Resenha

Trisector

Álbum de Van Der Graaf Generator

2008

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

15/01/2021



Repleto de ótimos momentos e de outros mais medianos

Após o ótimo Present (2005), lançado cerca de três anos antes, com uma discografia cintilante ainda por defender, notadamente linear no que quesito boa qualidade, o Van der Graaf Generator (VdGG) resolveu trazer mais uma obra ao nascedouro do rock progressivo, o disco intitulado “Trisector”, que seria naquele momento (2008) o décimo álbum de estúdio dos britânicos. Poderia até parecer confortável para uma banda que não tinha mais nada a provar e que dispensa apresentações lançar um disco novo, no entanto, se olhado de outro ponto de vista, o risco dessa empreitada era enorme, principalmente se lembramos que o alto nível de expectativa geralmente potencializa as chances de uma acidental mácula não ser perdoada pelos fãs.  

Pois bem, mas quando o assunto envolve Van der Graaf nunca é demais lembrar que não se está diante de qualquer banda, já que esses caras sabem muito bem o terreno onde pisam, comumente entregando um rock progressivo sui generis e de excelência. E olha que “Trisector” ainda contou com mais um ingrediente desafiador, uma vez que o saxofonista David Jackson havia saído da banda após a turnê de 2005. E obviamente que o grupo não poderia deixar de sentir a falta de músico tão talentoso, responsável por criar climas absolutamente inesquecíveis e idiossincráticos, inclusive, em diversos momentos do disco pode surgir aquela constatação: um sax aqui cairia bem!! 

Desta forma então a banda gravou pela primeira vez em trio, formação esta que seria repetida no álbum posterior, “A Grounding in Numbers”, de 2011. Contou, portanto, com o genial líder Peter Hammil nos vocais, guitarra e piano; Hugh Banton no órgão e baixo e; Guy Evans na bateria e percussão. Embora seja um grande fã de Hammil por toda sua criatividade musical e talento lírico, devo admitir que o seu trabalho de guitarra não é dos mais virtuosos, conseguindo manter o som do VdGG num patamar respeitável, porém, sem acrescentar aquele toque extraordinário dos grandes mestres das seis cordas. 

O álbum abre com “The Hurly Burly”, uma faixa instrumental bastante singela e aprazível, que se mostra, vale dizer, ligeiramente estranha no início. Esta canção progressiva de vocação mais otimista ajuda a elevar o ânimo, ainda que fuja flagrantemente ao padrão VdGG sombrio a que os fãs estão acostumados. Gostei dessa canção desde a primeira audição, mas pode ser que alguns ouvintes precisem de um pouco mais de frequência para que ela caia no gosto.

“Interference Patterns” é uma faixa deliciosa, balançante e sinuosa que surpreende com seus andamentos swingados. Não consigo ficar parado ao ouvi-la (será um pecado dizer isto??!!!) Há pausas, ritmos pulsantes e mudanças de compasso por toda parte. Sua letra possui uma conotação existencialista meio esotérica, ou seja, os conhecidos versos intelectualizados que Hammil sempre faz questão de entregar. 

“The Final Reel” leva as coisas para uma dimensão mais reflexiva, começa com o piano contemplativo de Hammil emitindo notas serenas e com sua voz num modo mais contido, embora ameace eventualmente explorar zonas mais tensas ao longo da música. Sua letra aborda o rompimento de um casal, Jack e Gillian, cujo relacionamento encontrava-se em crise. Não há como não notar uma vocação mais pessimista que se instala sorrateiramente.    

“Lifetime” começa com a bateria de Evans percorrendo uma trilha meio jazzística, logo preenchida pelo órgão soturno de Banton. Sua letra é aquilo que já esperamos do VdGG, a saber: existencialismo torrencial em reflexões profundas e recheadas de certo amargor. Nessa balada tristonha e melancólica, como de costume, Hammil imprime generosas doses de angústia por meio da sua voz inconfundível.  

“Drop Dead” bebe na mesma fonte da canção de abertura, mas dessa vez os vocais de Hammil estão presentes. Riffs de guitarra empolgantes sobre um órgão alegre de Banton dão o tom dessa ótima faixa. Queimei a língua com a guitarra de Hammil aqui, uma vez que sua performance nas cordas flerta com a perfeição rítmica. O solo de órgão de Banton quase ao final parece ser a cereja no bolo. 

“Only in a Whisper” é uma peça mais calma que a anterior e namora insistentemente com o jazz, o baixo elegante e o órgão discreto e, por vezes, psicodélico de Banton são os atrativos. Os vocais de Hammil caminham numa estrada familiar e os trabalhos de bateria complementam essa viajante e serena música. 

Em “All That Before” a banda trata de deixar as coisas mais animadas, riffs pesados e difusos de guitarra são uma novidade interessante dessa faixa. Os vocais de Hammil criam um ritmo apressado e os teclados de Banton acentuam essa cadência acelerada que parece querer tomar conta, preenchendo a paisagem sonora em camadas que criam uma tela em dimensões precisas.  

“Over The Hill” é a faixa mais longa do disco, seus 12 minutos, porém, não são desperdiçados, fazendo competir com amplo favoritismo pelo posto de melhor música. Começa em ritmo mais lento e Banton produz aqui um típico órgão de cabaré. Seu começo mais lento com um fraseado paciente e compenetrado de Hammil retomam os grandes momentos do VdGG. Até que mais à frente toma rumos diferentes, ingressando em andamentos peculiares e estonteantes, marca registrada do grupo. 

Cabe à sombria “We Are Not Here” fechar o disco. Há aqui uma sincronia instrumental e de vocalização que não deixa de impressionar. Hammil canta em tons assustadores e o órgão edifica uma camada sonora que parece ter vida própria, coisa que só o VdGG sabe fazer. Um adeus bem ao estilo da banda. 

“Trisector” está repleto de ótimos momentos e de outros mais medianos, porém, não decepciona em nenhum instante. Na verdade, entrega um trabalho consistente que, apesar de não ser o ápice da nobreza prog, mantém a higidez do admirável catálogo da banda. Continua valendo a regra: escutar Van der Graaf Generator será sempre a certeza de encontrar fragrâncias musicais sedutoras e nada fastidiosas.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Trisector

Álbum disponível na discografia de: Van Der Graaf Generator

Ano: 2008

Tipo: CD/LP

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