Resenha

1984

Álbum de Rick Wakeman

1981

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

11/01/2021



Um álbum dividido entre uma dimensão pop e outra mais progressiva e elaborada

Eu nunca conheci – pessoalmente – alguém que tenha ouvido tantos discos do Rick Wakeman quanto eu, afirmo sem medo de errar que pelo menos 90% de toda a sua obra oficial já tenha passado pelos meus ouvidos ao menos uma vez. E olha que isso é um trabalho árduo, pois o mago tem cada bomba em sua discografia que ninguém merece. Mas qual o motivo de eu estar falando isso? Bom, é que ás vezes eu pareço meio incoerente nas minas avaliações dos seus trabalhos, tendo às vezes mais e às vezes menos paciência com seus discos sem usar nenhum critério pra isso, sendo assim, no mesmo tempo que sou ácido com alguns álbuns, com outros acabo sendo bem mais complacente, onde 1984 é uma prova disso, afinal, apesar de possuir muitos elementos que não me agradam, ainda assim eu consigo compreendê-lo e não execrá-lo, muito pelo contrário. 

No disco pode ser ouvida uma mistura bastante estranha de rock progressivo baseado em teclado muito usado no pop americano da época, ali do inicio dos anos oitenta. Mas uma coisa é certa em relação a este disco, ele soa completamente desatualizado hoje em dia. Se ele pode ser agradável depois de todos esses anos, aí é uma questão pra cada um responder por si, eu acho que de certa forma sim. Embora estejamos diante de teclados completamente desatualizados e de sons meio irritantes em alguns pontos, ainda assim é nele que a maior força do álbum se encontra – algo óbvio, afinal, falamos de um álbum de Wakeman. 

O disco começa com uma “Overture” dividida em duas partes com menos de três minutos cada. É possível encontrar nelas umas séries de trechos de sons majestosos que vão se sucedendo rapidamente. A atmosfera criada pode muito bem ser comparada ao tema de abertura de The Myths And Legends Of King Arthur And The Knights Of The Round Table. É um excelente começo de álbum e que prepara o terreno muito bem para a faixa seguinte, sendo capaz de criar boas expectativas no ouvinte. 

“Wargames” – que na verdade também é vista como a parte três da “Overture” – mostra uma combinação bastante estranha da voz de Chaka Khan e instrumentos progressivos, porém, apesar de estranha, as coisas funcionam bem, adicionando até mesmo um pouco de alma a um gênero muitas vezes descrito como sem emoção que é o caso da música progressiva. Infelizmente nem tudo é um mar e rosas como aconteceu em outros esforços progressivos de Wakeman, o mago deveria ter incluído mais músicas instrumentais em vez de faixas com vocais. A balada “Julia” é de uma cafonice que não conseguiu prender minha atenção por completo nem mesmo pra escrever esta resenha, pulei porque eu já sei onde a faixa daria – que era lugar nenhum. 

“The Hymn” é uma música que não é surpresa alguma que Jon Anderson seja o seu vocalista, afinal, este tipo de coisa mais religiosa combina perfeitamente com ele. Nesta curta música tudo soa emocionante. Ela tem bem a cara do Yes, mas levando em conta que ambos estavam tocando dois anos atrás na banda, é quase que inevitável esta marca na faixa. “The Room” soa como uma faixa típica de Rick Wakeman, em que o mago faz aquilo que sabe fazer de melhor, ou seja, teclados chamativos, grandes oscilações de humor e algumas vozes de fundo que adicionam algumas boas atmosferas espaciais. 

“The Robot Man” é uma música que pode até ser vista como uma boa música, porém, não para fãs mais árduos de Wakeman. Mesmo que possua algumas boas – ou até mesmo excelentes – melodias, ela acaba pecando por um excesso de swing que não combina com o que um fã de Wakeman está esperando. "Sorry” é certamente um momento maravilhoso dentro do álbum, baseada em uma linda melodia de piano poderia figurar até mesmo dentro de alguns dos maiores clássicos de Wakeman. 

“No Name” conta com os vocais de Steve Harley e que funcionam muito bem na faixa. A principio, ela pode soar apenas um pop barato, mas depois é possível notar o quão emocional é a entrega de Harley e que se valoriza mais ainda com o final sinfônico que a música apresenta. “Forgotten Memories” é mais um momento instrumental do álbum e que não é ruim, mas também não chega a ser memorável. O trabalho de piano de qualquer maneira é muito bom. 

“The Proles” tem algo bastante interessante a ser mencionado. Imagine se em algum momento da história musical de Rick Wakeman ele tivesse contado com a participação de Mick Jagger em um dos seus álbuns, pois então, o resultado seria esse. É a faixa mais rock and roll do álbum e que também conta com a inclusão de um saxofone que se destaca bastante. O disco chega ao fim através da faixa-título. Nela você encontra repetições das melhores e mais marcantes melodias do álbum, combinadas por algumas quebras de ritmo um tanto complexas e mudanças de humor bem interessante. A combinação de uma orquestra e teclados soa muito bem como sempre. Um final de disco excelente. 

Às vezes me pergunto se na época Wakeman não estava interessado em transformar este disco em algum musical. O que eu sei sobre ele é que 1984 é um disco conceitual baseado na história de George Orwell. Sei que muitas vezes as peças parecem soar extremamente diferente umas das outras, mas com a devida atenção é possível notar fios suficientes para unir tudo em uma unidade sólida. 

Infelizmente em termos de produção o disco é bastante ruim. Por exemplo, o som da seção rítmica parece simplesmente desaparecer em algumas faixas. Mas não acho que isso seja um ponto fraco a ponto de causar um problema muito grande. No geral, 1984 é um disco interessante e até notável do catálogo de Wakeman – principalmente se falarmos apenas dos anos 80, onde certamente foi o seu melhor esforço. Este álbum possui muitas diferenças no estilo musical. Algumas faixas são típicas do estilo de Wakeman, enquanto em outras ele claramente tenta adaptar seu som com a música da época. Um álbum dividido entre uma dimensão pop e outra mais progressiva e elaborada.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

1984

Álbum disponível na discografia de: Rick Wakeman

Ano: 1981

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,75 - 2 votos

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