Resenha

Testimony 2

Álbum de Neal Morse

2011

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

03/02/2021



Um esforço fantástico do mestre do progressivo moderno

Como o seu nome já deixa claro, Testimony 2 é uma sequência épica em 2 CDs para o disco Testimony. Uma história musical de introspecção na vida de Morse. Um disco com a sua essência lírica enraizada na conversão de Morse ao cristianismo, decisão essa que foi tomada movida pela cura espontânea dos problemas cardíacos congênitos de sua filha, Jayda. Um milagre – já que nenhuma fonte natural de cura foi encontrada pelos médicos - em que o músico atribui à intervenção divina, mas precipitado por muitas orações. Mas não é necessário acreditar em nada disso para que você possa ser beneficiado pela música de Morse. Enquanto que o CD1 reflete a história, o CD2 é algo mais reflexivo e explora mais o funcionamento interno da fé de Morse. 

CD1:

“Mercy Street” começa o disco de maneira sensível através de uma melodia de piano muito bonita. Logo a uma transição para que toda a banda se junte e seja carregada por uma melodia de mini-moog até que os vocais de Morse aparecem. Um início brilhante movido por uma faixa de atmosfera inspiradora, progressiva e claramente positiva. 

“Overture No. 4” começa de forma bastante orquestral. O baixo virtuoso e teclados em camadas dão um toque de pura genialidade na faixa. A música se desenvolve de maneira pulsante dando uma sensação épica ao tema. A bateria do Portnoy sempre enérgica adiciona uma tensão. A música apresenta algumas mudanças e preenchimentos agradáveis. A forma como ela se move para faixa seguinte é sem nenhuma pausa, mas a transição possui certa reminiscência nas ideias de Snow – disco da Spock’s Beard e ex banda de Morse. 

“Time Charger” começa com uma cavalgada no baixo de George simplesmente impecável. Possui uma linha melódica muito enérgica na entrada de Morse. Com a sua linha nervosa e progressiva, possui elementos pra satisfazer qualquer fã do gênero que não esteja com a sua cabeça inclinada apenas para o passado. Além dos instrumentos comuns, vale ressaltar também o ótimo violino. Daquele tipo de faixa que vai simplesmente ficando melhor conforme vai avançando. 

“Jayda” carrega o nome da filha de Morse. Esta é a história comovente, mas finalmente alegre do seu “coração partido” e a cura subsequente. A forma com que as cordas vendem esta história é de uma emoção tão grande que não acho que ficaria muito atrás das melhores trilhas sonoras de Hollywood. Maravilhosa. 

“Nighttime Collectors” é uma faixa muito mais rock and roll do que foi apresentado até aqui. É interessante ver o quanto que Morse é incrível ao querer integrar uma grande diversidade musical ao longo do álbum. Mais uma música brilhante. 

“Time Has Come Today” é uma faixa em que parece querer refletir toda a maravilha e o trunfo da cura de Jayda Morse, além dos pensamentos na mente de Neal enquanto que ele pondera o caminho a seguir dado o que aconteceu. Como fazer a vontade de Deus e manter a sua integridade musical? Uma faixa de groove otimista e sincopado. Possui algumas mudanças complicadas e que tornam tudo ainda mais interessante. 

“Jesus' Blood” é um momento emocionante de decisão e desejo de tornar as coisas melhores, algo contra o qual os cristãos muitas vezes lutam ao viver em um mundo onde os valores cristãos são difíceis de manter. Uma faixa lindamente escrita que em termos de sensação e ritmo é facilmente notada à influência do Pink Floyd. Uma faixa dinamicamente maravilhosa. 

“The Truth Will Set You Free” é mais uma excelente música. Gosto muito da percussão estilo tribal por trás das harmonias de cordas. Aqui os vocais soam mais sombrios, profundos e com certo ar de mistério. Entre tantos detalhes que fazem a diferença, carrega um ótimo trabalho de teclado e uma tremenda orquestração. Também muito dramática, mostra o quanto Morse conseguiu articular incrivelmente de uma forma musical a sua experiência vivida.

“Chance of a Lifetime” começa com um riff progressivo e acelerado que havia sido tocado anteriormente em “Time Has Come Today”. É uma música que possui um conjunto instrumental muito intenso e dinâmico. Seu excelente groove também merece menção. Em determinado ponto os vocais entram com uma melodia que lembra momentos mais pop de Snow – novamente o disco sendo mencionado aqui. O forte trabalho de sax dá um toque bastante agradável e o solo de guitarra na parte final da música é belíssimo. Uma peça muito bem construída. 

“Jesus Bring Me Home” tem o início através de violão e cordas. A música parece mostrar Morse refletindo sobre uma barreira psicológica entre se perguntar como confiar tudo em Deus ou ficar com suas bandas para trabalhar um caminho para sobreviver. Inclusive é possível ouvir o desejo de Morse de sair da rotina e estar mais próximo de sua família. A música tem uma carga emocional incrível e apoia firme o sentimento de Morse. Possui um final denso, sinistro e reflete toda a dificuldade e tensão por trás desse enigma. 

