Resenha

Greetings From L.A.

Álbum de Tim Buckley

1972

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

04/03/2021



Transbordando diversão em balanços lascivos!

Vindo de um desempenho considerado frustrante em face da aceitação do álbum Starsailor (1970), Buckley até que não tinha muita coisa a provar, mas não esqueçamos que a virtude dos grandes é jamais deixar adormecer a criatividade artística. Muita gente, principalmente os mais jovens, devem conhecer até melhor o filho, Jeff Buckley, que o pai, Tim Buckley, já que a versão do clássico “Hallelujah” de Leonard Cohen é mais popular que o pastel do Mercado Municipal de Sampa. Bastante compreensível que assim seja, uma vez que Tim morreu precocemente aos 28 anos em razão de uma overdose de cocaína e sua obra ficou praticamente restrita à década de 70. Durante muito tempo, eu mesmo estive incluído nesta categoria, mas sugiro a todos, tal qual fiz, que busquem conhecer mais a fundo a obra desse extraordinário cantor e compositor, um artista extremamente talentoso que produziu em tão pouco tempo excelentes discos que percorrem com primazia entre o folk, rock, funk, jazz fusion, soul e R&B.   

Nesse hiato que beirou dois anos entre a gravação do anterior e o lançamento deste álbum, Buckley deixou de trabalhar com seu habitual parceiro, Larry Beckett, passando a tocar com outros músicos que o ajudaram a absorver mais fortemente novas influências, notadamente ligadas ao jazz, funk e R&B. O fato é que Greetings From L.A nasceu carregado de camadas de sensualidade que contrastavam de maneira impressionante com a identidade de trovador pueril que Buckley havia construído ao longo de sua carreira.   

Desta forma, não convém esperar desse álbum o folk sereno à Dylan de obras precedentes, já que as coisas esquentam e muito aqui, com Tim usando seus espantosos dotes vocais para produzir atmosferas funk e jazz absolutamente imperdíveis. A voz pop nada convencional e os agudos possantes, assim como a capacidade ímpar de transitar entre o melancólico e festivo o colocam numa ponte que parece ligar os matizes de nomes como Roy Harper, Van Morrison, Marvin Gaye, Nick Dracke e Al Green. Tim consegue ser hábil, sexy, selvagem e brincalhão ao mesmo tempo. Há quem leve um tempo para se acostumar com as idiossincrasias vocálicas de Buckley, eu não tive a menor dificuldade para ser cativado por sua caixinha de surpresas.         

O disco abre com o glam rock “Move With Me”, canção de textura R&B calcada em pianos alegres e trompetes muito bons e discretos. O vocal áspero de Buckley encontra um ótimo contraponto num backing vocal feminino nessa canção que aborda o sexo casual. Inclusive, entendo que caberia perfeitamente num álbum de Bowie. “Get On Top” segue um roteiro lírico concupiscente no estilo dos Stones, regado a gemidos orgásticos andróginos de Buckley, linha de baixo empolgante e riffs sensacionais de jazz que lembram muito L.A Woman do Doors. Buckley faz o diabo aqui! “Sweet Surrender” quebra um pouco o balanço e assenta numa balada com interpretação emocionante de Buckley, incluindo excelentes arranjos de cordas, teclado meio tristonho e baixo elegante. 

No vinil o lado B começa com "Nighthawkin' ", canção que caminha entre o fusion e o blues rock, narra a história de um taxista que se envolve num imbróglio por conta de uma tarifa descomedida. É praticamente impossível não se mexer ao som do funk envolvente de “Devil Eyes”, levada por um baixo esplêndido e com tecladinho meio nebuloso, uma das melhores do disco. Logo em seguida vem o blues de cordas acústicas “Hong Kong Bar”, a única peça de teor verdadeiramente sentimental do álbum, embora uma maldade permeie-a sub-repticiamente. A pervertida “Make It Right” fecha os trabalhos em grande estilo, arquitetada num instrumental de riffs swingados e bateria astuciosa. Se acha que estou exagerando sobre “a questão da depravação” (rsrsrs), dá só uma olhadinha nas letras: “...Estou procurando / Para uma menina de esquina / Estou cuidando / Para uma garota de esquina / E ela vai me bater, me bater, me bater, me bater/ Ah, faça certo de novo / Venha e me bata, me bata, me bata, me bata...” 

Gosto de definir este álbum como uma espécie de funk alienígena. No entanto, devo dizer também que ele me ganhou imediatamente desde os primeiros acordes, revelando uma incrível faceta libertina de Buckley, que parece às vezes uma versão americana de Serge Gainsbourg. Se os requintados passeios folkies de outrora deram uma pausa aqui, a diversão balançante aproveitou para tomar conta.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Greetings From L.A.

Álbum disponível na discografia de: Tim Buckley

Ano: 1972

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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