Resenha

SMPT:e

Álbum de Transatlantic

2000

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

19/01/2021



SMPT:e marca o surgimento do maior supergrupo de rock progressivo do século XXI

Em seu disco de estreia é certo afirmar que o Transatlântic criou uma verdadeira obra-prima do rock progressivo sinfônico contemporâneo? Talvez, afinal o disco conta com belíssimas composições – de arranjos e estruturas -, musicalidade e performances que são em muitos momentos incríveis aulas de como se fazer música. Mas existe um ponto que talvez o disco precisasse melhorar, pois apesar de composições maravilhosas, como álbum nem sempre ele parece coeso. Por exemplo, quando falamos de um épico como, “All of the Above”,é possível sentir um pouco de fluxo meio desalinhado. 

“All of The Above” é um épico dividido em seis partes, mas que não são fáceis de discernir uma da outra. É fortemente influenciado pela Spock’s Beard, dando a entender que embora seja uma banda formada quase toda por líderes, Morse ainda é quem fala um pouco mais alto. Essa verdadeira expedição de mais de meia hora é uma peça verdadeiramente grandiosa dentro do que podemos chamar de rock progressivo moderno – ainda que existam também alguns sons que nos remetem a linha mais 70’s do gênero. O que mais se destaca na faixa são os teclados de Morse e a guitarra de Stoilt. Na seção intermediária vale ressaltar que Trewavas usa o baixo quase como uma guitarra base, tocando de uma maneira forte e uniforme. Portnoy durante a faixa mostra aquilo que sempre esperamos dele, uma incrível versatilidade, sempre fornecendo para a música exatamente aquilo que ela precisa ritmicamente. “All of The Above” não é uma composição que flui de uma maneira muito suave, sendo que muitas das suas mudanças de estilos são de forma bastante abrupta. No geral, não vou dizer que considero essa epopeia musical uma obra-prima irretocável, mas certamente as suas virtudes estão bem acima de qualquer defeito – até porque eles são mínimos. 

“We All Need Some Light” começa com um violão em um modo bastante suave e delicado. Predominantemente acústica, vai se desenvolvendo em tons dramáticos. Destaque também para o bonito solo de violão. Como balada, funciona bem no disco, ainda que seja a faixa que menos brilhe. 

“Mystery Train” começa bastante otimista em uma linha mais funkeada – não acho que seria exagero falar que poderia ser uma espécie de Gentle Giant moderno. O refrão é do tipo muito acessível e que logo gruda na cabeça. Esta composição é extremamente bem sucedida na ideia de combinar o rock com funk e alguns sons mais distorcidos. Destaque para o momento que apenas baixo e bateria tocam a música, sendo logo seguido por um teclado sinfônico. Uma faixa maravilhosa. 

“My New World” começa através de uma seção de cordas lindíssimas em que há uma clara exploração sinfônica de música clássica. Então a guitarra entra e passa a conduzir a banda em uma explosão instrumental majestosa. Piano e baixo assumem o controle antes de Stolt finalmente assumir os vocais – e talvez por isso essa seja a música com mais a cara da The Flower Kings. Possui um ótimo refrão e a pausa instrumental que a banda sofre é bastante influenciada no Yes, principalmente pelo trabalho de guitarra. A música ainda passeia por muitos modos da música progressiva, em andamentos sempre cheios de técnica e desdobramentos instrumentais, mas sempre mantendo muito bem o fluxo da música. Possui um solo de guitarra após o solo de teclado que é impressionante. A música termina em uma linha progressiva dramática. 

"In Held ('Twas) in I” é a faixa que encerra o disco e que na verdade é um cover da Procol Harum. Começa de forma falada seguida por uma peça instrumental que serve como abertura. Linhas melódicas clássicas e passagens grandiosas da versão original e que são características marcantes da Procol Harum estão presentes aqui também.  Apesar de esse cover ser muito digno, acho que o disco de estreia da banda deveria ter fechado com uma composição própria, na verdade não acho que um cover caiu bem aqui, porém, talvez isso seja apenas bobagem da minha parte. As partes que Stolt canta desta vez soam bem estranhas e nunca consegui me decidir se gostei ou não. Por volta dos sete minutos a faixa passa a ser liderada por um órgão e viradas fortes da bateria, seguidamente de uma guitarra barulhenta, tudo fazendo a crer que entraremos em um caos, mas ao invés disso a música mergulha em uma seção mais dramática. A parte final da música é através de um solo de guitarra sobre uma progressão de acordes que dá várias voltas antes de chegar num grande estrondo. No fim das contas é um bom cover, porém, o tipo de música que não parece casar bem com os talentos dos quatro músicos.

Em sua estreia, o Transatlantic mostrou várias das características que podemos esperar de um quarteto extremamente talentoso como este. É possível perceber o quanto eles estão alinhados em uma química perfeita buscando encontrar um som unificado. Mas mesmo assim, se comparado com o que eles iriam fazer em seu próximo disco, o brilhante Bridge Across Forever, aqui ainda faltou um pouco da coesão que personificaria de vez a banda.  De qualquer forma, SMPT:e é o surgimento do maior supergrupo de rock progressivo do século XXI.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

SMPT:e

Álbum disponível na discografia de: Transatlantic

Ano: 2000

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 3 votos

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