Resenha

Devin Townsend Project: Ki

Álbum de Devin Townsend

2009

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

24/11/2020



Uma surpresa agradável para alguns e nem tanto para outros

Depois de fazer seguidas turnês implacáveis ao ponto de se cansar dos seus demônios pessoais como drogas e pornografias, Devin Townsend saiu dos olhos do público, chegando a circularem rumores de que a sua carreira havia chegado ao fim – o que eu neste caso já achava muito exagero. Mas foi então que no seu melhor estilo, ele surpreendeu a todos anunciando mais um projeto – ambicioso como sempre. O seu autointitulado Devin Townsend Project. 

A música adotada para cada um dos “Project Album” foi diferente, mas aqui a questão é focar no primeiro deles chamados apenas de Ki. Com certeza é uma grande surpresa tanto para quem esperava algo extremo na linha da Strapping Young Lad ou a continuação da experimentação dos seus trabalhos solo. De certo a música pode sim ser descrita como atmosférica, descontraída e com linhas de rock psicodélico, mas não apenas isso, se essa novidade tinha capacidade de manter seus fãs que são atraídos por ele devido o seu metal e outros devido ao seu aspecto progressivo, Ki também é um disco aberto a ouvintes alienados a obra de Devin. Mesmo que existam alguns momentos estranhos no disco, eles não deixarão o ouvinte com a cabeça coçando e já podem ser apreciados – ou não - de forma plena em uma simples e despretensiosa audição – algo que nunca foi de acontecer muito quando falamos da música de Townsend. 

“A Monday” é uma música com menos de um minuto sem muito propósito e abre o disco com um preenchimento meio desnecessário. “Coast” é o principal “single” do álbum. Logo aqui o ouvinte já pode se deparar com uma faixa de sonoridade relaxante e suave que será encontrada na maior parte do álbum. “Disruptr” é uma faixa onde ao menos algum peso é encontrado pela primeira vez. Apresenta guitarras lentas e profundas – mas não muito distorcidas – que descansam muito bem ao longo de um ritmo jazzístico e dos vocais meio rosnados, mas suaves de Townsend. Porém, existem também momentos de vocais não suaves e a música consegue dar um passo a frente. 

“Gato” é uma faixa um pouco mais fraca e não consigo captar intensidade alguma nesse som, ele parece destemperado do começo ao fim. Em alguns pontos admito que ela até parece crescer no ouvinte, mas em uma quantidade muito pouca se comparar os padrões habituais do músico. Quanto aos vocais femininos, embora eles costumem soar maravilhosos em outras músicas, aqui parecem forçados e desnecessários. 

“Terminal” é aquele tipo de faixa que eu posso ver o quanto os fãs mais voltados para a sonoridade mais pesada de Devin possam vir a achar isso chato. Eu a considero um exemplo muito bom de uma música espacial exuberante com alguns ótimos e discretos vocais. A melodia é meio assustadora e ao mesmo tempo cativante. “Heaven Send” é uma faixa de nove minutos e isso já faz com que um amante de música progressiva olhe pra ela atentamente. Bom, na verdade o que ela tem seguidos mesmo são sete minutos, onde há uma conversa pra depois voltarem para o refrão. Os vocais de Ché Dorval são bons, o coro de Townsend gritando faz lembrar um pouco seus momentos mais pesados. Não sei bem o que pensar deste som, ele tem suas qualidades, mas parece faltar algo.

“Ain't Never Gonna Win...”, aqui realmente eu considero uma bola fora, nada mais que uma gordura para o disco. É um pouco jazzy, uma espécie de mini jam, mas no fim das contas pra mim soa apenas como um fragmento de algo produzido em estúdio do que uma música propriamente dita. “Winter” mais uma música bem suave no estilo de “Terminal”, porem, neste caso as paradas e recomeços tiraram um pouco da ótima vibe que a música podia ter. Também não é uma faixa ruim, mas no máximo mediana. 

“Trainfire” traz o álbum pra uma linha nada comum e até mesmo inesperada quando de trata de Devin. Mas particularmente eu adorei ver Townsend mostrando uma espécie de lado meio Elvis, porém, mais obscuro, enquanto que canta algumas bobagens sobre um riff que poderia ter sido de alguma música do Johnny Cash. Mas por um momento ele começa a abandonar isso e passa a soar um pouco mais vanguardista e até bizarro. Destaco também quando a música começa a desacelerar até que os vocais femininos e um pouco de instrumental no fundo permanecem. O momento mais belo do disco, pena que muito curto.  

“Lady Helen” possui uma suavidade que combina perfeitamente com conclusão da encontrada em “Trainfire”. Atmosférica e bem arranjada, guitarra e piano sem adornos constroem uma faixa calma e atraente. “Ki” é aquele tipo de música que qualquer fã de Devin Townsend deve ouvir, mesmo que o resto do disco possa soar pouco atraente. Não é apenas o destaque do álbum, considero um dos destaques da carreira. Exagero? Talvez, mas em mim o efeito é esse. A primeira metade soa bastante leve, juntando alguns vocais suaves em harmonias delicadas. A segunda metade é onde está o tesouro, se construindo e sendo adicionada uma intensidade até o final absolutamente explosivo, completo com um enorme baixo duplo Drumkit from Hell e coros de Townsend, além de arpejos. “Quiet Riot” é uma boa peça acústica, basicamente de uma linha mais folk e direta. “Demon League” faz com que o disco termine da mesma maneira que começou, ou seja, com um preenchimento desnecessário. Pra mim o disco acaba na faixa anterior. 

No final o saldo é que o disco em alguns momentos realmente apresenta aqueles que são de pura excelência, porém, a presença de alguns fracassos e minutos somente de preenchimentos, o que acabam obstruindo a qualidade final.  Eu como um fã da versatilidade de Townsend e da sua coragem de não murar suas ideias, ainda considero Ki um álbum muito bom.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Devin Townsend Project: Ki

Álbum disponível na discografia de: Devin Townsend

Ano: 2009

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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