Resenha

Aegis

Álbum de Theatre of Tragedy

1998

CD/LP

Por: Tarcisio Lucas

Colaborador

26/01/2018



A verdadeira essência do gótico!

A história da banda Theatre of Tragedy começa, oficialmente, em 1992, nas gélidas terras da Noruega. O primeiro álbum do conjunto, auto intitulado, chegou causando grande impressão, em virtude da qualidade das composições, da execução precisa e honesta e a voz inconfundível da grande cantora Liv Kristine Espenaes. Esse registro é apontado como um dos grandes marcos dentro da história do estilo, e a banda é considerada a maior responsável pela consolidação do gênero "Beauty and the Beast" que foi uma das características do gótico metal nos anos 90 e começo dos anos 2000.
Um segundo registro, "Velvet Darkness They Fear", de 1996, pegou todos os elementos que foram apresentados no debut e os levou um nível acima, constituindo-se em mais um clássico absoluto, amado por muitos até os dias de hoje.
Mas eis que o ano de 1998 nos brindou com esse "Aegis", apresentando mudanças grandes no direcionamento da banda.
Se antes abundavam elementos típicos do Doom Metal, "Aegis" apostou todas as suas fichas no gótico puro e mais  essencial, trazendo fortes influências do pós punk dos anos 80.
Os vocais guturais de Raymond Rohonyi foram substituídos por vocalizações sussurradas (ainda feitas pelo próprio vocalista), soturnas, criando uma relação totalmente diferente com a voz de Liv Kristine.
Os álbuns anteriores apresentavam letras escritas em Early Modern English, que é o inglês como era falado na época de Shakespeare, e em "Aegis" a banda aprofundou ainda mais essa proposta, ao ponto de alguns trechos nas letras serem de difícil entendimento até mesmo para falantes nativos do idioma em questão. E o fato dessa abordagem linguística privilegiar a idade média - ou ao menos o fim dela, e início da renascença -, o que temos aqui é um disco que consegue evocar uma aura de antiguidade sem fazer mão dos elementos que as bandas geralmente fazem quando querem atingir esse resultado; enquanto a maioria das bandas superlota o seu som de instrumentos eruditos e passagens épicas orquestrais, o Theatre of Tragedy consegue atingir o mesmo resultado com uma formação básica, sem qualquer exagero ou recurso externo.
"Aegis" é, em minha humilde opinião, o melhor que a música gótica já produziu até hoje. Está tudo aqui: os climas sombrios, as linhas de baixo e bateria soturnas e repetitivas, camadas de teclados repleto de climas. Escutar esse álbum é como passear por uma catedral antiga, cheia de afrescos e vitrais.
Trata-se de um disco conceitual, inspirado e baseado na mitologia grega e em poemas medievais, sempre dentro de uma perspectiva feminina. Aliás, todas as músicas possuem nomes de mulheres, corroborando a escolha temática. Tal proposta, até certo ponto grandiosa e megalomaníaca, poderia ter gerado uma obra exagerada e cheia de excessos. No entanto, tudo aqui é comedimento, bom gosto e um senso preciso de quando, quantos e quais elementos seriam utilizados em cada trecho.
A música mais longa possui 7 minutos ("Siren"), o que para os padrões do estilo podemos dizer tratar-se de canções relativamente curtas.
Como disse anteriormente, nenhum vocal gutural existe aqui. O álbum prima pelo clima contemplativo, mesmo nas partes mais pesadas. Certamente não se trata de um disco para ouvir e chacoalhar a cabeça. Temos, isso sim, um disco para ser ouvido atentamente, degustado, e para que se aproveite a experiência e o clima que ele proporciona.
Realmente, é distinto dos discos anteriores, mas de maneira geral teve grande aceitação por parte dos fãs, que consideraram uma continuação natural do trabalho que a banda vinha apresentando. O disco gerou grandes expectativas com relação aos futuros lançamentos do conjunto, que quebrou todas as expectativas ao partir para um som totalmente eletrônico e moderno nos lançamentos subsequentes (mas isso já é outro capítulo...).
Em suma, "Aegis" foi o ápice criativo da banda, que pode se orgulhar de ter criado uma obra única, que não parece com nada que foi feito antes, e nada que foi feito depois. Original, ousado, complexo em sua simplicidade, pode ser considerado uma das pedras fundamentais do estilo, sem duvida alguma.
Ao contrário da maioria dos fãs, que certa forma se sentiram traídos ou abandonados pela banda nos anos subsequentes, eu acredito que os músicos foram coerentes dentro de cada proposta, e recomendo sim que se escute tudo que a banda fez depois de "Aegis", mesmo quando Liv Kristine saiu da banda, dando lugar à Nell Sigland, que lançou dois excelentes álbuns junto à banda, "Storm" e "Forever is the World".
Um álbum indispensável para todos aqueles que gostam de momentos de introspecção e delicadeza.


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Sobre Tarcisio Lucas

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Sobre o álbum

Aegis

Álbum disponível na discografia de: Theatre of Tragedy

Ano: 1998

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,67 - 3 votos

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