Resenha

Fireworker

Álbum de Gazpacho

2020

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

26/11/2020



Um fosso musical entre o rock progressivo, alternativo, depressivo e melancólico

Apesar de eu gostar dos dois últimos discos do grupo, Molok e Soyuz, a banda parecia estar perdendo um pouco do seu gás, porém, em 2020, através de Fireworker, eles mostram um regresso a sua melhor forma. Como é de se esperar em um álbum da banda, ele não foi feito pra quem procura riffs massivos, andamentos rápidos, guitarras distorcidas e vocais gritados. Em vez disso, o Gazpacho, como sempre, atrai aquele público que se inclina para o lado mais sombrio e atmosférico do metal, mais ou menos como acontece com bandas do tipo de Porcupine Tree, Riverside, Anathema entre outras. 

O disco é conceitual, onde Fireworker é uma entidade ou parasita imensamente antiga que existe dentro de nós e pode assumir o controle de qualquer um instantaneamente se necessário, especialmente se precisarmos fazer algo instintivamente e de forma repentina para evitar dano ou morte. A narrativa neste álbum se concentra em um personagem principal que decide viajar profundamente em sua própria mente para confrontar seu Fireworker e tentar descobrir quem está realmente no controle. 

Para quem já conhece a banda, Fireworker se encontra entre o experimentalismo difícil encontrado em Demon e a acessibilidade melódica de Tick Tock. Traz uma musicalidade em que o piano, teclado e o baixo temperamental tomam o centro do palco e formam a espinha dorsal das canções, enquanto que as guitarras são usadas apenas esparsamente, porém, com uma eficácia incrível, conseguindo pontuar cada um dos momentos dramáticos do disco. A dinâmica também é muito grande, mudando entre momentos de voz e violão para picos de sonoridades mais altas e esmagadoras de guitarra. A gama de sons – marca registrada da banda – é construída sempre em uma enorme quantidade de cores sonoras. 

“Space Cowboy” é o épico com quase vinte minutos que abre o disco e já define muito bem a cena que será encontrada em todo o álbum. É composta por partes essencialmente conectadas por quatro seções de basicamente de cinco minutos cada. Apresenta um movimento onírico que faz malabarismos entre quebras caóticas e fases de uma doçura hipnótica. Para aquele ouvinte que se conecta bem com a música que escuta, eu aconselho que aperte o cinto para embarcar em uma viagem e tanto, onde a música oscila dramaticamente entre passagens cristalinas de delicadeza e titânicas de grandiosidade. Há uma sensação de estar entrando em um espaço cheio de mistério e ameaça. Eu considero facilmente, “Space Cowboy”, uma das melhores e também mais ambiciosas criações de todo o catálogo da banda. Com a combinação entre uma sonoridade frágil e comovente com incursões poderosas de rock, além de um coro bombástico, a faixa consegue transmitir algo muito intenso. As sequências suaves e altas alternadas da música podem ser desconcertantes, mas também emocionantes. Uma obra-prima sem dúvida alguma. 

“Hourglass” é um verdadeiro exemplo de faixa imaculada e cheia de fragilidade. Os pianos de abertura são tilintantes e já demonstram uma atmosfera tristonha que será criada em um forte conceito lírico sobre aquelas pessoas que morreram antes e nós. Segundo a própria banda a ideia era de ser uma música hinário, porém, ela se desenvolveu de forma diferente. Mas mesmo assim o ouvinte pode detectar algumas atmosferas de igreja evocada principalmente pelo órgão e um coro – que Thomas Andersen revelou terem sido gravados com sintetizadores, o que é uma grande surpresa, tamanha a semelhança do som. Vale destacar também a ponte melancólica de violino que é adicionada. No geral é uma música linda e tocante. 

“Fireworker” entra mostrando um total contraste em relação às duas faixas anteriores através de uma linha mais pop, lúdica e cheia de energia. Essa sensação de energia e ótima direção são transmitidas de maneira perfeita entre baixo e bateria que estabelecem um ritmo contagiante e ótimo groove antes que haja uma construção musical de mais intensidade com o acréscimo de guitarras poderosas. Mais uma vez não existe algum tipo de solo, mas sim, uma contribuição conjunta exatamente com o que é necessário por parte de cada músico. 

“Antique” traz novamente a banda para uma linha em que ela aplica o seu carimbo sonoro. Lenta e de clima pesado, é uma bela peça musical, atraindo o ouvinte com suas melodias sedutoras, ritmos percussivos bastante sutis e violino impregnado de melancolia. Um som angelical com perguntas sobre a nossa própria existência através de notas musicais cristalinas. Uma faixa perfeitamente adequada para os vocais frágeis e emotivos de Jan Henrik Ohme. 

“Sapien” é a outra faixa longa do disco com os seus mais de quinze minutos. Apesar de ser menos impressionante que o épico de abertura, consegue finalizar o álbum muito bem e sem nenhum tipo de erro. Possui uma introdução abafada, andamento suave e um ritmo de marcha simplesmente hipnótico. Uma faixa bastante onírica e de uma sutileza tão grande que não foi na minha primeira audição que eu consegui apreciá-la. Como sempre, traz algumas explosões, climas e atmosferas diferentes, ao invés de solos e dilúvios de notas. Na sua seção intermediária a faixa entra em uma crescente – principalmente através das guitarras –, mas depois cai em uma seção mais silenciosa ainda que a que estava anteriormente. Esta seção final recapitula o ritmo de marcha do início e encontra um lindo som de órgão, além de uma sutil percussão. 

No geral, Fireworker é um disco extremamente compensador, mas para passageiros de primeira viagem talvez ele não seja fácil de digerir logo de cara, necessitando de um investimento de tempo substancial para ser totalmente apreciado. Todos aqueles que gostam de uma música progressiva e procuram uma dose de melancolia sombria fora dos territórios musicais tradicionais, definitivamente deveriam dar uma conferida. Um disco que é um fosso musical entre o rock progressivo, alternativo, depressivo e melancólico, além de soar comovente e fascinante do começo ao fim.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Fireworker

Álbum disponível na discografia de: Gazpacho

Ano: 2020

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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