Resenha

Raul Seixas e Marcelo Nova: A Panela Do Diabo

Álbum de Raul Seixas

1989

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

22/01/2021



O derradeiro registro do Maluco Beleza lançado em vida!

“A Panela do Diabo” é o décimo quinto e último registro de Raulzito lançado em vida, composto em parceria com o amigo e conterrâneo Marcelo Nova, líder e fundador da ácida banda de rock Camisa de Vênus. O disco foi gravado em março de 1989 pela WEA, com a qual Raul não trabalhava desde 1979 – LP “Por quem os Sinos Dobram”. “Panela do Diabo” foi lançado em 19 de agosto de 1989, a dois dias apenas da morte de Raul. Este exemplar obteve um excelente desempenho comercial, faturando o disco de ouro com um total de cerca de 150.000 mil cópias vendidas no Brasil. A propósito, suspeita-se que a morte do cantor pode ter aumentado o interesse pelo disco, uma vez que Raulzito infelizmente não experimentava seus melhores dias na carreira, estando, inclusive, um pouco esquecido pela mídia e indústria fonográfica desde o lançamento de “A Pedra do Gênesis”, de 1988, que foi um fiasco comercial, insucesso atribuído mais ao ineficiente processo de divulgação feito pela gravadora Copacabana que à própria qualidade do disco em si.    
 
A ideia de produzir “A Panela do Diabo” nasce de uma séria de apresentações feitas por Raul entre 1988 e 1989 em parceria com Marcelo Nova, que inclusive já declarou que antes de ser amigo de Raul era um grande fã do Maluco Beleza. Antes, porém, vale lembrar que Raulzito havia participado de três shows de Marceleza, em Salvador, no ano de 1988. A amizade dos dois encorpou nos idos de 1986, quando Marcelo gravou “Ouro de Tolo” para o disco “Correndo o Risco” do Camisa de Vênus e no ano seguinte comporia junto com Raul a música “Muita Estrela, Pouca Constelação”, uma ferrenha crítica ao “show business” que iria integrar o repertório do excelente álbum “Duplo Sentido”, lançado pelo Camisa em 1987 pela WEA. 

Apesar de estar enfrentando uma fase ruim na carreira, como dito antes, parece que as participações nos shows de 1988 com Marcelo reacenderam um pequena chama de interesse sobre a obra de Raul, com alguns fãs matando a saudade e uma nova geração tendo a oportunidade de conhecê-lo, já que sua última apresentação datava de dezembro de 1985. Ainda que a sua condição de saúde não fosse das melhores, pois era perceptível que o vício em álcool havia detonado a integridade física do Maluco Beleza, a afinidade com Marcelo, a oportunidade de se apresentar para plateias fanáticas por sua música assim como a possibilidade de faturar uma graninha para custear suas despesas (consta que enfrentava algumas dificuldades financeiras para cuidar da saúde) provavelmente foram combustíveis importantes para a realização da empreitada. Segundo relatos expostos  no documentário “O Início, o Fim e O Meio, disponível na Netflix, alguns até criticaram Marcelo à época por esse fato, afirmando que ele estaria se aproveitando da fama que Raul ainda gozava. Prefiro pensar, no entanto, que ele conseguiu proporcionar uma despedida digna a um dos maiores nomes da música brasileira, permitindo que Raul, não obstante sua precária condição de saúde, fizesse aquilo que tanto gostava e que os fãs mais apreciavam: cantar e tocar. 
 
Desta forma, após inúmeras apresentações ao vivo para divulgar o novo trabalho, que estava em gestação, os dois realizaram ainda aparições em programas televisivos para também promover “A Panela do Diabo”. No álbum, nota-se o preço que a vida desregrada cobrou, lamentavelmente, do Maluco Beleza, já que sua voz se mostra bastante desgastada, sem falar na sua aparência física que revelava flagrantemente o ganho de peso e uma feição mais abatida.  

Após o delineamento de todo o contexto acima, agora é hora de falar do álbum, que, além de Marcelo Nova e Raul, contou com o apoio da banda Envergadura Moral, grupo vocal e instrumental de rock formado em 1987 em Salvador (BA), que acompanhava Marcelo em sua carreira solo nos shows e gravações, além dos músicos convidados André Cristovam - guitarra elétrica; Ricky Ferreira - pedal steel; Luiz Bueno de Carvalho e Paulo Calazans - violões e; Kris, Maria Eugênia e Fátima – vocais. 

O disco começa com um trecho curto de “Be-Bop-A-Lula”, de Gene Vincent e Bill "Sheriff Tex" Davis, com Raul e Marcelo cantando simultaneamente à capela, revelando logo de cara as influências rockabilly de ambos. Logo em seguida vem a saborosa “Rock And Roll”, com o baixo de Carlos Alberto Calazans comandado o show, Raulzito e Marceleza se alternando nos vocais, enquanto as guitarras inserem solos e licks sensacionais e o piano de Johnny “Boy” Chaves encorpa a textura rockabilly com notas típicas. Ao final ainda aproveitam para cantar os versos de “Roll Over Beethoven”, de Chuck Berry. Há uma única certeza aqui, eles se divertiam pra caralho!! 

