Resenha

If This Bass Could Only Talk

Álbum de Stanley Clarke

1988

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

31/01/2021



Ampliando os horizontes do baixo elétrico

No inicio dos anos 80 Stanley Clarke já havia gravado com os maiores nomes do fusion e integrado um dos grandes grupos do estilo, o Return to forever ao lado de Chick Corea, Al Di Meola e Lenny White. O baixista tinha se tornado ao lado de Jaco Pastorius, a maior referência em seu instrumento e gravava discos solo regularmente desde 1973.

Porém, no inicio daquela década, Clarke havia gravado discos e projetos de gosto duvidoso, variando entre o pop descartável e o easy listening (aquele jazz chato de consultório odontológico que tinha se tornado moda nos EUA).

Esses projetos fizeram exatamente o efeito inverso, com muitos admiradores perdendo o interesse na carreira de Clarke, mesmo sendo um dos baluartes do contrabaixo.

Então, em 1987, o músico se juntou ao produtor Byron Miller para gravar um disco de fusion com qualidade, que o fizesse ser novamente admirado pela comunidade jazzística e pelos amantes do fusion.

A ideia era utilizar o baixo elétrico não só como instrumento de base, mas também como solista, harmonizando as canções e inserindo uma dose a mais de melodia nos temas. 

Para a empreitada, Clarke reuniu um time invejável de músicos de todas as vertentes e também optou por deixar sua criatividade fluir em diferentes direções, não se prendendo em estruturas musicais similares.

A faixa titulo e “Bassically Taps” que respectivamente  inicia e encerra  o álbum é uma grande prova desta criatividade: o baixista empunha seu baixo Alembic de 4 cordas acompanhando somente pelo dançarino e sapateador Gregory Hines, que juntos improvisam sobre tema mostrando que o baixo consegue se encaixar bem em qualquer situação. Especialmente “Bassically...” que transborda groove;

Após a breve faixa título, o álbum segue com um dos maiores hinos do jazz: “Goodbye Pork Pie Hat”, tema de Charles Mingus em uma versão arrebatadora com o baixo de Clarke dividindo os solos com o sax melódico de Wayne Shorter. A funkeada “I Want to Play for Ya” é o único equivoco do disco. Uma faixa meio eletrônica, meio pop, encharcada de efeitos, provavelmente devido a influência do citado easy listenning. Mas conseguiu ser pior;

O clima melhora muito em “Stories to Tell”. Gravada em trio, Clarke conseguiu reunir na mesma canção o mítico guitarrista Alan Holdsworth e o baterista Stewart Copeland (The Police). A construção melódica aqui me lembrou bastante os discos do violinista Jean Luc Ponty, apesar de não ser utilizado o instrumento; “Funny How Time Flies (When You're Having Fun)” traz novamente o baixista dividindo os holofotes com outro gênio do jazz, o trompetista Freddie Hubbard. Impossível não perceber a influência direta dos últimos discos de  Miles Davis na concepção da faixa;

“Working Man” e “Tradition” são temas com andamentos diferentes, mas criados sob a mesma percepção: em ambos os casos a cozinha é formada pelo baixista Jimmy Earl e o baterista Gerry  Brown, deixando Clarke a vontade a frente do tema, para realizar solos utilizando baixos comuns e Piccolo, como um instrumento solista. Uma ótica diferente para a época, que elevou ainda mais as fronteiras do contrabaixo subvertendo seu conceito de instrumento de base;

A penúltima faixa, “Come Take My Hand”, é um tema mais simples e acessível, com o sax de George Howard fazendo contraponto com o baixo. Tudo aqui foi pensado para soar como uma balada e cativar os ouvidos desacostumados com a música instrumental. Mas o resultado foi satisfatório.

“If This Bass Could Only Talk”, não pode ser considerado um álbum de jazz ou mesmo o fusion clássico imortalizado pelo baixista na década anterior. Há uma gama maior de influências em torno dos temas. Mas sua idealização serviu não só para trazer Clarke de volta para o território da música instrumental de qualidade, com influência jazzística, como também para elevar o contrabaixo como instrumento de base, ampliando sua concepção rítmica e harmônica.  Uma grande evolução na carreira do músico.


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Sobre o álbum

If This Bass Could Only Talk

Álbum disponível na discografia de: Stanley Clarke

Ano: 1988

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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