Resenha

Goodbye And Hello

Álbum de Tim Buckley

1967

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

07/03/2021



Uma obra-prima do psicodélico barroco!

Após uma respeitosa estreia com o autointitulado álbum de 1966, Tim Buckley voltou ao estúdio ainda como contratado da Elektra para soltar “Goodbye And Hello”, que levou apenas um mês para ser gravado e cujo custo expressivo fora compensado por uma maior atenção dada aos detalhes, incluindo a participação de uma orquestra de músicos e um tempo quase ilimitado para trabalhar no estúdio. A produção do disco ficou por conta do famoso Jerry Yester, detentor de uma certa expertise no pop sofisticado de bandas da cena, que já havia trabalhado com o The Turtles e, inclusive, substituído o guitarrista Zal Yanosvsky no The Lovin' Spoonful quanto este fora preso por porte de maconha em 1967.        

Buckley já começava aqui a se opor à sua imagem de cantor/compositor trovador folk, construída pelo conjunto de canções de amor pós-Dylan estampado no debut. Tal mudança era perceptível tanto visualmente quanto em termos do tipo de sonoridade extraída das canções que estava escrevendo em parceria com o amigo de longa data Lary Beckett, o qual, segundo alguns, conseguia potencializar a expressividade lírica de Tim, embora muito das letras de “Goodbye And Hello” ainda tivesse sido o resultado da síntese das experiências pessoais e emocionais deste último. 

A arte de capa mostra uma foto de Buckley sorrindo com uma tampinha de garrafa enfiada no olho direito tendo um fundo solar amarelo reforçando a ideia de alto-astral da cena. Embora as críticas à época fossem positivas, o álbum não decolou nas paradas americanas, o que frustrou a Elektra que havia apostado alto no lançamento. E vejo que talvez a acessibilidade um pouco menos direta deste em comparação ao disco de estreia seja uma das explicações plausíveis para o “relativo insucesso”. Na verdade, o fato é que este registro entrou naquela regra a que muitas obras geralmente são submetidas, ou seja, o reconhecimento tardio do seu valor artístico.  

A impactante e densa abertura de “No Man Can Find The War” com um som de bomba explodindo, uma crônica-protesto contra a guerra do Vietnã composta em parceria com Beckett, deixa límpido lodo de cara para onde as coisas estavam se encaminhando. A circense “Carnival Song” retoma o passado e lembra de longe “Alabama Song (Whisky Bar)” do Doors, enquanto a passional “Pleasant Streets”, uma das minhas favoritas, caminha por uma estrada fantástica pavimentada por camadas de teclados e guitarras fuzz insolentes, com a voz altiva e emocionada de Tim cumprindo o papel de entoar versos tocantes e espalhar um clima mágico.    

Com seu início psicodélico e caldo melódico tremeluzente, “Hallucinations” também proporciona um revival dos dias de trovador de Tim, cuja suavidade vocal é admirável ao longo desta faixa, que tem também em sua metade uma seção de ótima instrumentação e efeitos espaciais. Em “I Never Asked To Be Your Mountain”, Tim mira suas reflexões poéticas sobre a mulher, Mary, com quem praticamente foi coagido a se casar, e o filho Jeff, de quem estava afastado. Não bastasse as comoventes letras, esta música ainda exibe um impressionante instrumental calcado nas 12 cordas e num intenso trabalho percussivo com direito a congas. 

“Once I Was”, outro destaque, consiste numa dolorosa balada de arrancar lágrimas com belo acompanhamento percussivo e cantada por Tim como se um punhal estivesse cravado no peito: “E às vezes eu me pergunto /Só por um tempo /Será que você vai lembrar de mim? /E mesmo que você tenha esquecido /Todos os nossos tolos sonhos/ Encontro-me procurando /Através das cinzas das nossas ruínas”. 

Chegando ao terço final do disco encontraremos ainda a excelente “Phantasmagoria In Two”, com suas guitarras viajantes; e a mezzo beatleniana Knight-Errant; bem como a cintilante e progressiva faixa-título, um épico com quase nove minutos de duração cercado de uma multiplicidade de andamentos e melodias que caminham num labirinto obscuro de texturas medievais. Uma peça magnífica que parece resumir toda a criatividade artística de Buckley. O álbum fecha com a intimista "Morning Glory", que em seus tons celestiais e orquestração elegante se mostra absolutamente acolhedora.

Repleto de belas canções e sob visíveis influências do grandioso “Sgt. Peppers” dos Bealtes, "Goodbye And Hello" seria considerado posteriormente uma obra-prima do barroco psicodélico e significaria um leve redirecionamento musical a partir da adição de maior dose de sofisticação na sonoridade de Tim, possibilitando que novas e incríveis facetas do artista sutilmente emergissem como prévias dos caminhos que seriam seguidos futuramente.


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaA-HA - Minor Earth Major Sky (2000)

    11/10/2020

  • Image

    ArtigoOs 20 discos que mais apreciei em 2020 (my best) - Parte 2

    31/12/2020

  • Image

    ResenhaPink Turns Blue - If Two Worlds Kiss (1987)

    27/08/2021

  • Image

    ResenhaVan Der Graaf Generator - Do Not Disturb (2016)

    08/03/2021

  • Image

    ResenhaRoxy Music - Siren (1975)

    10/08/2021

  • Image

    ResenhaTalisman - Talisman (1989)

    31/03/2021

  • Image

    ResenhaTim Buckley - Greetings From L.A. (1972)

    04/03/2021

  • Image

    ResenhaRoxy Music - Roxy Music (1972)

    07/07/2021

  • Image

    ResenhaDead Kennedys - Fresh Fruit For Rotting Vegetables (1980)

    01/02/2021

  • Image

    ResenhaHelmet - Meantime (1992)

    21/04/2021

Visitar a página completa de Expedito Santana



Sobre o álbum

Goodbye And Hello

Álbum disponível na discografia de: Tim Buckley

Ano: 1967

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Goodbye And Hello



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.