Resenha

Your Wilderness

Álbum de The Pineapple Thief

2016

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

21/01/2021



O mais denso e completo trabalho da banda

Este é o décimo primeiro álbum de estúdio dos britânicos e marca o retorno da banda a um som genuinamente progressivo, após alguns lançamentos um tanto desfocados e menos relevantes. Com sua instrumentação muitas vezes  minimalista, mas que não compromete a qualidade em termos de rock progressivo, graças, sobretudo, à capacidade dos músicos de criar climas majestosos e paisagens sonoras arrebatadoras, “Your Wilderness” mostra uma banda madura e consciente do caminho que pretende seguir, com harmonias vocais comoventes, reverberações sonoras incríveis, lirismo estelar e emotivo, assim como um sentido de profundidade absolutamente singular que consegue cativar o ouvinte desde o primeiro acorde.  

Indubitavelmente, pode-se dizer que uma parte do êxito deste álbum deve-se à participação de ilustres convidados e também a pequenas alterações na formação que havia gravado o disco anterior, “Magnolia”, de 2014. Anote aí: o excelente baterista Gavin Harrison (Porcupine Tree e King Crimson) substituiu Dan Osborne; o competente Geoffrey Richardson (Caravan), por sua vez, fez os arranjos de cordas e tocou violino, viola e violoncelo em duas faixas; John Helliwell (Supertramp) tocou clarinete na faixa “Fend for Yourself”; Darran Charles (Godsticks), que havia atuado no anterior, ficou incumbido de tocar algumas partes pontuais de guitarra. Complementando, naturalmente, o líder Bruce Soord, que fez todas as composições, no vocal, guitarras acústica e elétrica e violões; Steve Kitch no piano, sintetizador, mellotron e Hammond e; Jon Sykes no baixo. 

Merece destaque a arte de capa que traz uma bela fotografia vintage de uma família (provavelmente mãe e filha) ao lado de um automóvel com uma paisagem de solidão ao fundo, na qual pode ser depreendida uma mensagem de espera pelo último encontro ou mesmo a busca por um pai ou homem desaparecido, talvez perdido em algum lugar nas encostas da desolação. Este painel abissal de espera por algo ou despedida será uma constante no lirismo melancólico que Soord construiu para o álbum. Aliás, vale dizer que ele também escreveu todas as letras e que a tela de sofrimento mais basilar do ser humano aparece nitidamente aqui, tendo como foco a perspectiva da tragédia, perda, dor, separação e, muitas vezes, desânimo. 

O single "In Exile" abre o disco vasculhando emoções profundas com Bruce Soord empostando um vocal encantador tendo um sinérgico e alternado apoio vocal de Kate Chapman, Gareth Jones e Sarah Best. O baixo marcante de Jon Sykes, a bateria proeminente de Garvin e o mellotron de Steve Kitch rapidamente se juntam ao conjunto. O elegante solo de guitarra logo após os 3 minutos inaugura uma sessão mais vigorosa e de vocação instrumental que será a tônica da segunda parte da música, puxada principalmente pelas guitarras e mellotron, mas abrilhantada sobretudo pelo ótimo trabalho percussivo de Gavin Harrison. Riffs pesados e um solo de guitarra espetacular tratam de fechar o show. Uma canção que dissipa um sentimento de solidão, o qual se mostra coerente com o próprio lirismo que Soord cristaliza num lamento sereno e introspectivo. 

"No Man's Land" começa em dedilhado de cordas e vocais sensíveis de Soord, há algo logo no início que não sei explicar e que remete a baladas do Marillion. Essas harmonias vocais logo são complementadas por teclas discretas e mais à frente por uma bateria esplendorosa de Garvin, cujas viradas sensacionais impressionam. Que trabalho percussivo fantástico!! momento em que riffs de guitarra mais pesados surgem no meio do cenário e capturam o clima mais ameno encerrando de forma magistral numa sessão de rock arrepiante.  

"Tear You Up" tem riffs acentuados de guitarra logo na abertura, seguidos por uma bateria inquieta e marcante de Garvin, uma linha de baixo cheia de Jon Sykes e uma chuva ocasional de mellotron, eis que a canção assenta em vocais mais calmos, embora continue alternando em riffs vigorosos, principalmente na segunda parte (o metal pesado na marca dos 3 minutos é quase incomum para o som da banda), quando a bateria também resolve dar um show à parte. Um refrão comovente e cantado com paixão por Soord. “E agora estou a caminho do mar aberto / O que resta de mim / E eu continuo sonhando com uma costa distante / Para uma costa distante.” Nessa faixa a palavra monotonia não chega nem perto. 

