caos” instrumental ao longo do disco, uma pena que ele vem um pouco tarde demais, já que o encerramento fica por conta de "Go", um verdadeiro tema musical do fim do mundo, capitaneado por um lindo órgão espacial e vocais desesperançados e macambuzias de Hammil. Uma despedida dolorosa bem adequada ao clima do álbum.  

Ao fim e ao cabo, “Do Not Disturb” não chega a desapontar e tem, inclusive, bons momentos, mas, francamente, não gostaria de ter aqui a derradeira obra do VdGG, já que esse registro denuncia, como presumido no início desta resenha, “um certo desgaste criativo”, além de estar longe dos momentos mais gloriosos do grupo. Na verdade, para o fã sempre haverá aquela esperança de um "coelho tirado da cartola". Por outro lado, se for, de fato, a última cartada dos caras, que fique claro que eles deixam um legado praticamente sem máculas expressivas e sempre serão, ao menos na minha humilde opinião, uma das maiores bandas de rock progressivo.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Do Not Disturb

Álbum disponível na discografia de: Van Der Graaf Generator

Ano: 2016

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,25 - 2 votos

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