Resenha

Novo Aeon

Álbum de Raul Seixas

1975

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

01/02/2021



Um dos melhores discos do Maluco Beleza!

“Novo Aeon” foi lançado em 1975 pela Philips Records, é o quarto álbum de estúdio de Raulzito. Foi produzido e mixado por Marco Mazzola, inquestionável entendedor do riscado, um dos melhores produtores do Brasil, que havia trabalhado no disco "Krig-Ha Bandolo" de 1973. E que chegou aqui a um registro sonoro límpido e altivo, bem diferente do encontrado em outros álbuns que se produzia no Brasil à época.   

Historicamente, não era o melhor momento no País para artistas da linhagem de Raul Seixas (inquieto, subversivo, revolucionário e contestador), já que o Brasil se encontrava sob o manto de uma ditadura desde a década anterior, mais precisamente em março de 1964, após os militares destituírem o então presidente João Goulart e assumirem o poder. No entanto, mesmo com uma vigilância rigorosa dos “milicos” sobre a expressão do pensamento e opinião pública, Raul obteve êxito na tarefa de despistar a censura e veicular a sua mensagem, utilizando, para tanto, cifras, entrelinhas e sutilezas nas letras, o que felizmente acabou passando batido aos olhos precavidos e, por vezes, paranoicos do regime. 

Falar da importância de Raul Seixas no contexto da música brasileira é um exercício de certa redundância, ainda que ele só tenha alcançado efetivamente maior reconhecimento, assim como habitualmente ocorre com inúmeros artistas, após a sua morte. O fato é que este ilustre baiano conseguiu misturar nesta obra, com notável maestria, suas influências roqueiras, country, folk e blues, notadamente estrangeiras, com estilos mais regionalistas e nacionais (forró, baião etc). 

Como é normal ocorrer com as obras de um artista, vistas geralmente pela crítica de forma panorâmica e comparativa, gerando avaliações baseadas muitas vezes tão somente no sucesso comercial, “Novo Aeon” acabou sendo um pouco injustiçado, tendo em vista, sobretudo, a dura missão de haver sucedido dois grandes clássicos do Maluco Beleza, os impecáveis Krig-Ha Bandolo! (1973) e Gita (1974), que granjearam maior êxito comercial e ótima receptividade da crítica. Mesmo com vendagens consideradas pífias à época do seu lançamento, meras 60 mil cópias, este disco guarda algumas das grandes e eternas canções do Maluco Beleza: “Tente outra Vez”, “Rock do Diabo”, “A Maçã” e “Tu és o MDC da Minha Vida”.  

Um ingrediente que fez mais uma vez diferença perceptível na obra de Raul e se repetiu aqui com sucesso foi a parceria com o escritor Paulo Coelho, então hippie e envolvido com ocultismo. Porém, não há dúvidas de que as colaborações firmadas a partir de “Novo Aeon” com Cláudio Roberto e Marcelo Motta foram essenciais para o trabalho de Raul, em especial o primeiro, diria, que se tornou talvez um dos maiores e longevos parceiros do artista, colaborando na composição de diversas músicas e até mesmo nas letras de Raulzito.  

O disco abre com um dos maiores clássicos de Raul, verdadeiro hino da resiliência, exortando os derrotados e cabisbaixos a voltarem à luta, estou falando da fantástica balada rock “Tente Outra Vez”. Uma das letras mais inspiradoras e marcantes da carreira do artista, composta por ele, Paulo Coelho e Marcelo Motta. Com instrumental irrepreensível, envolvendo ótimo trabalho de bateria, de baixo e licks de guitarra inesquecíveis, sem falar nos excelentes vocais de apoio. A canção é considerada atualmente a terceira mais conhecida de Raul e foi incluída na trilha sonora do filme “Não Pare na Pista”, drama biográfico sobre Paulo Coelho dirigido por Daniel Augusto, bem como das novelas “Vitória” e “Malhação Sonhos”. É incrível como até hoje essa música consegue me tocar, funcionando como um empurrão ou mesmo um grito que diz mais ou menos assim: “vá lá, se joga, você pode !!!”. Um dos trechos que mais me agrada revela talvez a ideia de que o segredo não está na chegada e sim no caminho: “Tente (tente) / E não diga que a vitória está perdida / Se é de batalhas que se vive a vida / Tente outra vez” 

“Rock do diabo” é um rockão cinquentista bastante animado, resultante das influências de Raul na música americana, especialmente de gente da estirpe de Elvis Presley e Little Richard. Aqui a parceria com Paulo Coelho aparece nitidamente nas letras de teor ocultista que abordam a figura do diabo de maneira completamente diferente das religiões cristãs tradicionais. Destaque para uma ótima linha de baixo e um solo de guitarra fabuloso. 

“A maçã” vem logo em seguida e é a terceira música do disco, balada cantada em falsete por Raul. Suas letras abordam a ideia do amor livre, não exclusivista e distante das amarras e grilhões. Se hoje o poliamor ainda é visto como um tabu pela sociedade, imagina só naquela época!!! Aqui, na verdade, Raul reconhece de maneira perspicaz e sofrida a impossibilidade de pleno sucesso do projeto tradicional de relacionamento um-homem/uma-mulher, pregando uma liberdade sexual mais ampla, mas como se indicasse o ciúme e o desejo como variáveis críticas ao alcance do êxito. Enfim, parece que Raul enxergava a perspectiva de relacionamento encampado pelos escritores franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre, na qual a submissão de um dos pares não era aceita e nem tampouco o ciúme, havendo liberdade para a busca de outros parceiros, porém, desde que todas as aventuras amorosas extras fossem postas à mesa. No entanto, os versos de Raul não apontam necessariamente para a certeza de sucesso de tal projeto amoroso inovador, deixando-o aparentemente como uma questão aberta. 

