Resenha

Chico Buarque

Álbum de Chico Buarque

1978

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

14/01/2021



Prazerosa excursão musical regada por saborosos sambas e canções de amor

Falar que Chico Buarque é um dos maiores artistas da música brasileira é chover no molhado (por favor vá desculpando o chavão). Neste álbum, lançado em 1978, intitulado “Chico Buarque”, mais uma vez o lado prolífico desse fenomenal compositor aflora em abundância, deixando evidentes o letrista espetacular, o crítico social, o cronista do cotidiano e o cantor sensível. Este disco é mais uma prova incontestável da capacidade artística e da estatura quase inigualável que esse homem de alma feminina chamado Chico Buarque adquiriu no cenário da música popular do Brasil.  

Embora ainda considere “Construção” a sua obra prima, este trabalho reúne grandes sucessos do artista, entre os quais estão as músicas de protesto político contra o regime militar "Cálice" e "Apesar de Você", que tiveram grande repercussão na época. Podem ser encontradas aqui críticas subliminares à ditadura; passagens do relacionamento homem e mulher; o relato da saudade, dor e separação; entre outras temáticas, todas elas tratadas de maneira singular por esse icônico artista. 

Historicamente, a ditadura militar no Brasil ainda estava forte (apesar de começar a ter o seu declínio logo depois) e a resistência artística, de forma paradoxal, em franca atividade, encontrando em Chico um dos seus mais bravos soldados, cujas armas eram a poesia, a música e as letras inteligentes, as quais, em muitos casos, precisavam ter sentido ambíguo e formato cifrado, para fugir ao controle que a ditadura imprimia com rigor sobre a arte e a manifestação de pensamento como um todo. 

“Feijoada Completa” é a primeira faixa do disco, um samba agradabilíssimo que aborda os costumes gastronômicos e sociais dos brasileiros. Afinal de contas, quem nunca serviu uma boa feijoada aos amigos? Conta com um instrumental impecável: composto por piano, violão, violão 7, flauta, clarinete, trombone, trompete, cuíca, surdo, apito, ganzá, tamborim, repique, caixa e agogô. Arranjo e regência de Francis Hime. Destaque para os metais na segunda parte que são um espetáculo à parte. Surpreende a capacidade lírica de Chico ao conseguir transformar a descrição de coisas simples numa crônica inteligente e espirituosa do cotidiano. 

Logo em seguida vem a música “Cálice”, que tem a participação de luxo de Milton Nascimento. Pode ser considerada uma crítica política ao regime militar, consubstanciada por versos que fazem no refrão, compostos por Gilberto Gil em alusão ao calvário de Jesus ("Pai, afasta de mim este cálice / de vinho tinto de sangue"), um trocadilho por meio do recurso da fonética (cálice na verdade é “cale-se”), cuja ambiguidade foi usada por Chico para despistar a censura da ditadura brasileira. Começa em tom religioso e com os vocais de Chico e Milton se revezando, incluindo ótimas mudanças percussivas e harmonias vocais incríveis. Sem dúvida, uma música sensacional, um hino da resistência, verdadeira ode ao livre pensamento e à expressão, que possui todos os elementos que grandes épicos devem ter: emotividade, excelência musical e atemporalidade. Guardadas as devidas proporções, é óbvio, mas seu lirismo político ainda parece muito adequado a momentos da vida social e política atual do Brasil, quando a sanha de proibir/controlar a livre manifestação parece rondar os palácios do poder e não raro pode ser vista, lamentavelmente, em ações concretas disfarçadas por um falso manto de proteção da própria democracia. 

