Resenha

The Power To Believe

Álbum de King Crimson

2003

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

02/03/2021



Rock progressivo totalmente fora dos padrões, mas de excelente qualidade!

Em 2003, o King Crimson (KC) estaria de volta, novamente liderado por um dos guitarristas mais geniais do rock, Robert Fripp, que mostraria ainda estar em plena forma. Nos seus longos anos de existência a banda passou por diversas formações e fases bem distintas, mas sempre fazendo um som genuíno e sofisticado, que talvez por não se enquadrar em nenhum modelo ou gênero pré-definido é comumente considerado rock progressivo. Vale dizer, também, que já passaram pela banda nomes como Greg Lake, John Wetton, Bill Brufford, Tony Levin entre outros músicos extraordinários. Não sendo necessário, acredito, falar da inquestionável qualidade discográfica que o Rei Escarlate construiu ao longo de toda sua carreira, que vai desde o inigualável clássico da estreia "In the Court of Crimson King" (1969), passando por “In The Wake Of Poseidon” (1979), “Lizard” (1970), “Larks' Tongues In Aspic” (1973), "Red" (1974), “Starless And Bible Black” (1974) e "Discipline" (1981), entre outros discos que ergueram um indestrutível edifício que representa um marco na história do rock.

Após o long-play “The ConstruKction of Light” (2000) e o EP “Happy with What You Have to Be Happy With” (2002), Robert Fripp (guitarra), Adrian Belew (guitarra e voz) Trey Gunn (warr guitar) e Pat Mastelotto (bateria), uma formação de respeito, diga-se de passagem, mostraria o porquê o King Crimson ainda podia ser considerada uma referência no rock progressivo em “The Power To Believe”, décimo terceiro álbum de estúdio da banda. 
 
Houve até quem pensasse que o som do grupo perderia muito sem a rítmica virtuosa de Tony Levin e Bill Bruford. Mas o resultado final de “The Power To Believe” mostra justamente o contrário, pois o som da banda continuaria desafiador, complexo e cativante. Muita gente, inclusive este que vos escreve, considera esse álbum um dos mais pesados já gravados pela banda, mas sem negligenciar totalmente a sonoridade charmosa dos anos 70, que andava um pouco desaparecida dos últimos trabalhos do King Crimson. Advirto desde já, porém, que esse disco talvez não seja um deleite absoluto para os fãs de rock progressivo clássico. Mas, com certeza, vai deixar aquele apreciador de música mais vanguardista e que adora ficar frente a frente com algo fora dos padrões dando pulos de alegria. Pense num King Crimson dentro dos anos 2000 e soando de acordo com a época. Não há dúvidas que está longe de ser o melhor da banda, mas é um álbum que traz uma sonoridade moderna e que tem um lugar de respeito na prateleira KC.

Desde os primeiros acordes de “Power to Believe I – A Cappella”, um curto poema falado, que abre os trabalhos, puxando logo em seguida para “Level Five”, fica claro que os caras não estavam para brincadeira, já sendo possível sentir a densidade e a vocação metaleira, calcada nas guitarras distorcidas e riff pesadíssimo, complementada por um excelente trabalho da bateria que cria aquela atmosfera sombria própria da banda. Em “Eyes Wide Open”, uma balada charmosíssima bem ao estilo das canções suaves de THRAK, o King Crimson parece buscar o equilíbrio entre riffs altivos e baladas hippies suaves. Essa música, inclusive, tem belas letras produzidas pelo vocalista Adrian Belew. “Elektrik” traz um trabalho instrumental bastante comum na obra do KC, em sete minutos fascinantes de boa música e melodia peculiar. Usando guitarras contrapontísticas como uma "base", Fripp e Belew lideraram a banda em uma composição "guitarras vs. rítmica" na qual Gunn e Mastelotto alternam dois ritmos radicalmente diferentes (quem conhece o som da banda sabe que eles adoram usar esse tipo de recurso). Apesar de um pouco longa, é inexplicavelmente sedutora.

“Facts Of Life: Intro”, como o próprio nome denuncia, é um breve interlúdio para “Facts Of Life”, um som mais hard rock, com um bom solo uníssono de Mastelotto e Gunn que agitam a faixa. Mostra um King Crimson contemporâneo com o que estava rolando naquele momento. O trabalho das guitarras é perfeito e a voz de Belew dá um toque especial à música, que lembra muito vocais do grunge (sempre que uso esse rótulo fico preocupado com a exata compreensão bem como as consequências que poderão advir). Para quem gosta de improvisação (eu adoro), "The Power to Believe II" é outro ponto alto do álbum. Fripp diz que a gravação dessa música foi pura jam. A atmosfera ambiental minimalista e leve toque oriental combinam a essência da sonoridade vanguardista e intrigante do Rei Escarlate. Absolutamente perfeita!   

A seguir, para variar, "Dangerous Curves" reproduz mais uma vez a linha de estranheza e tensão, começa bem etérea para se tornar um som distinto. Outro instrumental que se apoia num riff de guitarra repetitivo, com uma espécie de ritmo que lembra um “techno”, mas com marcações de tempo alienígenas de Mastelotto e preenchimentos constantes que abrilhantam a faixa. Um dos melhores e mais otimistas momentos do disco fica com "Happy With What You Have To Be Happy With". Aqui o King Crimson veste uma roupagem moderna, mas preservando sua alma clássica. Boa letra, guitarras pesadas e uma agressividade contida são ingredientes dessa canção magistral, que ainda tem um solo incrivelmente maluco de Fripp como a cereja do bolo. Na parte final do disco aparece "The Power to Believe III", uma composição meio "industrial" intencionalmente desarticulada e “The Power to Believe IV: Coda”, mais uma instrumental, dessa vez calcada em efeitos que remetem a Vangelis/Blade Runner e de textura progressiva, concluindo com o mesmo vocal que abriu o álbum. Utilizar a conhecida e manjada expressão “fechamento com chave de ouro” não é exagero algum. 

Em síntese, "The Power to Believe” apresenta excelentes trabalhos de guitarra e ofícios percussivos não menos impressionantes. Embora cometa alguns pequenos e quase imperceptíveis deslizes e possa não agradar a todos, esse registro possui uma ótima qualidade de gravação e seu som totalmente anticonvencional e fora dos padrões mantém a marca King Crimson, uma banda que nunca deixou de fazer música boa.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

The Power To Believe

Álbum disponível na discografia de: King Crimson

Ano: 2003

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,62 - 4 votos

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