“Eu sou Egoísta” é mais um rock de inspiração na década de 50 com uma linha de baixo excelente, bateria inquieta e solo de guitarra genial. Suas letras são baseadas no anarcoindividualismo do filósofo niilista alemão Johann Kaspar Schmidt, mais conhecido como Max Stirner, que parece também ter servido de bússola para construção da ideia da letra de Sociedade Alternativa de “Gita”. O anarquismo individualista defende a vontade consciente do indivíduo sobre qualquer tipo de determinação externa, pregando que o ser deve ser um fim em si mesmo e não um meio para uma causa mais ampla (sociedade, tradições, sistemas ideológicos e políticos etc.)   

“Caminhos” tem um instrumental calcados nos violões e percussão, e letra filosófica típica de Raul, enquanto que “Caminhos II”, sua continuação, penúltima faixa do disco, apresenta um ritmo levemente funesto e tristonho, com Raul entoando seus versos poéticos e reflexivos num caminho pavimentado por um violão dedilhado. “O caminho do acaso é a sorte/ O caminho da dor é o amigo/ O caminho da vida é a morte”, canta Raul.  

“Tu és o MDC da minha vida” é uma das melhores do disco, que música fascinante! um balanço brega romântico da melhor tradição de Reginaldo Rossi. Linha de baixo marcante, bateria saltitante e o que parece ser um trompete em inserções eventuais empolgantes. Seus versos são bem humorados e igualmente inteligentes, dos quais destaco o seguinte trecho: “Eu me lembro/ Do dia em que você entrou num bode/ Quebrou minha vitrola e minha coleção de Pink Floyd”.

Em “A Verdade Sobre a Nostalgia” a bateria e um baixo jazz da introdução deixam claro que se está diante de mais um rock com raízes na década de 50.  Sua letra aborda a evolução cultural entre as gerações e a vontade de se contrapor aos valores e vertentes do passado: “Tudo quanto é velho eles botam pra eu ouvir/ E tanta coisa nova jogam fora sem curtir/ Eu não nego que a poesia dos 50 é bonita/ Mas todo o sentimento dos 70 onde é que fica”. Mesmo reconhecendo a relevância na década de 50, na qual bebeu com muita intensidade, Raul fala da necessidade de olhar para frente e não ficar ultrapassado.   

“Paranóia” é uma canção na qual Raul aborda mais um tema de Stirner, neste caso ele lida com o medo à onipresença de Deus, clima que encontra ressonância instrumental num piano de notas um tanto assombrosas. Contando ainda com ótimo trabalho de guitarras, que se revezam em atmosferas bluesy, country e rock, incluindo solos impecáveis. As letras fazem uma velada referência à masturbação no trecho: “Vacilava sempre a ficar nu/ Lá no chuveiro, com vergonha/ Com vergonha de saber/ Que tinha alguém ali comigo/ Vendo fazer tudo que se faz dentro do banheiro/ Vendo fazer tudo que se faz dentro do banheiro.”  

“Peixuxa (O Amiguinho Dos Peixes)” é uma canção de conotação infantil e de batida inocente que aborda a ecologia, cujas bases instrumentais percorrem um caminho que remete de maneira cristalina à canção "Ob-La-Di, Ob-La-Da" dos Beatles. “É Fim De Mês” consiste num verdadeiro caldeirão de misturas com trabalho percussivo incluindo ritmos de candomblé, baião, forró, rock, rumba e blues. Suas letras tratam ironicamente o ciclo interminável e, desgastante, de “pagar contas”, ao qual todo assalariado está submetido sempre que chega ao fim do mês, como se a vida fosse resumida a essa banal obrigação. 

“Sunseed”, cantada em falsete por Raul no idioma inglês, é creditada ao próprio e também a Spacey Glow, que na verdade é o pseudônimo de Glória Vaquer, segunda mulher do cantor, que também é irmã do guitarrista Jay Anthony Vaquer, norte-americano radicado no Brasil. Uma balada country que leva o disco para uma dimensão de paz e tranquilidade. 

A faixa-título, cujo lirismo é uma ressignificação da proposta de "Sociedade Alternativa", fecha o disco brilhantemente ressoando uma densidade mística que geralmente aparece em músicas do Maluco Beleza. Faz uso de mensagens dissimuladas por meio de um instrumental country acalorado, com destaque para as guitarras e os arranjos. Esta letra anuncia a chegada de um novo tempo (daí o termo “aeon”, que significa era), um momento que, independentemente do que faça o ser humano, está para chegar, como uma evolução natural do universo, um mundo mais livre, justo e feliz, cantado em tom profético por Raul: “Sociedade alternativa, sociedade novo aeon/ É um sapato em cada pé/ É direito de ser ateu ou de ter fé/ Ou de ter fé/ Ter prato entupido de comida/ Que você mais gosta/ É ser carregado, ou carregar/ Gente nas costas/ Direito de ter riso e de prazer/ E até direito de deixar/ Jesus Sofrer”. 

“Novo Aeon” é uma obra de Raulzito que não pode ser esquecida, pois é um dos seus melhores discos, um trabalho que traz inúmeras temáticas e texturas musicais, tendo um lugar de respeito na discografia do Maluco Beleza.


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Novo Aeon

Álbum disponível na discografia de: Raul Seixas

Ano: 1975

Tipo: CD/LP

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