“Trocando em Miúdos”, que foi composta por Chico e Francis Hime, é a terceira faixa, possui uma beleza reluzente e versos lindos, instrumental calcado numa flauta e piano que dão um tom melancólico bastante adequado à temática da música, que aborda o rompimento amoroso, o olhar sobre o que foi o relacionamento (lembranças), e, ao mesmo tempo, o futuro sem a pessoa amada. É possível perceber aqui um eu-lírico dividido entre o próprio orgulho e o sentimento ainda existente e doloroso: “...mas devo dizer que não vou lhe dar/ o enorme prazer de me ver chorar/ nem vou lhe cobrar pelo seu estrago/ meu peito tão dilacerado/ aliás/ aceite uma ajuda do seu futuro amor/ pro aluguel/ devolva o Neruda que você me tomou/ e nunca leu / eu bato o portão sem fazer alarde/ eu levo a carteira de identidade/ uma saideira, muita saudade/ e a leve impressão de que já vou tarde.” “Trocando em Miúdos” traz a dor de cotovelo destilada em doses de bom gosto musical. 

"O Meu Amor", que é pra mim uma das canções mais espetaculares de Chico, consiste num bolero dançante com uma letra de conteúdo sensual, em que duas mulheres disputam o amor de um mesmo homem, com cada uma delas exaltando em pormenores o prazer que ele as proporciona. Seu instrumental tem um trompete fantástico na entrada e que volta ao final para solar de forma incrível, conta também com um piano elegante de Hime, arranjos belíssimos, ótimo trabalho de percussão e linha de baixo marcante. Foi escrita por Chico Buarque para sua peça "Ópera do Malandro" de 1978, sendo cantada em dueto pelas personagens Teresinha, interpretada pela atriz Marieta Severo, ex-mulher de Chico, e Lúcia, vocalizada por Elba Ramalho. A canção originalmente tinha versos com conotação mais erótica, mas em razão da censura Chico precisou alterá-los para que a música pudesse ser lançada. Os versos, por exemplo, "de me beijar o sexo / e o mundo sai rodando / e tudo vai ficando / solto e desconexo", foram substituídos por "de me deixar em brasa / desfruta do meu corpo / como se o meu corpo / fosse a sua casa". Nesta canção Chico faz com maestria aquilo que parece ser um dos seus grandes ofícios de poeta-músico: captar a alma feminina (o ângulo é tão realista que impressiona – dizem, inclusive, em tom de brincadeira, que Chico por pouco não nasceu mulher...rsrsr). Sensibilidade e sensualidade estão inseridas na medida certa nesta faixa.  

“Homenagem ao Malandro” é outro samba para massagear a alma. Sua letra consiste numa crônica sobre o caráter do homem brasileiro e seus traços peculiares. Instrumental baseado nos metais (sax tenor/alto, clarinete e trombone), linha de baixo, batida de cordas empolgante e um belo trabalho de bateria de Mario Negrão.  

“Até o fim” é uma bossa nova comandada pelo piano de Novelli, violões de Chico e Nelson Ângelo, auxiliada por um trabalho percussivo de Sérgio, Nelson e Chico Batera e linha de baixo de Beto Guedes. Sua letra aborda a predestinação, fazendo uma espécie de defesa da resiliência face ao destino, às limitações inatas e aos infortúnios da vida. 

Considero “Pedaço de Mim”, que também integra a peça “Ópera do Malandro”, uma das coisas mais lindas já feitas, uma canção de um lirismo absolutamente perfeito. Instrumental levado por um violão em clima acústico tocado por Nelson Ângelo, piano bucólico e triste de Milton Nascimento, baixo de Novelli e bandolim de Beto Guedes. Cantada por Zizi Possi e Chico, sua letra aborda a terrível experiência do luto e da terrível saudade do ser amado. 

“Pivete” é um sambinha gostoso que começa com uma flauta frenética de Celso, conta com uma linha de baixo espetacular de Luisão, competente trabalho percussivo, trombone, trompete e clarinete. Também foi composta por Chico em parceira com Francis Hime, que faz os arranjos e a regência.  

