Resenha

Pornography

Álbum de The Cure

1982

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

05/02/2021



Um mergulho profundo na escuridão

Os humores de Robert Smith sempre foram preponderantes para o direcionamento musical que o The Cure eventualmente viesse a assumir em algum momento da sua carreira. Desde o primeiro single da banda, “Killing an Arab”, lançado em 1978 pela Fiction Records, Smith liderou o grupo geralmente navegando por mares e oceanos guiado exclusivamente por sua mente e estado psicológico. Tanto que o próprio Robert declarou, à época de lançamento desse disco, que só lhe restavam duas escolhas: desistir completamente (o que implicaria cometer suicídio) ou fazer um álbum tratando disso. Felizmente ele ficou com a segunda opção e assim nasceu “Pornography”. A arte gráfica com uma foto distorcida da banda deixa bem claro o ambiente dark que submerge da obra. 

O cenário pós-punk era de desolação e não mais de rebeldia, o grito de dor e protesto deu lugar à resignação com o sofrimento, que já vinha sendo encapsulado, inclusive, por algumas bandas antecessoras do Cure. (Siouxsie and the Banshees, Joy Division etc.). Gótico, dark ou qualquer outro rótulo que encontrem para conferir à música do grupo, eles sempre conseguiam realizar excursões por terras que muitas vezes não podiam ser definidas em meras palavras. 

Construindo seu som a partir de paradigmas repetidos de bateria e baixo intenso e onipresente, o disco caminha por uma linha musical mais orgânica, condensada em climas melancólicos e carregados. E em que pese o fato de a banda manejar o instrumental seguindo geralmente uma via linear e uniforme, o álbum consegue assim mesmo ter uma riqueza musical admirável e que brota, sobretudo, da simplicidade, ou seja, a velha fórmula minimalista “menos é mais” dá bons frutos aqui novamente. Os destaques ficam por conta do baixo de Simon Gallup, que deixaria a banda logo após o lançamento só retornando em “The Head on the Door” de 1985, a bateria constante de Laurence Tolhurst e a voz apática de Smith, que conseguem juntos edificar uma trilha gótica que encontra nas letras depressivas de teor existencialista deste último seu elo perfeito. 

Apesar de não ser considerada uma obra conceitual, a atmosfera densa e melancólica está presente em todos os recantos do álbum, manifestada tanto no lirismo encharcado de desprezo e amargura por praticamente tudo que circundava a vida de Smith à época, quanto no instrumental claustrofóbico estruturado a partir da monotonia do baixo marcante de Gallup e da bateria militar de Tolhurst.

O disco abre com “One Hundred Years”, considerada uma das preferidas para tocar nos shows, sombria até a medula e que contém um dos melhores riffs do álbum, confesso que esta música me dá calafrios até hoje. “A Short Term Effect” vem logo em seguida e não deixa por menos com seu clima de dia chuvoso, comandado por uma bateria em compasso insistente, riffs de guitarra a la Joy Division, baixo adiposo e Smith exibindo vocais cáusticos e cobertos de efeitos. Um momento um pouco mais solar surge com a estupenda “The Hanging Garden”, lapidada por um baixo serelepe, riffs lentos e viajantes, bateria inquieta e refrões repetidos. Vale dizer que esta faixa foi o único sucesso deste álbum, havendo alcançado o 34º lugar nas paradas da Inglaterra. Sem dúvidas, é a canção mais pop do disco, cujo instrumental contrasta com um conteúdo lírico que trata de um sentimento meio misantropo impregnado de zoomorfismo, na medida em que compara os desejos humanos a um comportamento primitivista e animalesco, notadamente nos versos cantados por Smith: “No calor da noite os animais gritam / No calor da noite caminhando em um sonho / Cair, cair, cair, cair / Nas paredes / Pule, pule fora do tempo / Cair, cair, cair, cair / Do céu / Cubra meu rosto enquanto os animais choram / No jardim suspenso”. 
    	
“Siamese Twins” está calcada na bateria e principalmente na voz indolente de Smith e continua descendo o abismo de melancolia e vazio existencial. Suas letras contam a história de um garoto que vai até um local de prostituição para ter a sua primeira relação sexual. No entanto, enquanto busca o prazer carnal experimenta os sentimentos de repulsa e vazio bem comuns a esse tipo de situação. A densidade permanece intacta nas notas de “The Figurehead”, uma canção que aprecio bastante, mormente pelos riffs encantadores e misteriosos de guitarra. Um passeio pela dor no qual Smith brilha mais uma vez com seus versos desesperados: “Me deixe em paz / E dormindo menos todas as noites / Conforme os dias ficam mais pesados e pesados/ Esperando na luz fria/ Um barulho um grito rasga minhas roupas enquanto as estatuetas se apertam/ Com aranhas dentro delas e poeira nos lábios de uma visão do inferno”. Em meio a teclados soturnos e uma bateria insistente “A Strange Day” adiciona mais uma pedra nessa sinfonia de tristeza, que tem na voz estafada de Smith seu ponto de redenção. “Cold” parece uma trilha de terror, assombrosa e mística ao mesmo tempo, teclados etéreos preenchem a paisagem sonora enquanto Smith lacrimeja seus versos. Abissal, cortante e atroz são os adjetivos que reservo para esta canção. 

A faixa-título fecha o concerto doentio, as vozes distorcidas no início encobrem um teclado macabro ao fundo que vai ganhando corpo, seguido por uma bateria grandiosa e galopante, mais uma vez invariável e num crescendo. Distorções e bizarrices instrumentais condimentam ainda o caldo fúnebre próximo do final e as letras mórbidas expõem a batalha do eu-lírico contra suas reais intenções que envolvem o desejo em ver sangue: “Mais um dia como hoje e eu vou te matar/ Um desejo por carne/ E sangue real/ E eu vou assistir você se afogar no chuveiro/ Empurre minha vida pelos seus olhos abertos/ Eu devo lutar contra esta doença/ Encontre uma cura/ Eu devo lutar contra esta doença.” 

Este álbum marca o final do período sombrio do grupo que tinha começado em 1980 com “Seventeen Seconds”. Vale dizer que em 2005 a revista Spin citou o álbum como um ponto alto da evolução musical do gótico e a publicação online Slant Magazine listou-o no 79º lugar na lista dos melhores álbuns da década de 80. O fato é que esse registro do The Cure propõe uma jornada lúgubre, mas paradoxalmente deleitosa, deixando a impressão de ser lançado solitariamente numa vertiginosa floresta escura iluminada apenas pelas estrelas sonoras radiantes gestadas por Smith e seus amigos.


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Pornography

Álbum disponível na discografia de: The Cure

Ano: 1982

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,6 - 5 votos

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