Resenha

Fresh Fruit For Rotting Vegetables

Álbum de Dead Kennedys

1980

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

01/02/2021



Um clássico do punk rock!

Dead Kennedys sempre foi uma das minhas bandas preferidas da cena punk rock, e apesar de não saber especificar ao certo todos os motivos que me levam a tal predileção, o fato é que o som desses estadunidenses soa como um alarme de resistência ou mesmo uma centelha que acende as minhas intenções rebeldes de outrora. Na verdade, mostra que nunca é hora de baixar a guarda não importando o quão velho você esteja e onde está, e que sempre haverá a necessidade de se levantar contra as “coisas erradas” e protestar de alguma forma. Como diz a frase muito popular e atribuída a Martin Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Confesso que fiquei um bom tempo sem escutar nada que só contivesse três acordes, mas eis que de uma hora para outra o punk rock voltou a fazer parte das minhas playlists de streaming e sem querer fui pego dando chutes no ar curtindo novamente Dead Kennedys, Bad Religion, Buzzcocks, The Damned, Sex Pistols entre outros, como se as espinhas ainda pipocassem na face. 

Deixando de lado as confissões meio adolescentes de um quarentão (já se aproximando do cinquentão), reservo um tempo então para analisar esse notável registro, que considero um dos mais significativos para o punk e hardcore americano, quiçá mundial. Importante lembrar que a banda Dead Kennedys foi formada em 1978 na cidade de São Francisco na Califórnia, pouco depois, portanto, dos Sex Pistols e The Damned, por exemplo, estourarem na cena punk do Reino Unido com os estupendos “Never Mind The Bollocks Here's The Sex Pistols” e “Damned Damned Damned”, respectivamente.  

Tudo começa com um rapaz de nome Eric Boucher, depois rebatizado Jello Biafra, que viu pessoalmente os Pistols tocarem o terror nos EUA, mas que resolveu dar a sua própria versão do punk na América. Quando o jovem Eric atendeu ao anúncio feito pelo guitarrista East Bay Ray, que buscava um vocalista para sua banda de rock, e os dois se juntaram ainda ao baixista Klaus Flouride e ao guitarrista conhecido pelo codinome “6025”, cujo nome verdadeiro era Carlos Cadona, incluindo depois o baterista Ted, estaria formado ali então os Dead Kennedys. Inclusive, foi esta formação que gravaria “Fresh Fruit For Rotting Vegetables”, lançado no Reino Unido em setembro de 1980 pela Cherry Red Records, e nos EUA pelo próprio selo de Jello, Alternative Tentacles.     

É bom que se diga, ainda, não ser possível entender completamente este disco sem considerar todo o contexto político e social que circundava a banda. Reagan havia sido eleito presidente nos EUA em 1981 e sua postura populista de direita bem como o fundamentalismo cristão americano, além da “American Way of Life”, tornaram-se ingredientes perfeitos para que Biafra, já notabilizado por sua militância, pudesse construir seu discurso político contestador, veiculado, a partir daquele momento, também por meio de uma música de tendência vanguardista.  

Fresh Fruit... é um álbum arquitetado com inteligência, perspicácia e muito bom humor, no qual a banda condensa em suas letras sátiras e críticas ideológicas contundentes, regadas sempre com muita ironia e acidez, apontando seus canhões fulminantes sobre temas sociopolíticos americanos e até mundiais, como o consumismo, as guerras, os liberais conservadores, a igreja, a polícia entre outros. A música dos Dead Kennedys afasta-se um pouco da fúria seca dos Pistols e The Damned, propondo-se a flertar mais com a descontração do The Clash, mas sem perder, contudo, a nitroglicerina sonora.    

“Kill The Poor” dá o pontapé inicial, suas letras partem de um ângulo burlesco para tratar do texto igualmente irônico “Modesta Proposta”, no qual Jonathan Swift propõe a ideia bizarra de que as famílias pobres poderiam comer seus próprios filhos como alternativa para matar a fome (aliás, um assunto que lamentavelmente voltou com força total à pauta no Brasil, mormente após a Pandemia da Covid-19). Instrumentalmente, possui uma cadência incendiária após um começo mais lento, vocal de Biafra encarnando personagem de desenho animado (com o tempo você se acostuma!!), refrão chiclete e guitarras em riffs circulares e, até mesmo, um solo de guitarra limpo e bem atípico para o punk rock.  

