Resenha

Through Shaded Woods

Álbum de Lunatic Soul

2020

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

27/11/2020



Um disco sofisticado e de grande riqueza artística

Lunatic Soul é o projeto solo do talentoso baixista e vocalista da banda Riverside, Mariusz Duda, que teve início em 2008. Foi com bastante surpresa e alegria que me deparei agora em novembro, via serviço de streaming, com este lançamento do Lunatic Soul intitulado Through Shaded Woods. Confesso que na minha opinião os últimos trabalhos ficaram devendo um pouco, e ainda que se encontre alguns momentos bons e gratificantes em Fractured (2017) e Under The Fragmented Sky (2018), no geral, não se pode afirmar que são obras que marquem consideravelmente a discografia da banda.  

Antes de adentrar a sonoridade do Lunatic é muito importante lembrar que, inobstante esse projeto ser comandado por Mariusz, que, aliás, toca todos os instrumentos no disco, não iremos encontrar aqui uma cópia do Riverside, já que o Lunatic permite ao seu fundador percorrer caminhos diferentes e inexplorados por sua banda principal, agregando à habitual elegância instrumental uma liberdade de criação e maior autonomia para experimentações. No entanto, como seria natural ocorrer, é óbvio que o Lunatic Soul carrega um pouco daquilo que caracteriza o Riverside, principalmente a profundidade emocional e a capacidade de criar atmosferas melódicas hipnotizantes.  

Uma das mudanças mais significativas em relação aos discos anteriores do Lunatic refere-se ao uso de recursos eletrônicos, uma vez que Through Shaded Woods é bastante parcimonioso nesse quesito, quase não se encontrando segmentos inteiramente eletrônicos em seu corpo instrumental. Levando Duda a ter uma abordagem mais orgânica, centrada na guitarra e nas cordas em vez de sintetizadores, que são usados bem ocasionalmente e apenas como arranjos ou ligações internas de algumas canções, a exemplo de Summoning Dance.  

Como dito antes, Duda mostra todo o seu talento e versatilidade ao tocar todos os instrumentos, e ainda que eu não o considere uma exímio guitarrista, ao menos dentro da proposta do álbum ele funciona bem, executando palhetadas acústicas ternas e também vibrantes com segurança e certo minimalismo. Conseguindo surpreender ainda com um ótimo trabalho percussivo na introdução de Oblivion.  

Consta da declaração promocional do álbum e é um fato facilmente percebido desde os primeiros acordes de Through Shaded Woods que Duda sofreu influência do folk escandinavo e eslavo, reminiscência que resplandece flagrantemente nos ofícios de guitarra acústica da faixa de abertura "Navvie", uma peça de textura folclórica de ritmo hoedown, com violões dedilhados vigorosamente, dançante por natureza e que faz uso do pandeiro e de sons ocasionais de acordeão. Apesar de soar festeira e marota, não deixa de manter um lado sombrio sorrateiro que insiste em fazer parte do cenário, ganhando ressonância nos vocais melancólicos de Duda. 

A segunda faixa é “The Passage”, com seus violões acústicos pujantes e sua sutil alma dark, lembrando até mesmo o New Model Army em alguns momentos, afasta-se das batidas hoedown de "Navvie" e ampara-se nos vocais mais serenos de Duda, até acelerar para uma seção mais potente com as cordas em proeminência, riffs possantes mimetizando o metal e um clima de música oriental brotando discretamente. 

A faixa título é a terceira e inicia com um trabalho percussivo excelente num clima ritualístico e medieval propagados por vocais religiosos. Um riff forte surge, mas desaparece logo depois, com a canção apresentando várias camadas e vocais distorcidos, inaugurando uma seção tensa e mais enérgica. A batida e os efeitos de sintetizador da segunda parte são arrepiantes, com riffs marcantes e vocais místicos colorindo a paisagem sonora de forma contemplativa. A música encerra com som de pássaros e ruídos do que parece ser alguém caminhando sobre folhas numa floresta.  

