Resenha

The Dreams Of Men

Álbum de Pallas

2005

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

28/11/2020



Um feito poderoso que combina sinfonias, melodias e ricas texturas musicais

Para quem nunca ouviu falar de Pallas, banda formada em Aberdeen no Reino Unido em 1980, eles são uma das mais importantes bandas de rock progressivo da história, integrando junto com Marillion, IQ e Pendragon o núcleo duro do chamado neoprogressivo, movimento este que ganharia corpo a partir da década de 80 quando o prog clássico já estava em declínio, atingido inicialmente pela metralhadora frenética do punk do final dos anos 70 e depois pela espada balançante da New Wave oitentista. 

Pallas tem uma relevância expressiva para o movimento neoprog vanguardista, donos de um som enérgico e de grande qualidade instrumental, bem próximo, estilisticamente falando, de IQ e Pendragon, duas bandas que também aprecio muito. A música desses caras é baseada em belos ganchos melódicos, som altivo e vocais belíssimos que lembram, inclusive, aqueles praticados pelas bandas de metal. 

Confesso, no entanto, que as minhas primeiras audições de Pallas não foram lá tão empolgantes. Comecei com o debut long-play The Sentinel (1984) que, apesar de ser uma estreia bem sóbria e digna, passa longe de ser um excelente trabalho. A banda caiu em um estado semiadormecido por vários anos, tempo em que esteve apoiada fundamentalmente em relançamentos no fomato CD de algumas obras do seu catálogo, incluindo faixas extras e versões reprojetadas de The Sentinel, já que os discos The Wedge (1986) e Sketches (1990), este último uma compilação, tiveram restrita repercussão. Em 1999, depois de um hiato de quase 10 anos, eles lançaram Beat the Drum, que apresentou um som mais pesado e cru, regressando às raízes da banda, porém, preservando a veia progressiva e épica vista em faixas como "Fragments of The Sun". Tal fato ajudou a reavivar o interesse pela banda, que também passou a usar a internet como aliada para melhorar a sua gestão de carreira. Eles conseguiam, inclusive, algumas pequenas turnês ocasionais pela Europa e América do Norte. Havendo lançado ainda, em 2001, o álbum conceitual The Cross & the Crucible, cuja temática central aborda a tensão histórica entre religião e ciência. E logo em seguida, no ano de 2005, The Dreams of Men, objeto desta resenha, que figura, portanto, como o sexto álbum de estúdio da banda.   

The Dreams Of Men é um álbum conceitual focado na temática dos sonhos, como o próprio título já entrega. No entanto, possui uma estrutura mais flexível que o anterior, The Cross And The Crucible, mas sendo possível encontrar aqui um razoável trabalho lírico. O direcionamento musical deste álbum gira em torno de canções longas; ambientes sinfônicos; destrezas instrumentais; solos de teclado e de guitarra; ótimas melodias; seções rítmicas funcionais e viajantes; mudanças de andamento e harmonias vocais peculiares. Nesse sentido, tenho certeza de que os fãs do neprogressivo irão encontrar tudo aquilo que mais admiram. Outro aspecto que chama a atenção é o amplo leque de influências que esse disco carrega, uma vez que é possível detectar reminiscências da World Music, New Age, Metal, Folk, entre outros. 

A formação da banda, que repetiu os mesmos integrantes de The Cross And The Crucible, contou com Alan Reed nos vocais, Niall Mathewson na guitarra elétrica e acústica, Ronnie Brown nos teclados e órgão, Graeme Murray no baixo e Colin Fraser na bateria e percussão acústica, além de músicos convidados que abrilhantaram muito o disco, cujas participações serão destacadas na análise das faixas que segue abaixo. 

“The Bringer Of Dreams” abre os trabalhos, uma canção que carrega a assinatura do Pallas, começa ambiental com um clima épico e teclados muito bons de Brown. Até que um solo e guitarra maravilhoso começa a surgir. Logo em seguida sons de violino, cortesia do convidado Paul Anderson, dão o ar da graça, e, posteriormente, a música ganha o peso da guitarra, bateria e baixo. Há partes onde o violino se sobressai. O vocal de Allan Reed flerta com o pop, porém sem tornar a canção um xarope adocicado, graças principalmente ao instrumental que, em alguns momentos, avança sobre uma trilha de metal progressivo. O solo de guitarra logo após os cinco minutos possui uma textura próxima do metal, algo bem Dream Theather. Já chegando ao final o trabalho de guitarra emula rapidamente um timbre gilmouriano até explodir de maneira passional. A música vai de momentos pesados a passagens mais introspectivas e lentas. Um belo começo de disco que sinaliza panoramicamente o que esperar do restante. 

Warriors” tem um andamento mais rápido que a anterior, apresenta riffs minimalistas e a bateria trata logo de impor o ritmo, logo em seguida a guitarra apresenta algumas notas mais suaves, os vocais harmonizam perfeitamente com a guitarra e os teclados. Uma peça menos complexa que a anterior, na qual o trabalho de guitarra rítmica e do baixo de Graeme Murray são muito bons. Considero, no entanto, que a harmonização vocal e os solos de guitarra são os destaques. Faixa que funciona muito bem no disco. 