“Forward To Death” exibe aquela bateria primária peculiar ao estilo, guitarras convergindo para caminhos sedutores nada repetitivos e Biafra cantando seus versos embebidos na habitual sagacidade. “When Ya Get Drafted”, por sua vez, é uma delícia rítmica, surpreendentemente balançante em alguns momentos. “Let's Lynch The Landlord’ faz parte da minha lista de prediletas, rock clássico e direto com refrão grudento, cujo ritmo seduz desde as primeiras notas. Inclusive, creio que com duas rotações abaixo e uma ajustada no vocal estaríamos diante dos Beach Boys (rsrsrs). Quando se diz que os caras não ficavam restritos aos três acordes é bom acreditar!!   
	
“Drug Me” é uma viagem sonora fanática protagonizada por um vocal insano de Biafra, acompanhado por uma igualmente alucinada guitarra e teclado saído do manicômio. “Your Emotions” tem uma veia punk rock jorrando em abundância e “Chemical Warfare” também não fica para trás com seu ritmo esquizofrênico (incluindo o momento do refrão) e direito a trechinho de música de parque de diversão, tocado com todo escárnio, obviamente.   	

“California Über Alles” é um dos maiores hits da banda, sua bateria e baixo marcantes no início anunciam o petardo com Biafra vomitando ferozmente. Eles usam aqui muito bem as mudanças de andamento e a dinâmica construída é tão magnética que não permite que o ouvinte disperse a atenção nem por um segundo sequer. Nas letras, Biafra faz dura crítica ao então governador da Califórnia, o democrata Jerry Brown, intitulando-o de fascista-zen, provando mais uma vez que a banda não poupava ninguém. Detalhe, “über alles” vem do alemão e significa “acima de tudo”, e foi apropriado pelos nazistas como lema com a seguinte forma: Deutschland über alles (A Alemanha acima de tudo), tirado da canção nacionalista Das Lied der Deutschen (A canção dos alemães), composta em 1841 por August Heinrich Hoffmann. Percebeu a conexão?? 

“I Kill Children” começa por meio de guitarras distorcidas e é outra canção de DNA Dead Kennedys, na qual a banda imprime um ritmo contagiante do começo ao fim. “Stealing Peoples' Mail” e “Funland At The Beach” estão longe de serem apenas “fillers”, e continuam a sequência avassaladora das anteriores. “Ill In The Head” tem guitarras abrasivas e um andamento estranho deixando o baixo na função de eixo sobre o qual giram a bateria e as guitarras. Biafra cospe seus versos mais uma vez sem dó nem piedade.  

“Holiday In Cambodia”, outro grande single de sucesso da banda, constitui um ataque irônico e feroz aos yuppies, uma espécie de hino antibelicista baseado no humor negro e que faz referência à Guerra Civil Cambojana, conflito envolvendo as forças do Partido Comunista do Kampuchea (conhecido como Khmer Vermelho), liderado pelo revolucionário Pol Pot, contra as forças governamentais. O baixo introdutório misterioso e apocalíptico é inesquecível (arrepia todos os pelos do corpo!!), seu ritmo meio sombrio delineado pelos teclados e guitarras místicas vasculham a mente e sacodem tudo. “Viva Las Vegas” fecha o álbum num ritmo de brincadeira calcada em guitarrinhas afáveis e inocentes. 

Os Dead Kennedys, assim como muitas bandas do mesmo gênero pelo mundo afora, geraram influências sentidas aqui no Brasil, notadamente na cena punk paulista e, embora alguns digam que eles tenham perdido a luta contra o conservadorismo americano, o grito de Biafra e sua trupe felizmente ecoou forte nos quatro cantos do planeta. Não há dúvidas de que o punk ainda vive e continua relevante como expressão musical e política!!!.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Fresh Fruit For Rotting Vegetables

Álbum disponível na discografia de: Dead Kennedys

Ano: 1980

Tipo: CD/LP

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