A esplêndida "That Shore" transporta o ouvinte para um túnel de reflexão e melancolia com seus sintetizadores e bateria programada climática. Uma peça radiante que flui entre a desolação e a impassibilidade, capitaneada por um vocal magnifico de Soord, cujo desespero e agonia exalam dos poros em abundância, algo próximo ao sentimento propagado de "My Ashes" da Porcupine Tree. Devastadora em sua tristeza e embotada de pessimismo! Não há nada nesta faixa que precise ser retificado, aplainado, retirado ou incluído, simplesmente uma perfeição instrumental molhada de desesperança. “Basta puxar a corda / E isso é tudo o que vou implorar de você / Porque seu rosto está me deixando...”  

Em “Take Your Shot” Jon Sykes exibe suas qualidades de baixista tirando uma sonoridade meio pós-punk de seu instrumento. Os riffs de guitarra se revezam entre uma musculatura imponente e uma textura mais orgânica a la New Model Army. O canto de Soord passeia pelo pop rock, Steve Kitch produz uma camada sonora discreta com seu Hammond e as harmonias vocais vão se alternando entre momentos mais amenos e fortes no meio da paisagem. O solo de guitarra recheado de efeitos de pedal cortesia de Darran Charles é matador. 

"Fend For Yourself" tem na abertura uma guitarra dedilhada que lembra rapidamente Riverside e vocais ternos de Soord. Essa trama mais cadenciada é acentuada pelo piano e por um solo encantador de clarinete executado por John Anthony Helliwell. A atmosfera vocal acrescentada pelo apoio de Kate Chapman, Gareth Jones e Sarah Best é fascinante, um verdadeiro deleite para os ouvidos.   

E quando parece que as coisas não podem melhorar vem a estupenda "The Final Thing On My Mind", uma obra-prima da música progressiva e a mais longa do disco. Guitarras climáticas e de tendência minimalista, bateria onipresente de Garvin e vocais charmosos e carregados de Soord dão o tom. Melancólica e transpirando emoção, essa música é um absurdo de soberba. Ela alterna entre violões e atmosferas mais sombrias, e faz isso sem se tornar maçante e mantendo a sua identidade labiríntica. As façanhas percussivas de Garvin na segunda parte são invejáveis, de tirar o fôlego. E uma sessão de guitarras melódicas e ostensivas quase ao final é de cair o queixo, sem esquecer do solo de guitarra que parece ter emergido das profundezas da alma. Suas letras desempenham aqui uma função primordial, rememorando uma história de amor que se transformou em dor e descontentamento, uma admoestação irrefutável em última instância, diria. Os versos cantados por Soord: "A cada amanhecer é você quem eu vejo, voltando para mim/ Tudo o que você fez é uma parte de mim, arrancada de mim" são de partir o coração de qualquer ser vivente.  

A jornada termina na emocional “Where We Stood”, uma ótima canção calcada nas cordas acústicas de Steve Kitch, com a guitarra produzindo licks altos e esplêndidos e ladrilhada por um vocal tristonho de Soord. Um final lindo e bastante digno de tudo que foi feito até então.   
“Your Wilderness” pode ser definido como um feito espantoso de Soord e sua trupe, um trabalho que é de longe o mais denso e completo de toda a discografia do The Pineapple Thief. Nesse sentido, parece ser quase impossível não reconhecer os grandes méritos dessa empreitada, na qual a envergadura estelar, a cristalinidade melódica e a desoladora emotividade irão levar o ouvinte para uma viagem indescritível de puro êxtase. 
 
Songs / Tracks Listing
1. In Exile (5:40)
2. No Man's Land (4:20)
3. Tear You Up (4:53)
4. That Shore (4:36)
5. Take Your Shot (4:34)
6. Fend for Yourself (3:49)
7. The Final Thing on My Mind (9:52)
8. Where We Stood (3:46)
Total Time 41:30


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Your Wilderness

Álbum disponível na discografia de: The Pineapple Thief

Ano: 2016

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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