A terceira faixa é uma das minhas preferidas, “Carpinteiro do Universo”, composição de Raul e Marcelo, uma balada country que começa com um piano melancólico de Johnny “Boy” e que tem logo depois a companhia de uma linha de baixo respeitável de Calazans e Ricky Ferreira usando e abusando do pedal steel. As minhas memórias remetem imediatamente para a primeira vez que assisti ao vídeo dos dois artistas cantando essa música no Programa do Jô Soares Onze e Meia. Como gosto das letras desta canção, principalmente do trecho final: “Carpinteiro do universo inteiro eu sou (Ah eu sou assim!) / No final /Carpinteiro de mim!”. 

“Quando Eu Morri” é a quarta faixa, foi composta por Marcelo que é o único a cantá-la aqui. Suas letras se utilizam do recurso metafórico, bem peculiar ao lirismo de Marceleza, refletem sobre a existência e a morte. Instrumentalmente, é um blues calcado num violão de batida relaxante, nas notas do Hammond e num baixo elegante de Calazans. Vale ressaltar que Marcelo produziu muitas faixas parecidas com esta ao longo da sua carreira solo. 

“Banquete de Lixo” apresenta Raul com sua clássica empostação vocal mais rouca, enquanto Marceleza se ocupa de reforçar o refrão. Lembro que ficava pensando sobre as letras desta música, numa tentativa de decifrar os versos: “O hoje é apenas um furo no futuro/ Por onde o passado começa a jorrar/ E eu aqui isolado onde nada é perdoado/ Vi o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar.” Depois descobri que são bem pessoais e abordam o período em que Raul esteve exilado nos Estados Unidos e que o trecho que diz: “muitas mulheres eu amei com tantas outras me casei”, faz uma espécie de reflexão sobre a experiência dos cinco casamentos (menino danado....rsrsr) do Maluco Beleza.

“Pastor João e a Igreja Invisível” é uma sátira aos líderes religiosos charlatões que lamentavelmente se aproveitam da “boa” fé das pessoas para enriquecerem indevidamente em nome de Deus (aliás, vale dizer que essa letra não perdeu a sua atualidade temática). Um rock animado puxado pelo piano de Johnny Boy que protagoniza um excelente solo de hammond. Destaque também para a linha de baixo de Calazans. Uma canção clássica de Raul, que na verdade foi composta em parceria com Marcelo.  

“Século XXI” dá continuidade aos trabalhos, mas tem uma rotação mais baixa que a anterior. Outra ótima letra, de teor filosófico e amargo, que medita sobre o sentido da vida, o tempo e a ausência de perspectivas. “Se você correu, correu, correu tanto/ E não chegou a lugar nenhum/ Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI”. Há aqui um certo descompasso vocal entre Raul e Marcelo, porém, nada que comprometa a qualidade da música, que tem um competente instrumental, baseado no piano, violão, baixo e bateria.   

O rock mais pujante de “Nuit” é uma grata surpresa a essa altura da audição, foi composta por Raul e sua mulher à epoca, Kika Seixas. Raul canta sozinho, mas utiliza também o apoio de excelentes vocais femininos (desafina uma pouco, mas qualquer fã que se preze vai ser leniente com Raulzito). Aqui é Raul na veia, adoro essa canção. Alguns de seus versos meio dylanianos, inclusive, fazem referência à obra do filósofo Arthur Schopenhauer no livro “As dores do Mundo” ao abordar a morte. Aprecio muito o seguinte trecho: “Eu sou o mistério do sol! Eu sou o mistério do sol! / Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia/ Sou da noite a companheira mais fiel qu'ela queria!/ Yeah, yeah, yeah, yeah!”.   

“Best Seller” traz novamente o bom humor nas letras, traço característico do lirismo de Nova e Raul. Rock alegre e um tanto juvenil com destaque para o solo rockabilly de hammond, mas sem esquecer do baixo clássico de Calazans e a bateria compassada e aprazível de Franklin Paolilo. Aqui mais uma vez a voz de Raul cambaleia e lembro que se trata de sua despedida, portanto, ao inferno a afinação, Raulzito era f...!! 

“Você Roubou o Meu Videocassete”, mais uma composição de Raul e Marcelo, que a cantam juntos, é uma canção que gosto, porém, não recomendo abusar das audições. O solo de teclado é singelo e dá um certo charme ao conjunto instrumental. Perdi as vezes que cantei o refrão dessa música, fazendo questão de entoar uma voz renitente só para perturbar quem estivesse por perto.  

O encerramento fica por conta de “Câimbra No Pé”, uma música típica do Camisa de Vênus, embora seja também fruto da parceria com Raul, que considero a mais fraca do álbum. Cantada por Marcelo e acompanhada por uma guitarra discreta, fazendo uso também de sintetizadores. Seu solo de guitarra revive nitidamente canções do Camisa.  

Obviamente que “A Panela do Diabo” não se aproxima dos discos mais clássicos de Raulzito, a exemplo de “Gitã”, “Krig-ha, Bandolo!” e “Novo Aeon”, todavia, por proporcionar ótimos momentos e ser, sobretudo, o derradeiro desse grande cantor e compositor da música brasileira, o meu conselho é: aproveite, aqui é Raul Seixas, toca Raul!!


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Raul Seixas e Marcelo Nova: A Panela Do Diabo

Álbum disponível na discografia de: Raul Seixas

Ano: 1989

Tipo: CD/LP

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