Resenha

Weather Systems

Álbum de Anathema

2012

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

23/02/2021



Os artífices da música celestial!

Já faz um bom tempo que estou em dívida com essa fantástica banda, que inclusive apareceu no meu Top 5 do Spotify de mais escutadas de 2020, e sobre a qual eu não havia feito uma única análise sequer aqui no site 80 Minutos. “Weather Systems” é o nono álbum dos britânicos do Anathema, grupo que conheci à época do doom metal arrastado e soturno do debut “Serenades” de 1993, nada parecido com a trilha post-rock progressiva que a banda resolveu seguir posteriormente e que costumo chamar às vezes de “música celestial”.  

Esse álbum foi lançado em abril de 2012 e a banda o descreve curiosamente como “não música de fundo para festas”. E não sem razão, já que sua sonoridade percorre caminhos serenos e que exalam uma atmosfera de contemplação e sobriedade, longe, portanto, de momentos mais esfuziantes. O que parece fazer dessa obra um feito impressionante é a sua notável capacidade de abandonar sutilmente um clima de fantasia e leveza para então submergir em passagens pesadas e carnudas. O álbum foi gravado em Liverpool, Wrexham e Oslo e conta com uma impecável produção, feita, aliás, pelos próprios irmãos Cavanagh, Vincent e Daniel, e também por Christer-André Cederberg. Durante as gravações e lançamento ocorreu a saída do tecladista Les Smith, que havia participado integralmente de “We're Here Because We're Here”, álbum antecessor de 2010, o que levou os irmãos Vincent e Daniel a se revezarem nas teclas.  

“Weather Systems" transita por uma zona que pode ser considerada uma “evolução” da banda, parecendo despedir-se um pouco da habitual aura pessimista e abrindo uma janela por onde a luz do sol e a esperança adentram fortemente. Apesar de haver aqui uma dose de melancolia e o ambiente ainda estar permeado de instantes dolorosos, não há como deixar de perceber que o som da banda mergulha verdadeiramente num post-rock intenso e por vezes otimista com texturas neoprogressivas e arranjos orquestrados, aliados eventualmente ao uso parcimonioso de programação e sintetizadores, conseguindo soar paradoxalmente acessível e complexo, clássico e moderno, melodioso e potente.    

As duas peças inicias, "The Untouchable" Partes 1 e 2, são épicos absolutamente perfeitos, combinando vigor roqueiro e melancolia. Não pense que irá encontrar aqui duas espécimes pop, não é disso que se trata, são canções fortes e afetuosas, expressas em palhetadas de guitarras acústicas, arranjos altissonantes, bateria pujante, riffs post-rock cheios e harmonias vocais de prodigiosa beleza, protagonizados pelas sinérgicas e incríveis performances de Lee Douglas e Vincent Cavanagh (eles nasceram para cantar juntos!). Acredite no que digo, estas duas músicas são a pura expressão da verdade artística e da honestidade autoral. A Parte 2 é mais sinfônica, levada por piano e com Lee Douglas fazendo até marmanjo chorar. Eu nunca sigo em frente sem antes repeti-las ao menos duas vezes.  

As cordas orquestrais de "The Gathering of Clouds" conferem um charme incomum, com sua atmosfera densa amparada em coros hipnóticos e emocionais essa canção encanta desde os primeiros acordes. Lembra daquele lance do “celestial” que eu falei no início? Pois é, ele aparece aqui. Em "The Lightning Song" o grande destaque, sem dúvida, é a voz de Lee, um verdadeiro anjo cantando. É basicamente isso que eu tenho a dizer sobre essa “pequena grande mulher” nessa faixa que traz um misto de clássico, folk, hard, alternativo e até progressivo, climatizada por sintetizadores, concerto num crescendo e que desagua numa seção rítmica pesada matadora puxada por uma guitarra na frente do conjunto e expansões ora suaves ora mais bruscas. Sensacional!  