“Oblivion”, como dito anteriormente, possui uma introdução percussiva excelente, acrescentada a violões empolgantes e usa o mesmo gancho folk da abertura. Os vocais de Duda estão bastante compenetrados, criando uma melodia paralisante que não te deixa piscar. Outra ótima faixa. 
Com Summoning Dance o álbum atinge o seu ápice musical, conseguindo fundir todos os elementos presentes no álbum. Violões acústicos e levemente acelerados dão início à canção, que repousa num vocal mais calmo de Duda. Até recair numa seção mais forte mais à frente, com um clima otimista e os teclados fazendo eventualmente o preenchimento dos espaços. A música permanece nesse andamento, caracterizado por avanços e retrocessos.  Posteriormente experimenta uma atmosfera trance com os vocais repetitivos de Duda e logo em seguida uma transição para um modo mais enérgico com riffs imponentes e programações eletrônicas misturadas, com direito a baixo discretamente groovy. Enfim, uma salada musical impressionante que mais parece um labirinto sem saída. Grande destaque do álbum. 

Fechando a versão simples do álbum aparece “The Fountain”, e não escondo que foi paixão à primeira vista, uma canção de beleza reluzente, apoiada numa camada suave de violões, piano delicado e a voz aveludada de Mariusz Duda. Uma espécie de Coldplay com mais personalidade. O feedback psicodélico dos sintetizadores ao fundo cria um clima de post-rock que lembra o som celestial do Anathema. Termina lindamente ao piano com muita emotividade, de arrancar lágrimas. 

Das três canções bônus encontradas na versão deluxe do álbum, “Hylophobia”, com seu riffs incontínuos e pesados, bateria programada possante e drive característico, parece ser algo bem próximo dos primeiros trabalhos do Riverside. “Vyraj”, por sua vez, soa como uma das faixas do início, com seu instrumental persistente em batidas e notas, estrada já devidamente pavimentada por outras canções do álbum. O destaque entre as três adicionais, na minha opinião, fica com a última faixa, “Transition II”, um épico extraordinário de cerca de vinte e sete minutos de duração, que começa calcada num som ambiente e nos vocais de Duda, que são absolutamente tenebrosos, transmitindo uma carga dramática e tristeza notáveis. O piano apresenta notas duras e frias. O trabalho de programação eletrônica aparece com proeminência, violões acústicos com notas repetitivas e recursos de sintetizadores podem ser vistos com clareza. Vozes ritualísticas ao fundo completam a paisagem sonora que parece ser interligada por meio da mistura de eletrônica, folk escandinavo e andamentos progressivos. Inclui também passagens belíssimas de xilofones e trabalhos percussivos bastante sedutores e climáticos, combinados eventualmente com o baixo marcante de Duda que lança mão de sinuosidades charmosas. Esta excursão magnífica desaparece melancolicamente num encadeamento de ecos e vocalizações em camadas. Uma peça majestosa, cuja descrição em palavras jamais conseguirá captar a beleza sonora exalada. 

“Through Shaded Woods” é um disco sofisticado e de grande riqueza artística, proporcionando ao ouvinte uma experiência cativante e acolhedora, deixando a sensação de estarmos ingressando nas profundezas de uma floresta musical encantada, mostrando que Mariusz Duda entrou definitivamente no seleto grupo de artistas inventivos e prolíficos da atualidade, a exemplo de Steven Wilson e Daniel Gildenlöw, sendo capaz de compor peças absolutamente tocantes e emocionais. Embora eu seja suspeito para falar, mas na minha opinião, este é um dos melhores lançamentos de 2020, que de fato precisava de uma luz de renascimento e esperança em meio a tanta amargura e medo.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Through Shaded Woods

Álbum disponível na discografia de: Lunatic Soul

Ano: 2020

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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