Resenha

Heaven And Hell

Álbum de Black Sabbath

1980

CD/LP

Por: José Esteves

Colaborador Especial

27/11/2020



Dio chega matando no Black Sabbath

A banda não funcionava mais depois do “Never Say Die!”. Estavam todos o tempo todo drogados e sem direção: onze meses no estúdio e nada de concreto havia sido produzido, com Ozzy sendo citado como a principal razão disso. Com dificuldade, eles demitem Ozzy da banda, sem expectativa nenhuma do que seria a banda após isso, cogitando inclusive terminar. A futura esposa de Ozzy, Sharon Arden, recomenda Dio para a banda, que tinha acabado de sair do Rainbow por querer andar mais perto da ideia do fantástico do que Blackmore. Mesmo com Dio na banda, o resto do grupo estava longe de consolidado: Geezer Butler toma um tempo para si, por conta da morte dos pais, sendo substituído por Gruber do Elf, que depois seria trocado por Geoff Nicholls do Quartz, que iria para o teclado quando Butler volta para a banda; e Bill Ward estava tendo seus próprios problemas, que culminaria com ele saindo da banda meses depois, sendo esse seu último álbum com o Sabbath até o Born Again. Apesar de toda a turbulência, o disco é muito bem recebido, com críticas elogiando quase todos os aspectos do álbum (apesar de muitos criticarem a mudança do som) e o projeto recebe certificação platina.

Três coisas são as mais importantes e óbvias do álbum. Primeiro, realmente, não tem o som do Black Sabbath. O som muda em cada faixa dando uma impressão de ser um “melhores momentos” da década de 70, com influências óbvias de Rush, Pink Floyd, Deep Purple, Boston… apesar de ter algumas faixas com bastante peso e tendências do Black Sabbath da época do “Master of Reality”, fato é que no geral, o álbum foge do peso. Segundo, considerando que o Black Sabbath estava esgotado ao final de Never Say Die!, é surreal ver o que o Dio fez com a banda: parece um grupo no seu melhor, com composições excelentes e ideias frescas que vem sem parar. O peso que o Ozzy estava dando ao processo criativo não poderia ser mais claro, considerando que um dos melhores álbuns do Black Sabbath vem logo depois do pior álbum. E terceiro, mas não menos importante, algo aconteceu com o Geezer Butler. Ele nunca foi um baixista excelente e a maior parte das músicas o baixo era escondido ou acompanhava a guitarra, sem muita variação. Talvez ter sido demitido fez um baque nele, porque quase todas as músicas o cara estraçalha o baixo. Se tem alguém que brilha nesse álbum mais do que os outros (o que é difícil, considerando que todos parecem estar no seu melhor) é o Butler no baixo. O Butler não estava mais escrevendo as letras: talvez seja isso.

Não existem pontos baixos nesse álbum, sendo uma experiência consistentemente de qualidade. O Ozzy, como padrão, quase sempre seguia o riff das músicas, sem inovar muito na harmonia vocal, coisa que o Dio simplesmente não faz. Isso se torna evidente desde muito cedo (“Neon Knights”, a primeira faixa, não seria do jeito que é se fosse o Ozzy no vocal) e apenas evidencia a qualidade do vocalista em comparação com o Ozzy (que tem um vocal mais característico, gótico e teatral, mas não se compara ao Dio). Os momentos de violão são fantásticos (“Children of the Sea” e “Heaven and Hell”) fazendo uma homenagem aos clássicos instrumentais que o Sabbath se acostumou a fazer, e até os momentos de teclado funcionam bem, com introduções que lembram bastante o Purple (“Die Young”), mesmo se quando a música começa de verdade, o peso todo vem e vira Black Sabbath de novo. Fato é que todas as músicas tem qualidade e tem algo para se elogiar, seja o baixo (citar uma faixa em que o baixo manda bem seria besteira, todo o álbum o Butler manda bem), seja a guitarra (“Lonely is the World” é um pano de fundo para o Tony Iommi fazer o que quer com a guitarra), seja o vocal (“Heaven and Hell” tem harmonias excelentes de vocal).

A melhor faixa do álbum é o hard rock “Wishing Well”, mas decidir qual é a melhor faixa desse álbum é um trabalho árduo. O Dio está fantástico, colocando aquele tempero de fantasia e épico mesmo sem precisar de abusar disso nas letras, harmonizando bem com ele mesmo. O baixo tá excelente, o solo de guitarra com ecos funciona radicalmente bem (ainda mais que entra em contexto com o nome da música, como se ecoasse dentro de um poço), a bateria é boa, colocando um ritmo meio quebrado a música. No frigir dos ovos, esse é um excelente álbum para fechar a década do Black Sabbath, uma chave de ouro na melhor década da música.


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Sobre José Esteves

Nível: Colaborador Especial

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Sobre o álbum

Heaven And Hell

Álbum disponível na discografia de: Black Sabbath

Ano: 1980

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,68 - 19 votos

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