Ghostdancers” destila um espírito folk aparente e suas letras abordam a imigração europeia para a América e suas consequências para o povo nativo americano. Mostra-se uma peça melódica belíssima com um começo sinfônico bastante agradável protagonizado pelo trabalho de fiddle de Paul Anderson Os vocais de Reed são ternos e ouvi-lo cantar ao som de violinos e violoncelos é uma experiência marcante. O refrão carrega aquele tom de familiaridade e de ressonância memorável. Os solos de guitarra são absolutamente imperdíveis. Alguns vocais estilo world music podem ser ouvidos ao final, o que corrobora a tese de que se trata aqui de uma mistura de influências musicais tradicionais da Grã-Bretanha e América.  

“Too Close To The Sun” inicia ambiente com teclado de sustentação mais alongada e bateria discreta. Em seguida, a música experimenta o modo sinfônico, com uma ótima combinação de teclados, bateria e linhas de baixo seguras. O teclado flagrantemente domina a seção rítmica na parte inicial, com algumas inserções eventuais da guitarra na transição. Eis que a música embarca em uma jornada mais pesada logo após a pausa vocal perto de chegar aos quatro minutos, incluindo um solo de teclado que remete muito a Emerson, Lake and Palmer. A pausa musical encampada pelo violão no meio da faixa dá uma carga de dramaticidade impressionante à canção, lembrando bem de longe o Marillion da Era Fish. E quando explode um solo de guitarra sensacional tem-se a certeza da presença de uma canção neoprogressiva da melhor estirpe. Ótima faixa.

“Messiah” retoma o clima mais otimista, mas deixa, paradoxalmente, também um ar mais sinistro na atmosfera em alguns instantes, por conta dos vocais, com o baixo introduzindo suas notas na abertura e a guitarra produzindo riffs pegajosos e levemente apavorantes. Essa seção permanece nessa batida até um solo distorcido de guitarra, recaindo logo em seguida numa sessão vocal mais teatral com os teclados ao fundo. Efeitos de pedal podem ser vistos mais à frente, com a banda retomando à seção inicial e os riffs da entrada. O coro gospel próximo ao final fica por conta de Karen Raitt e Lisa Paterson que divide a paisagem com guitarras uivantes e insistentes. 

“Northern Star” funciona como um elo de ligação, uma espécie de interlúdio de aproximação, calcada numa guitarra instrumental relaxante com um teclado etéreo ao fundo. Remete a nomes como Steve Howe, Mike Oldfield, Steve Hackett entre outros.   

“Mr. Wolfe” é uma notável faixa que começa bastante acelerada, solo de piano frenético complementado por um órgão de igreja numa dinâmica impressionante. Murray não deixa por menos, introduzindo suas notas como se fossem tatuagens sonoras de tão cristalinas, ajudando a criar uma sessão rítmica sensacional. Chamam a atenção os andamentos e pausas instrumentais com ótimos efeitos de teclado. Em alguns momentos a faixa flerta com o metal a julgar pela velocidade imprimida bem como pela intensidade da performance. É uma excelente composição com vários intervalos musicais aumentados com sons e efeitos de teclado e cada músico contribuindo de forma sinérgica para o conjunto instrumental. 

“Invincible” avança ainda mais fortemente pelos caminhos do metal, a bateria imprime força no início e os vocais de Reed são sombrios, com um clima dark alastrando ao fundo. A música apresenta momentos de maior agressividade e os vocais de Reed precisam buscar modulações até então não experimentadas. Na minha opinião, o neoprogressivo aqui foi deixado de lado em detrimento do metal, os próprios solos de guitarra mais distorcidos denunciam esta opção. 

“The Last Angel” fecha o álbum em grande estilo, uma espécie de balada sinfônica e operística de melodia adorável que conta, mais uma vez, com uma excelente performance de Alan Reed. Começa com vocais e um teclado delicado ao fundo. Em seguida ganha corpo com o restante do instrumental entrando no jogo, passando a ter uma maior densidade graças aos trabalhos de bateria, baixo e guitarra. Niall explora passagens mais lentas dessa vez. Na segunda metade adquire uma roupagem progressiva sinfônica fundada principalmente nos geniais teclados de Roonie Brown, que lembram até o mestre Rick Wakeman, com o baixo cortante de Murray a todo vapor. A soprano Pandy Arthur dá um colorido especial e operístico à paisagem sonora bem próximo do encerramento, cantando com todo o instrumental e depois apenas com um órgão. Magistral fechamento. 

Em conclusão, considero este álbum um feito poderoso que combina grandes melodias, excelente musicalidade, estilos sinfônicos e riqueza de texturas em uma composição coesa e que, provavelmente, vai proporcionar aos fãs de neoprogressivo e progressivo momentos de êxtase e beleza.


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

The Dreams Of Men

Álbum disponível na discografia de: Pallas

Ano: 2005

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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