Resenha

Deliverance

Álbum de Sylvan

1998

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

03/03/2021



Uma boa estreia, apesar dos notáveis deslizes!

Originada em Hamburgo, na Alemanha, Sylvan é uma banda de neo prog que foca bastante nas construções vocais e num som conduzido por excelentes linhas de teclados e guitarras melódicas, transitando confortavelmente, às vezes, até mesmo por uma vertente de metal. Com esse álbum de estreia intitulado "Deliverance" (1999), os alemães abriram a porta de um mundo um tanto escondido para muitos amantes da música progressiva. Ainda que as tendências neoprogressivas não fossem novidade na Alemanha no final dos anos 90, já que bandas como Neuschwanstein e Anyone's Daughter acompanhavam de perto, desde a década de 70, o movimento britânico que ocorreu mais especificamente nos anos 80, a maioria das bandas produzia um som que fazia uma combinação moderna de progressivos mais sinfônicos e elementos clássicos encontrados, por exemplo, em Genesis e Camel.

Muitos começam sua experiência sonora com Sylvan por meio do brilhante "Posthumous Silence", de 2006, mas, na verdade, as raízes da banda remontam a 1990, quando um trio musical se formaria sob o codinome Temporal Temptation, mas que logo mudaria para a alcunha de Chamäleon, exibindo naquela época um som claramente inspirado no Marillion oitentista. Nesse álbum, o Sylvan tem na formação os irmãos gêmeos da família Söhl, o guitarrista Kay Söhl e o tecladista Volker Söhl, incluindo o competente vocalista Marco Glühmann, o baterista e também produtor Matthias Harder e, por fim, o baixista Patrick Münster. A banda, diga-se, não teve problemas em olhar para o futuro enquanto adotava as influências britânicas do passado, resultando numa versão atualizada dos anos 80 emergida diretamente de um mundo progressivo sinfônico que parece ter se fragmentado um pouco.

Apesar dos contratempos naturais do início de carreira, a banda encontrou coragem para prosseguir nos milhares de feedbacks positivos que passou a receber e foi em meio a todas essas incertezas que o grupo desenvolveu sua própria identidade neoprog e se manteve firme ao longo dos anos 90 para, com muita dificuldade, conseguir, enfim, lançar esse debut quase ao final da década de 90. 

“Deliverance” contém todos os elementos neoprog considerados essenciais, tais como belas melodias baseadas em sessões de piano e nos teclados, lirismo de teor dramático abordando o complexo universo das emoções humanas, composições épicas sinfônicas criadas em meio a guitarras e solos espetaculares, cenários atmosféricos e mudanças de andamentos fincadas em protótipos de música progressiva. Parece que todos aqueles anos passando perrengues realmente valeram a pena porque a banda, conquanto não exibindo exatamente os padrões que que seriam observados em obras futuras, conseguiu desenvolver em “Deliverance” um álbum neoprogressivo maduro e sofisticado, e surpreendentemente digno dos melhores players do cenário, presenteando os fãs de música progressiva com um mix inspirado nas texturas de rock espacial do Pink Floyd, nas camadas melódicas e sinfônicas do Genesis bem como nas paisagens explosivas de hard rock do Marillion, sem esquecer das pitadas clássicas de metal. Da mesma forma, a banda aprendeu a dominar melhor a arquitetura das composições longas e épicas, trazendo quatro faixas com duração média de dez minutos que conseguem entregar no geral concertos coesos, embora possam ser vistos lapsos conectivos que serão comentados doravante.  

A complexidade das faixas mais compridas é, sem sombra de dúvida, respeitável, e já pode ser conferida na abertura do álbum feita por “Seeking Nights”, canção calcada inicialmente em sons ambientes de teclado evoluindo para sessões altivas capitaneadas por guitarras elétricas bem ao estilo neoprog, mas mantendo partes sinfônicas. A suave linha vocal de Glühmann conduz a música para um caminho sinfônico. Há segmentos meio hard rock/metal e inserções de sons de teclado que parecem não combinar muito bem com a melodia, mas que não comprometem a qualidade da música. Tenho a sensação de que os solos de guitarra bebem um pouco na fonte Marillion “Era Fish”. Destaque também para a terceira faixa, “Inconsciously”, outro épico de cerca de dez minutos, cujos teclados inquietos e utilização de voz feminina são muito bons, incluindo bateria dinâmica e riffs de guitarras que se alternam entre a suavidade e aspereza. Essa música experimenta passagens mais silenciosas e clássicas de metal e a harmonização dos vocais femininos e masculinos. E, novamente, há momentos aqui em que a sonoridade do Marillion vem à mente.   

A peça “Those Defiant Ways” apresenta uma estrutura bastante complexa, envolta em muitas transições e generosas inserções de solos de teclado e de guitarra, bem como vocais versáteis de Glühmann. Esta faixa é um camaleão impressionante, muda da água para o vinho em questão de segundos, sai de um instante etéreo para um mais hard num piscar de olhos. A faixa-título começa com um bom trabalho de piano misturado a sons de tempestade, transmutando para uma paisagem sonora melódica costurada por lindos vocais. Ainda que haja nessa composição uma ou outra falha nas transições ou mesmo no encaixe dos vocais em alguns segmentos, existem aqui um punhado de notas de piano cativantes e guitarras mais vigorosas que entregam um bom resultado ao final. Nesse universo de canções espaçosas a breve “Childhood Dreams”, pequena apenas no contexto, pois tem quase quatro minutos, revela uma grata surpresa com seu piano de influência clássica e clima terno, sem qualquer trabalho percussivo. 

Voltando às canções mais extensas, aparece a mais longa delas justamente no encerramento, a monstruosa “A Fairytale Ending”, com seus quase dezessete minutos. Épico que começa em ritmo ambiente e orquestrado, passando logo a seguir para palhetadas de violão e vozes faladas masculinas, pecando um pouco a meu ver pelos vocais não estruturados por volta dos três minutos. No geral, é possível encontrar aqui muitas melodias cativantes, e, mais uma vez, as transições mais agradáveis e suaves cometem pequenos deslizes nas conexões. Ficando a sensação de estamos diante de uma coleção de belos fragmentos soltos interpolados por vozes. Um dos melhores trechos é parte final no qual a bateria e as guitarras conseguem edificar uma paisagem sonora esplêndida, todavia, o pecado de não conseguir articular as partes com o todo permanece bem vivo. Uma pena!! 

Em que pese os problemas apontados ao longo da análise, o saldo de “Deliverance” é bastante positivo, uma vez que está repleto de todas aquelas belas melodias e arrebatadores cenários que qualquer um poderia desejar em um álbum neoprog, vindos principalmente das longas faixas da segunda metade do álbum, porém, para ser honesto, nenhuma das outras faixas é ruim de forma alguma. Além do mais, o disco viria a mostrar, também, todo o potencial de uma banda que iria superar suas deficiências com sobras em lançamentos posteriores, especialmente em "Posthumous Silence" e “Sceneries” (2012), mas isso é assunto para outra resenha. 

Songs / Tracks Listing
1. Seeking Nights (10:50)
2. Golden Cage (4:50)
3. Unconsciously (10:00)
4. Safe (4:10)
5. Those Defiant Ways (9:15)
6. Deliverance (10:20)
7. Childhood Dreams (3:50)
8. A Fairytale Ending (16:45)
Total Time: 70:00


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Deliverance

Álbum disponível na discografia de: Sylvan

Ano: 1998

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3 - 1 voto

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