Resenha

Songs For The Deaf

Álbum de Queens of the Stone Age

2002

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

25/02/2021



Síntese moderna do bom e velho rock and roll!

No ano seguinte ao lançamento do segundo disco, “Rated R” (2000), o Queens of The Stone Age (QOTSA) já estava em estúdio preparando o material daquilo que seria o seu terceiro disco intitulado curiosamente “Songs for The Deaf”, lançado pela Interscope Records e Universal Music em agosto de 2002. Para variar, algumas mudanças na formação da banda aconteceram para a gravação desse álbum, já que o vocalista do Screaming Trees, Mark Lanegan, se tornou integrante definitivo da banda, funcionando como segundo vocalista, enquanto a bateria contaria com a participação do “gente fina” e competente Dave Grohl, ex-Nirvana e líder-fundador do Foo Fighters. Josh Homme, comandante inconteste do QOTSA, guitarra e vocal, continuaria tendo a companhia de Nick Olivieri no baixo, com o qual dividiu a composição da maioria das músicas. E assim estaria fechado o time responsável por fabricar mais um delirante exemplar do QOTSA. O álbum teve ainda inúmeras participações, incluindo músicos, a exemplo de Alain Johannes, Natasha Shneider, Dean Ween e Paz Lenchantin, e até de mesmo de DJs amigos da banda: Chris Goss, Blag Dahlia, C-Minus entre outros. A propósito, o disco adota uma linha conceitual inspirada justamente numa transmissão de rádio com os diversos DJs atuando como personagens de forma intercalada entre as músicas.  

O álbum foi muito bem recebido pelo público, auferindo também centenas de elogios da crítica e ajudando o grupo a conquistar muitos fãs. Inclusive, parte da mídia especializada à epoca conferiu ao grupo o status de “salvadores do rock”. Não gosto muito desses rótulos, pois acabam colocando um peso enorme nas costas da banda, lembro que a revista Rolling Stone falou algo semelhante sobre o Radiohead. Após uma longa turnê de divulgação do disco a banda iria enfrentar alguns problemas que iriam culminar com a saída de Dave Grohl, que em verdade retornaria para o seu Foo Fighters, e depois de Nick Olivieri, no final de 2003, acusado por Homme de agir de maneira desidiosa em relação à banda.      

O disco em si possui uma sonoridade confessadamente mais pesada que o antecessor “Rated R”, no qual os caras parecem ter tirado um pouco o pé do acelerador. Apesar de contar com essa ideia conceitual de uma transmissão de rádio, DJs “et cetera e tal”, o trabalho não incorpora praticamente nada de eletrônica e dance music, ao contrário, mostra um rock cru, direto e, às vezes, flagrantemente agressivo, delineado por muita energia e impulsionado principalmente pela cozinha baixo e bateria, mas com um protagonismo bastante perceptível das guitarras. Ainda que se possa enxergar uma faceta mais pop em "No One Knows", que teve significativo apelo midiático e sucesso estrondoso do ponto de vista comercial, bem como descansar os ouvidos com os acordes suaves da incrível baladinha “Mosquito Song”, o álbum no geral não alivia. Nesse sentido, “Songs for the Deaf” caminha numa trilha submersa em camadas de barulhos, guitarras furiosas carregadas de efeitos, sessões mezzo jam roqueiras recheadas de baterias espetaculares, solos desconcertantes, baixos graves e ostensivos, complementados por vocais e coros que oscilam entre performances insanas e gritadas a atuações melódicas e moderadas. O resultado acabou sendo, sem sombra de dúvida, a composição de faixas que iriam se tornar inquestionáveis clássicos na carreira da banda. 

Para não me deixar mentir o disco já tem na abertura a estupenda “You Think I Ain't Worth A Dollar, But I Feel Like A Millionaire”, com seu riff pegajoso e pesadão, vocais alucinados, com as guitarras graves trabalhando diuturnamente para manter um ambiente caótico que remete visivelmente a White Zombie. Logo em seguida vem a alegrinha "No One Knows", guitarrinha com um pé no funky, tendo os vocais principais de Homme e o apoio de Lanegan, ela oscila entre passagens aguerridas e balançantes com o baixo gorduroso de Nick Olivieri pavimentando muito bem as coisas. “First It Giveth” é nervosa desde o início, outra ótima canção que ajuda a manter o astral lá em cima, combina melodias vocais de matizes que lembram o grunge, guitarras acolchoadas em riffs contínuos, baixo pulsante e bateria inquieta. Fico quase sem palavras para “A Song for the Dead”, riff viscoso na intro e Grohl sensacional nas baquetas como se estivesse ensaiando, o ritmo quebrado por meio de guitarras distorcidas e coros fantasmagóricos criam uma sensação bastante peculiar, já os intervalos e andamentos adicionam um caráter de improviso. O pau canta bonitinho! (quer dizer, o rock). 

Destaque também para a melódica “The Sky Is Fallin”, cujas guitarras carregadas arquitetam um contraste interessante, lembrando até mesmo a atual banda de Grohl, e a punk “Six Shooter”, que se assemelha muito aos sons mais insanos do Nirvana. Sem esquecer, por óbvio, um dos melhores rockões dos caras, “Go With the Flow”, com seu ritmo estável capitaneado por guitarras fabulosas, bateria “basicona” e eficiente de Grohl com Homme em uma performance vocal de respeito mesclando melodia e fleuma. Experimente escutar essa música no volume máximo pela manhã, garanto que ela vai espantar toda preguiça e fazer você acordar como se tivesse tomado um banho gelado. “Another Love Song” carrega uma alma sessentista notável, Beatles e Beach Boys batidos no liquidificador com alguns poucos acréscimos de peso, enquanto “A Song For The Deaf”, cruzamento de Tool e Pantera, possui uma textura mais metalizada, forte e intensa, exalando tensão e demência nos vocais de Homme. O disco fecha com o cover engraçadinho do The Kinks “Everybody's Gonna Be Happy".   

Essa jornada agitada e ruidosa do QOTSA é uma inequívoca prova de que é possível fazer música de verdade e de ótima qualidade sem qualquer pedantismo. Após cerca de uma hora de audição torna-se impossível não reconhecer essa obra como uma das mais extraordinárias do catálogo da banda. Um registro que representa uma espécie de síntese moderna do bom e velho rock and roll.   

“I can go, with the flow (ohohoho)”

Faixas: 
1.	"You Think I Ain't Worth a Dollar, But I Feel Like a Millionaire" – 3:12 
2.	"No One Knows" – 4:38
3.	"First It Giveth" – 3:18
4.	"A Song For The Dead" – 5:52
5.	"The Sky Is Fallin'" – 6:15
6.	"Six Shooter" – 1:19
7.	"Hangin' Tree" – 3:06
8.	"Go with the Flow" – 3:07
9.	"Gonna Leave You" – 2:50
10.	"Do It Again" – 4:04
11.	"God Is In The Radio" – 6:04
12.	"Another Love Song" – 3:15
13.	"A Song For The Deaf" – 6:42 
14.	"Mosquito Song" – 5:37
15.	"Everybody's Gonna Be Happy" – 2:40


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Songs For The Deaf

Álbum disponível na discografia de: Queens of the Stone Age

Ano: 2002

Tipo: CD/LP

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