“Road Dog Blues” é uma música bem mais alto astral. Sua atmosfera consegue refletir muito bem uma espécie de peso tirado dos ombros de Morse através um rock mais acelerado que mostra alívio e alegria. Tem em seu minuto final uma linha baseada em piano e mellotron que é muito emotiva. 

“It's For You” de certa forma e dentro das suas proporções é correto dizer que esta é a faixa mais popular do álbum. Possui um trabalho vocal bastante rico e instrumentação dinâmica cortando a música por toda a parte. Eu falo sem medo de estar exagerando que esta é uma faixa para qualquer período musical, podendo ser uma peça bastante forte em qualquer uma década desde o surgimento do rock progressivo. Há momentos que a orquestração é de tirar o fôlego. Possui uma estrutura extremamente agradável e classicamente organizada. Um verdadeiro tributo ao relacionamento e presença de Jesus na vida de qualquer pessoa, sendo muito bem contado através das emoções da experiência de Morse. 

“Crossing Over / Mercy Street Reprise” é onde Morse complete a cronologia do enredo do álbum e expressa o estabelecimento no caminho de uma nova vida. Possui uma melodia muito bonita e sua letra é retratada de forma tocante. Você pode até não ser cristão ou ser mesmo um ateu, mas não tem como negar a capacidade de Morse em escrever uma música e álbum de uma complexidade extremamente rica dentro de uma experiência por ele vivida. As cores sônicas estão certamente entre uma das melhores já compostas ao menos neste século. As ideias refletidas lá no começo do disco em, “Mercy Street”, são reafirmadas, em uma finalidade perfeitamente parecida com uma trilha sonora. O final é arrepiante e totalmente orquestrado. 

CD2:

“Absolute Beginner” é a minha música menos favorita no álbum – mas não chega a ser ruim, claro. A linha melódica é bastante simples e com reminiscência em muitos grupos cristãos de pop modernos, sendo claramente do tipo de música que é escrita para um apelo em massa. Como eu disse, não é exatamente uma faixa ruim, mas dentro de um disco como esse, fica aquém de qualquer outra. 

“Supernatural” é uma excelente power ballad. Possui um mini-moog que eu gosto bastante e mais alguns ótimos acordes subjacentes de guitarra. A melodia vocal é belíssima e as harmonias instrumentais são muito polidas e fortes. 

“Seeds of Gold”, com vinte e seis minutos de duração é uma daquelas epopeias musicais que é quase um sinônimo de Neal Morse. Já começa com um piano em estilo barroco que acho sensacional. O piano então é levado adiante até toda a banda entrar na música, mudando para sintetizadores e acordes completos. Mudanças de ritmo aumentam o acúmulo de tensão da faixa. Trata-se de um trabalho extremamente expressivo. Então que a direção muda e quem lidera é a seção rítmica através do baixo jazzístico de George e a bateria com bastante groove de Portnoy, antes que tenham a companhia de uma guitarra maravilhosa e linhas sinfônicas de sintetizadores. Isso tudo está sendo apenas uma preparação para que os vocais de Morse entrem pela primeira vez. É possível ver um pouco de Genesis nesse momento. A ponte vocal de perguntas e respostas que se sucede é muito boa. Aquele tema barroco do início da faixa regressa agora com a guitarra tocando a linha da melodia. Seria exagero dizer que em determinado ponto existe uma seção rítmica que dá ao ouvinte uma sensação quase de estar ouvindo o Red Hot Chilli Peppers? Pois é, mas existe isso na faixa – mas claro, com a melodia do topo sendo Morse puro. Um curto solo de guitarra e um de órgão se sucede de forma brilhante. Em determinado ponto a abertura é revivida com primeiramente uma ótima interação entre baixo e guitarra e depois entre bateria e teclado. Após uma pequena seção ”barulhenta” a faixa regressa de forma acústica e solo – ganhando a companhia dos demais instrumentos pouco depois -, além de lindo trabalho vocal de Morse que canta de forma bastante emocional. A faixa muda para o momento de um belo solo de Steve Morse – sim, não confundi o nome, Steve é o guitarrista desta faixa – que consegue elevar ainda mais a beleza da música. A faixa então volta para uma vibração mais Genesis dando o clima necessário pouco antes de chegar ao fim. Épicos não faltam no catálogo de Neal Morse, seja em bandas que participa ou carreira solo, mas mesmo assim acho justo colocar “Seeds of Gold” ao menos no pódio entre os mais incríveis da sua carreira. 

Durante muito tempo, apesar de belíssimos, sempre considerei os dois testemunhos de Neal Morse algo abaixo de alguns discos que tenho como o suprassumo de sua carreira, como é o caso de Sola Scriptura, One e Question Mark, mas depois de algum tempo, tentei não apenas ouvir a música, mas sentir o coração de Morse, a entrega do músico em cada segundo do disco, além de perceber o quanto a narrativa é significativa pra ele, algo que eleva o grau emotivo em vários momentos. Hoje me consideraria injusto se não colocasse ambos os testemunhos no mesmo panteão de obras mais significativas de Neal. Em resumo, um esforço fantástico do mestre do progressivo moderno, mostrando a sua forma mais liricamente intensa, musicalmente exigente e recheada de composições impressionantes.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Testimony 2

Álbum disponível na discografia de: Neal Morse

Ano: 2011

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 2 votos

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