Resenha

Krig-Ha, Bandolo!

Álbum de Raul Seixas

1973

CD/LP

Por: Baronesa Escarlate

Usuário

03/12/2020



A sombra de um disco voador

"Krig-ha, Bandolo!" é o primeiro álbum da carreira solo de Raul Seixas, além de uma preciosidade dos anos 70. Abusando na mesclagem de ritmos, as faixas que compõem a obra são ousadas, distintas, assim como as letras das canções são dignas de nota. Uma dose de psicodelia corre solta nesse disco que inclui o sucesso intergaláctico "Metamorfose ambulante".

Como que feitas para ilustrar com pinceladas marcantes a genialidade do artista baiano, brilham "Ouro de tolo" e "Metamorfose ambulante". A primeira delas nos convida a pensar sobre um sábio dizer: "Dinheiro não compra tudo" - como, por exemplo, felicidade e satisfação; o eu lírico, apesar de "ganhar quatro mil por mês" e ter a voz de uma pessoa vitoriosa, não sente a felicidade completa, aquela que preenche espaços e te faz querer "ir ao zoológico". Já a segunda, transmite uma mensagem de maneira clara: a valorização da mudança de pensamento e da reavaliação de nossa postura ante o mundo; o eu lírico, como o próprio título da música sugere, passa por constantes "metamorfoseamentos", não se agarrando à ideias pré-estabelecidas e à percepções precipitadas.

A segunda faixa, "Mosca na sopa", é exemplar no ramo das misturas rítmicas: uma batida brasileiríssima e uma sonoridade roqueira conferem à canção uma riqueza estilística memorável, revelando em Raul Seixas uma grande versatilidade musical. "Dentadura postiça", por sua vez, confirma a veia cômica presente em muitos momentos do disco, possuindo, entretanto, uma certa acidez discreta.

"Al Capone" é mais uma joia de verdadeira notoriedade. Faz referências interessantíssimas, juntando numa mesma música Jimi Hendrix, Frank Sinatra e Jesus Cristo - isso numa linha melódica estilo anos 60. Seguida a essa faixa, tem-se "How could I know (love was to go)", cantada em inglês, aparentando uma "sobriedade" que contrasta com outras canções do álbum.

"As minas do rei Salomão" encontra espaço para citar um clássico da literatura: Dom Quixote, sendo uma faixa que aborda temas pertinentes implicitamente - mesmo a referência literária não aparenta ter sido escolhida ao acaso, aleatoriamente; "A hora do trem passar" pode, à primeira vista, mostrar-se uma canção de amor, mas não tarda a revelar-se uma irônica desconstrução do gênero; "Cachorro-urubú" também tem uma pretensão mal mascarada: versos como "Navio de cruzar deserto" são um tanto ambíguos.

"Rockixe" expõe uma face humana determinada, capaz e autoconfiante; por outro lado, não deixa de expor o modo como alguns usam de bens materiais para legitimar uma "superioridade de vencedor".

Abrindo e encerrando o disco, ouve-se "Good rockin' tonight", uma pérola tão "seixiana" quanto a vinheta final ("Meu nome é Raul Santos Seixas") - esta última, aliás, declamada em primeira pessoa, brinca com a sonoridade das frases enquanto reflete sobre a "doçura do mel" e sobre Deus.

Em suma, "Krig-ha, Bandolo!" sofre influências alienígenas, nordestinas e internacionais. Algo que chama muito atenção está justamente nessa variedade de sons, ritmos e gêneros, bem como nas letras que, em alguns momentos, caem numa subjetividade cômica para deixar questões importantes no ar, prontas para serem pescadas. Percebe-se que Raul Santos Seixas começa com o pé direito sua cósmica carreira solo, sabendo de onde veio e aonde quer chegar, e mostrando aos terráqueos, logo na capa do disco (curiosíssima, por falar nisso), do que é feito. Merece o posto que tem entre os melhores álbuns nacionais de todos os tempos.


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Sobre o álbum

Krig-Ha, Bandolo!

Álbum disponível na discografia de: Raul Seixas

Ano: 1973

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 5 votos

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