Resenha

Vacuum

Álbum de The Watch

2004

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

12/11/2020



Mais do que uma simples cópia do Genesis

Toda vez que ouço falar de bandas que possuem influências muito fortes em seu som, fico curioso para avaliar pessoalmente se o caso é de mera cópia ou se envolve tão somente uma bagagem construída a partir de referências concisas, mas que não impedem a transcendência das fontes originais. 

Com o The Watch tive tal experiência, cheguei à banda não faz muito tempo via serviço de streaming, provavelmente por conta dos famigerados algoritmos, já que minha admiração pelo Genesis se encontra historiada, com certeza, nas minhas audições na plataforma. Confesso que a primeira audição não me deixou tão impressionado, porém, após a segunda experiência começaram a aparecer gradativamente detalhes notáveis vindos da música do The Watch. Percebi então que o som dos caras era mais que uma simples cópia do Genesis. 
 
A banda foi originada na Itália, em Milão, nos idos de 1997, com o nome de “The Night Watch”, porém, em 2000 retirou a palavra “Night” e abreviou para apenas The Watch. Seu fundador e líder é o músico Simone Rossetti, que exerce a função de vocalista e flautista, além de ser responsável pelos conceitos, composições, letras e arranjos, cujo timbre de voz se assemelha muito ao do grande Peter Gabriel, ex-vocalista do Genesis, quiçá seja este, inclusive, um dos motivos da banda carregar o estigma de clone dos ingleses. O som do The Watch possui ainda algumas sutis reminiscências de Citizen Cain, Marillion, Spock's Beard e até Änglagard. 

Ainda que o álbum de estreia da banda, "Ghost" (2001), esteja muito próximo do som que o Genesis fazia em sua fase mais progressiva, o que é perfeitamente compreensível para uma banda que ainda procura o seu caminho no debut,  Vacuum, ao contrário, consegue preservar um pequeno núcleo de identidade própria, não obstante beber um pouco na fonte do glorioso Genesis. O fato é que os caras são músicos competentes fazendo um rock progressivo de ótima qualidade, o que por si só, dada a grande dificuldade de se manter atualmente num mercado de proporções modestas, já pode ser considerado um ato louvável. 

Em Vacuum, lançado em 2004, a banda percorre, em muitos momentos, caminhos conhecidos, porém, consegue avançar também por trilhas não exploradas, dando uma nova feição sonora para canções que, muitas vezes, podem soar familiares.  Este é um trabalho que poderá passar a sensação de que o Genesis também teria feito, aqui há mellotrons magníficos e bombásticos, guitarras elegantes que lembram o timbre do mestre Steve Hackett, teclados que Tony Banks aprovaria, vocais bem próximos dos de Peter Gabriel, mas não esqueça que encontrará também composições ricas e variadas, um vocalista talentoso e inspirado, harmonias e complexidade musical à altura do melhor rock progressivo.  

A música "Hills" abre o disco e apresenta um instrumental de arranjo minimalista e sombrio, calcado na voz delicada de Rossetti navegando por cima das notas do piano e uma guitarra uivante. Possui a função de um introito para o que virá, recurso, aliás, muito utilizado pelas bandas progressivas. Essa canção combina de forma siamesa a melodia e o clima dark.  

"Damage Mode" explode logo em seu início com a bateria em realce, mas todo conjunto instrumental atuando em plena integração, provavelmente, vai ficar a impressão de que o velho Genesis ressurgiu das cinzas, algo como "The Lamb Lies Down on Broadway", na verdade, o que temos aqui é um belo rock progressivo, pautado em doses generosas de mellotron e riffs vigorosos, equilibrados por melodias que exalam por todos os lados. As sessões mais silenciosas e acústicas de cordas são um aconchego para o espírito, nestes seguimentos a voz de Rosseti, que também introduz sua flauta, transmite ternura e serenidade, com vocais de apoio bem harmônicos. Eis que perto dos cinco minutos a explosão volta novamente através de riffs mais cortantes, baixo pulsante e bateria levemente árida, com os teclados num clima funesto. A parte final traz o mellotron e um solo de guitarra num ritmo impressionante. Não há dúvidas que se trata de uma peça de beleza exuberante. 
 
"Wonderland" é uma peça melódica e doce, com os teclados mais suaves de Taglioni no início e a voz de Rosseti lembrando Peter Gabriel em ritmo lento e teatral, até que a bateria, guitarra e baixo adentram a paisagem sonora, desaguando pouco tempo depois num momento mais edificante e suave novamente com os teclados em evidência, levando essa alternância até o final da música. Solo de guitarra mais calmo e viajante, muito bom por sinal, com teclados elegantes e mellotron em nuances sinfônicas. Grande faixa, uma das melhores do álbum. 