“Pequeña Serenata Diurna” é uma versão de uma música de Silvio Rodríguez, artista dono de uma discografia extensa, que integrou no fim dos anos 60 um grupo de músicos conhecido como “La Nueva Trova Cubana”, que cantava temas ligados ao cotidiano cubano pós-revolução. É uma canção vocalizada em espanhol por Chico, que possui, logicamente, um pé na música latina combinada com uma discreta batida bossa nova. O piano, arranjo e regência de Francis Hime; a ótima linha de baixo de Novelli; o violão de Luís Cláudio Ramos, sem falar no genial sax soprano de Netinho, que finaliza lindamente os trabalhos; fazem desta canção um momento ímpar.  

“Tanto Mar" é uma composição de Chico com duas versões, sendo que a primeira fora lançada em 1975, uma saudação à Revolução dos Cravos, e a segunda, com letra modificada por conta da censura, foi incluída neste álbum. Nas letras, além da exaltação do Movimento, fica implícita a vontade de Chico para que aquele movimento se repetisse no Brasil: “...Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar/ Sei também quanto é preciso, pá/ Navegar, navegar/ Canta a primavera, pá/ Cá estou carente/ Manda novamente/ Algum cheirinho de alecrim.” Instrumentalmente, soa como um fado português, levada pelo violão e viola de Luís Cláudio Ramos e na flauta de Franklin. 
 
“Apesar de Você”, um samba clássico escrito por Chico Buarque, fecha magistralmente o disco. Destaque instrumental para a bateria de Mario Negrão, o violão de Miltinho e uma cuíca sensacional de Neném. Conta ainda com baixo, tamborim, pandeiro, agogô, surdo e os vocais de apoio do MPB-4 e do Quarteto em Cy. Foi uma canção originalmente interpretada pelo cantor em 1970 e lançada no formato de compacto simples, atingiu a marca de 100 mil cópias vendidas e estourou nas rádios de todo o país. Como a letra abordava implicitamente a ausência das liberdades democráticas, teve sua execução inicialmente vetada pelas rádios brasileiras por ordem do governo do general Médici. Seria liberada, no entanto, de forma surpreendente oito ano depois, já no final do governo Geisel. Curiosamente, a cantora Clara Nunes, que regravou a música ignorando sua temática política dissimulada, foi obrigada a se apresentar nas Olimpíadas do Exército de 1971 para compensar o lapso. Chico usa aqui uma letra que acoberta uma ferrenha crítica ao regime e todo seu desapontamento com a situação do país por meio de uma suposta briga de namorados. Aliás, quando o artista foi intimado a dar explicações pela segunda vez sobre esta música, alegou com a maior cara de pau que se tratava de um samba composto para uma mulher mandona e autoritária. Entretanto, basta observar com um pouco mais de atenção e contextualmente para decifrar tudo o que Buarque realmente queria abordar: a denúncia do autoritarismo e do punitivismo gratuito do regime; o desejo de insurreição popular; a vontade de revanchismo etc. Enfim, a resistência em seu estado mais puro e sutil.
“Hoje você é quem manda/ Falou, tá falado/ Não tem discussão, não/ A minha gente hoje anda/ Falando de lado/ E olhando pro chão, viu/ Você que inventou esse estado/ E inventou de inventar/ Toda a escuridão/ Você que inventou o pecado/ Esqueceu-se de inventar/ O perdão/ Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia/ Eu pergunto a você/ Onde vai se esconder/ Da enorme euforia/ Como vai proibir/ Quando o galo insistir/ Em cantar/ Água nova brotando/ E a gente se amando/ Sem parar.

Chico Buarque (1978) é mais uma obra que exibe sem modéstia e de maneira evidente toda verve poética e artística desse gênio da música popular brasileira, uma prazerosa excursão pelas memórias musicais brasileiras regada por saborosos sambas e canções de amor, na qual a inspiração, a batida charmosa e o requinte instrumental transbordam intensamente ao longo do caminho.


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Chico Buarque

Álbum disponível na discografia de: Chico Buarque

Ano: 1978

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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