Resenha

Marrow Of The Spirit

Álbum de Agalloch

2010

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

09/12/2020



Metal obscuro e atmosférico muitas vezes inspirado na natureza

Foram preciso de quatro anos para que o sucessor de Ashes Against The Grain da banda estadunidense, Agalloch, finalmente visse a luz do dia. Particularmente eu não sei se me considero um fã propriamente dito do grupo, mas algo inegável é que eu sempre que escuto a banda me vejo constantemente impressionado com o domínio da estética e a habilidade sincera que a banda tem em fazer músicas extremamente profundas, comoventes e melancólicas. 

Marrow Of The Spirit, quarto álbum da banda, não foi somente uma criação pensando apenas em satisfazer a sua base de fãs, mas uma excelente e desafiadora obra que certamente foi feita para ser considerada uma das maiores conquistas do grupo. E por mais que a maioria das pessoas – assim como eu – ainda ache que The Mantle seja a sua grande obra, nunca antes Agalloch soou tão sombrio, pesado e até mesmo ambicioso como em Marrow of the Spirit.

Aqui a banda ainda mantém a sua marca registrada, um metal obscuro e atmosférico muitas vezes inspirado na natureza, mas como sempre, sabendo fazer um ajuste em seu som que é capaz de diferenciar muito bem seus discos um do outro. Se até aqui, o primeiro disco pode ser associado mais ao black metal, o segundo a uma linha folk e o terceiro em algo mais na linha de um post-rock, Marrow Of The Spirit de certa forma é um pouco mais complicado de definir qual caminho ele segue, pois ele parece incorporar um pouco dos três gêneros anteriores em proporções iguais. Isso acaba sendo algo que faz com que ele soe tão especial, essa maneira como tudo foi muito bem balanceado. 

“They Escaped The Weight Of Darkness” é a faixa que dá início ao disco, uma peça de violoncelo bastante calma, mas também de um clima muito assombroso. As linhas melancólicas do instrumento desfilam sobre leves barulhos de água e alguns cantos de pássaros. Ela de certa forma consegue desenhar aquilo que vai ser visto durante todo o álbum, música obscura, melancólica e de uma beleza assustadora. Um começo de disco muito sincero que fornece um ótimo contraste com a segunda faixa do álbum. 

“Into The Painted Grey” é sem a menor dúvida a música mais pesada e de maior agressividade que a banda já produziu. De algumas linhas brandas de violino a banda parte diretamente para um ataque extremamente furioso, guitarras bastante aceleradas e batidas explosivas. Seguindo com uma sonoridade de energia implacável, de repente o clima “ameniza” e abre caminho para uma seção mais suave e de harmonia atmosférica de pitch em constante mutação e que se acumulam em direção à seção principal da faixa. Esta faixa faz lembrar que apesar de suas misturas, dentro do coração da banda o black metal é o que mais pulsa, os elementos centrais do gênero é visto com uma nitidez nunca visto em nenhuma faixa da banda até o momento. Mas mesmo com todo o seu peso, também é possível perceber que há uma grande presença melódica – ainda que algumas vezes soem mais escondidas. O cenário para o resto do álbum é muito bem definido. 

“The Watcher's Monolith”, se a faixa anterior se inclina muito mais para o black metal encontrado em  Pale Folklore, agora estamos em um momento onde o acento é na direção do folk de The Mantle. A faixa possui algumas guitarras acústicas tocando atrás de umas melodias derivadas do post-rock, essa incursão sombria mais uma vez soa maravilhosa. Particularmente no geral eu gosto bastante desta faixa, mesmo que infelizmente ela de certa forma empalideça entre as duas que a cercam. 

“Black Lake Nidstang” é o grande épico do álbum e um verdadeiro hino extremamente pesado de doom metal, sendo sem dúvida – ao menos pra mim – o maior e mais ambicioso projeto já feito pela banda. Como estamos falando da Agalloch, obviamente que não podemos esperar uma suíte dinâmica de várias partes sendo tocadas em um sentido convencional, mas uma composição muito bem elaborada e que demora pra de fato começar, criando um terreno por mais de quatro minutos. Imensa, cada uma de suas notas tem um longo e suficiente tempo para causar o impacto emocional e profundo capaz de arrasar o ouvinte através de uma sensação iminente de destruição que é transmitida com enorme eficácia. A banda segue a fórmula de doom metal durante uma grande parte, porém, de repente a banda dá uma guinada inesperada para algo mais eletrônico, criando assim uma paisagem sonora de grande beleza, antes de se encaminhar para um final esmagador. “Black Lake Nidstang” se encaixa perfeitamente na posição de faixa central do disco, tendo a capacidade de impressionar até mesmo ouvidos mais familiarizados com a banda e que poderiam esperar tudo o que foi feito aqui. 

“Ghosts Of The Midwinter Fires” é a faixa que possui a missão árdua de suceder um épico de enorme proporção, mas não há com o que se preocupar, pois ela fornece uma grande e enorme experiência. Certamente estamos diante da faixa menos desafiadora do álbum e a mais fácil de ser desfrutada. Inicia com um dedilhado muito bom de guitarra e depois toda a banda avança em uma atmosfera obscura. Onírica, também é fortemente mergulhada em uma atmosfera post-rock – mas com uma pitada de black metal em alguns pontos isolados. Em termos de Agalloch, quanto mais sombrio melhor – falando do meu prazer pessoal -, então esta peça pra mim fica um pouco atrás das demais, porém, é perfeita para um ouvido não iniciado poder entrar na banda. 

“To Drown” é a última faixa do disco, bastante sombria e sutil se comparada com o restante do álbum, sendo conduzida novamente por alguns floreios obscuros de violoncelo. Aos que conhecem Godspeed You! Black Emperor, o caminho seguido aqui é como se fosse uma linha mais sombria da banda. Os vocais são sussurrantes e também perturbadores. A palheta de som usada pode ser compartilhada com a faixa que abre o álbum, sendo também suave e de sonoridade quase ambiente. Em seu clímax é possível ver o trabalho de violoncelo finalmente tomar uma forma mais estruturada, levando o ouvinte para fora da experiência de ouvir o álbum e de volta ao silêncio. 

Não há como negar que Marrow Of The Spirit se trata de uma obra musical simplesmente monstruosa e do tipo que leva tempo para que seja de fato ouvida de verdade. Assim como costuma acontecer com a banda, existe um enorme número de atmosferas musicais aqui, bem como uma visão abandonada de mundo. Apenas um conselho, não procure que suas expectativas sejam atingidas em apenas uma audição, pois apesar de belíssimo, não se trata de um álbum fácil.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Marrow Of The Spirit

Álbum disponível na discografia de: Agalloch

Ano: 2010

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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