"Sunlight" carrega uma brisa fria que estampa um quadro de introspecção, movida por guitarras vivazes e instrumental martelado, no qual a bateria parece querer a proeminência e tenta incansavelmente cobrir os vocais de Daniel. O ritmo eletrônico e programado de "The Storm Before The Calm", a mais pesada do disco, direciona as coisas para um lado experimental que remete à carreira solo de Steven Wilson e também à Porcupine Tree. Vocais meio robotizados e passagens densas de guitarra e bateria inebriam o ouvinte, sintetizadores e efeitos sonoros espaciais constroem um muro impenetrável que beira a insanidade, florido por arranjos estupendos de cordas. Após o paroxismo inicial, eis que um clima pastoral e ambiente de matiz floydiano aparece, com uma ópera alegre e encantadora levada pelos arrebatadores vocais de Vincent e Lee.

"The Beginning and The End" deixa o clima altivo e carregado. Música forte e dramática, post-rock e progressivo unidos por meio da refinada técnica instrumental da banda e emoção transpirada dos vocais de Vince Cavanagh, encontrando a calibragem ideal numa sessão de piano fabulosa. "The Lost Child" evidencia fragilidade e ao mesmo tempo um ar fantasmagórico brotando das teclas de um excelente piano, transcende qualquer coisa pop e óbvia que se encontra aos montes por aí, canção requintada e bucólica cantada por Daniel e envolta numa teia que acorrenta a atenção. Avançando na segunda parte para uma sessão musculosa e parindo um solo espetacular de guitarra que fica quase escondido em meio ao restante do instrumental. Luxuosa e singular!

A derradeira e penetrante “Internal Landscapes” condensa o folk e rock mais sinfônico, embalando tudo dentro de um pacote de experimentação sui generis, harmonias vocais seguras e controladas, guitarras eletrificadas e bateria minimalista criando uma música profunda que mexe com a alma, na qual Lee e Vince se alternam nos vocais e edificam novamente o clima celestial e de paz (que insisto dizer: parece ser inerente ao som banda). A voz que aparece no início em forma de narração pertence a Joe Geraci, constitui um depoimento de um homem que teve uma experiência de quase morte. 

O concerto intrincado e melódico de “Weather Systems” mostra um Anathema quase construindo um gênero musical à parte, como se o grupo conseguisse avançar por territórios desconhecidos e estabelecesse uma morada erguida a partir das próprias idiossincrasias sonoras. Mais um disco essencial e memorável da banda. Aos mais sensíveis recomendo ter um lenço à mão!  

Songs / Tracks Listing
1. Untouchable Part 1 (6:14)
2. Untouchable Part 2 (5:33)
3. The Gathering Of The Clouds (3:27)
4. Lightning Song (5:25)
5. Sunlight (4:55)
6. The Storm Before The Calm (9:24)
7. The Beginning And The End (4:53)
8. The Lost Child (7:02)
9. Internal Landscapes (8:52)

Line-up / Musicians
- Lee Douglas / lead & backing vocals
- Vincent Cavanagh / lead & backing vocals, keyboards (1,3,5,9), programming, guitar (6), bass (6), synthesizer (6), strings arrangements (6), musical director & co-producer
- Daniel Cavanagh / electric & acoustic guitars, keyboards (1,3,5), piano, bass (4,5,9), lead vocals (5,8), co-producer
- John Douglas / drums (excl. 1,3), synths & programming (6)

With:
- Christer-André Cederberg / bass (excl. 4,6,9), outro piano (7), co-producer
- Wetle Holte / drums (1,3)
- Jamie Cavanagh / bass (6)
- Petter Carlsen / backing vocals (1,2)
- The London Session Orchestra / strings
- Perry Montague-Mason / strings leader
- Dave Stewart / strings arrangements & producing


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Weather Systems

Álbum disponível na discografia de: Anathema

Ano: 2012

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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