"Shining Bald Heads" soa bem sombria no início, com os teclados proporcionando uma breve sessão de suspense, até que a cozinha entra em ação e as coisas ficam mais otimistas. Tem um ritmo médio e os vocais de Rosseti são mais dinâmicos, basicamente uma seção rítmica composta por teclado e guitarra. Os arranjos logo após os dois minutos são sensacionais, com um pé na música clássica. Uma densidade e vigor impressionantes. Logo após recai numa sessão vocal com os teclados proporcionando um momento mais edificante, aliás, são o grande destaque desta faixa. A alternância da faixa anterior também se dá aqui, com uma diferença, os momentos mais rápidos são bem frequentes. Por volta dos três minutos assenta num compasso mediano e um ótimo vocal de Rosseti. O solo de guitarra próximo ao final é a cereja do bolo. Uma faixa rica em estilo e composição que também remete ao Genesis.   

"Out of the Land" é uma canção de compasso mais lento e clima introspectivo no início, com delicadas notas de guitarra acústica, vocais suaves e mellotron. Mais à frente, o baixo, o teclado e a bateria entram em cena levando a música para uma jornada de maior densidade e carga dramática. Essa estrutura de alternância suavidade-melódica/velocidade segue aqui em profusão. Destaque para o trabalho percussivo e os teclados com notas capazes de fazer emergir momentos ora mais melancólicos ora mais otimistas. Do meio pro final a música entra em uma sessão mais rápida com teclado, bateria e solo de guitarra encerrando em harmonia. 

“Goddess” tem um ritmo meio heavy na abertura, notadamente pelo baixo mais pesado e os riffs de guitarra, complementado por um órgão inquieto e que lembra um pouco Emerson Lake and Palmer. Eis que aparece aquilo que considero a identidade da banda, já que a música avança para uma jornada completamente diferente, com ótimo trabalho de bateria, harmonias vocais muito boas de Rosseti, e teclados variados e surpreendentes, até que retorna para o seu começo mais duro novamente. Esses compassos e alternância são de um encanto único, um verdadeiro pêndulo ritmado, as passagens sinfônicas suaves criam uma referência que vão grudando na mente e ficando cada vez mais familiar. A parte final desta faixa mostra um belo arranjo integrando os instrumentos principais: teclados, guitarra com vocal, parece um labirinto musical repleto de surpresas a cada instante. Só uma palavra: exuberante. 

"Deeper Still" é bem teatral e delicada em seu início, com teclados, sintetizadores e programação usados como camadas complementares, combinando com maestria uma atmosfera melódica, triste e serena. Rosseti vai muito bem aqui, experimentando caminhos novos, mas indo muito bem em todos eles. O que posso dizer é que aqui se encontra um momento de relaxamento e paz das camadas sonoras mais complexas experimentadas anteriormente. Jornada melódica para massagear a alma. 

A faixa-título soa como algo que o Genesis faria, com certeza, caso não perdesse a sua veia progressiva a partir da década de 80. Os vocais destacados de Rosseti permeiam essa canção, pavimentam um caminho que logo ficará mais vigoroso e desafiador. O órgão é pujante e os sintetizadores destilam suspense. Próximo dos 3 minutos a música atinge uma rotação de prog mais imponente, com o instrumental avançando sem titubear, com a bateria, baixo e guitarra bastante ostensivos, os teclados são novamente aquilo que mais me impressiona, eles fazem incursões e abrem caminho para os vocais de Rosseti brilhar. Um solo de guitarra que lembra um pouco Steve Rothery do Marillion. Em seu seguimento final o órgão volta a marcar presença e dividir atenção com os vocais. A parte 2 é mais curta, tem os teclados e os vocais em proeminência e repete o padrão da primeira parte, encerrando precocemente na marca de um minuto e meio. 

Ao final da audição de Vacuum provavelmente ficarão duas convicções: a primeira, não há dúvida de que estamos diante de uma banda com fortes influências no Genesis, e a segunda, não obstante tal constatação, há no som da banda, indubitavelmente, algo que pode ser considerado genuinamente The Watch e que, por sinal, torna-se bastante cativante. Nesse sentido, entendo que o ouvinte poderá simplesmente se recusar a continuar e decidir que prefere ficar com a matriz ou, ao contrário, regozijar-se com o fantástico rock progressivo que esses caras praticam, assim como fiz.


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Vacuum

Álbum disponível na discografia de: The Watch

Ano: 2004

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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