Resenha

Californication

Álbum de Red Hot Chili Peppers

1999

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

06/11/2020



Rock alternativo moderno e pujante

O Red Hot Chilli Peppers (RHCP) é uma banda que sempre despertou paixões eventuais em mim, já que passo muito tempo sem escutá-la, mas quando volto às audições geralmente o faço de maneira repetitiva, até enjoar e de novo ficar uma temporada sem querer saber do som dos californianos. 

Coincidentemente, “Californication” é o álbum do RHCP que mais me seduz e que melhor representa o sentimento confessado acima. Este álbum surgiu depois de um hiato de cerca de quatro anos, no qual pairava uma certa desconfiança sobre a capacidade inovadora e talento da banda, que ficaram tão evidentes no aclamado “Blood Sugar Sex Magic” (1991). Este disco marca o retorno do guitarrista John Frusciante, que havia deixado a banda em meados de 1992 depois de participar de dois álbuns, cuja presença, em minha opinião, explica em parte o sucesso que esta obra obteve. 

“Californication” é o sétimo álbum de estúdio e foi lançado em junho de 1999 pela Warner Bros. Records, teve a participação do produtor Rick Rubin, que havia trabalhado com a banda em “Blood Sugar Sex Magic” e “One Hot Minute”. Entre prêmios e marcas que alcançou, destaco a inclusão na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame e a terceira posição da Billboard 200 nos Estados Unidos. Além disso, o álbum foi considerado o disco mais exitoso do ponto de vista comercial do RHCP, tendo vendido mais de quinze milhões de cópias ao redor do mundo e mais de sete milhões somente nos Estados Unidos.  

Ainda que parte da crítica e dos fãs tenha se queixado de que o rock confortante de “Californication” havia deixado para trás o acalorado rock funk-hop que por tanto tempo marcou brilhantemente os trabalhos anteriores, o álbum recebeu inúmeras críticas favoráveis em contraste com o seu antecessor, “One Hot Minute” de 1995, que, além de um acanhado desempenho comercial, foi considerado por muitos como fraco e sem foco. No âmbito musical, Californication representou, como ressaltado acima, uma significativa mudança no estilo da banda, afastou nitidamente o RHCP daquele rock mais divertido e zoado de antes, e adentrou com entusiasmo por um caminho sonoro mais sóbrio, sério e melódico. 

A intrigante e famosa arte de capa de “Californication” é do designer Lawrence Azerrad, mostra a inversão de um cenário em que pode ser visto o céu e uma piscina, já que as nuvens estão na piscina enquanto as ondas da piscina no céu. Deixo as intepretações sobre o significado para os mais aficionados por mensagens subliminares.  

As letras do Californication nasceram de ideias e experiências de vida do vocalista Anthony Kiedis e os temas tratados giram em torno da luxúria, morte, suicídio, drogas, globalização etc.  

Segue abaixo, de acordo com a ordem em que aparecem na versão original, uma sucinta análise das quinze faixas do álbum, que tem uma duração total de cerca de cinquenta e seis minutos. 

“Around The World” abre o disco com o marcante baixo funk de Flea despejando seus acordes característicos. Uma música que mistura um pouco do genuíno som da banda com um estilo mais melódico. Vale o registro da brincadeira vocal que Kiedis faz perto do refrão ao entoar: “Ding deng dong dong deng deng dong dong deng deng”. Em sua autobiografia, o vocalista revela que a banda teve uma enorme dificuldade para compor esta música. 

“Parallel Universe’ é um dos pontos altos do álbum, um rock mais sério e compenetrado que o anterior, tem um ótimo trabalho de bateria de Chad Smith, riffs de guitarra e baixo em harmonia siamesa. A passagem final quando os riffs aceleram é sensacional, encerrando com um ótimo solo psicodélico de Frusciante.    	 

“Scar Tissue” dispensa comentários, uma balada relaxante com a guitarra de Frusciante promovendo pequenas viagens sonoras, com timbre até meio floydiano em alguns momentos. Venceu o Grammy de Melhor Canção de Rock em 2000 e é uma das mais bem sucedidas canções da banda, conseguiu um recorde de dezesseis semanas no topo da parada de sucessos Hot Mainstream Rock Tracks, da revista Billboard. Seria a equivalente da bela ‘Under the Bridge’ de “Blood Sugar Sex Magik”. 

“Otherside” é uma balada com batida sutilmente agitada e começo inesquecível tirado da guitarra de Frusciante, conta com uma bateria excelente de Chad e um vocal de Kiedis apurado e mais melódico. Ótima variação da guitarra antes do solo, que é conciso, mas muito bom. Sua letra faz menção ao ex-guitarrista e um dos fundadores da banda, Hillel Slovak, que morreu de overdose de heroína em 1988. Seus versos deixam bem claro o estado de degradação e desespero: “Despejo minha vida em um copo de papel/ O cinzeiro está cheio e estou vomitando/ Ela quer saber se ainda sou um vagabundo/ Preciso levar para o outro lado/ Uma estrela escarlate está em minha cama/ Uma candidata à minha alma gêmea sangrou/ Aperte o gatilho e eu puxo a corda/ Preciso levar para o outro lado / Levar para o outro lado/ Levar/ Levar”. 

O funk frenético de “Get On Top” é liderado pelo baixo flap de Flea. contém o uso de wah pedal e foi uma canção composta depois de uma jam realizada logo após Frusciante ter escutado Public Enemy. De fato, esse clima de jam session mostra-se perceptível ao longo da música. Ainda segundo Frusciante, seu solo de guitarra mais discreto no meio da canção teve o processo de construção baseado na clássica “Siberian Khatru”, do grande mestre Steve Howe do Yes.

“Californication”, grande single de sucesso, revela-se uma canção um tanto introspectiva, com sua marcante guitarra introdutória, tem ainda boas harmonias vocais de apoio, Kiedis cantando serenamente e com destreza elogiável e um solo cool de Frusciante. Em que pese ser uma ótima faixa, a frequência de audições pode cansar um pouco, por isso recomendo moderação.   

Logo em seguida vem “Easily” com um rock agitado e alto astral destilando momentos aprazíveis. Uma das melhores em minha opinião. Solo curto no meio, mas muito bom. Possui um ótimo final baseado no protagonismo da guitarra de Frusciante.   

“Porcelain” é uma canção curta e acústica, com um vocal mais açucarado de Kiedis. Lembra que falei da maior seriedade no início desta resenha? aqui tal atributo aparece de forma cristalina. Funciona como um interlúdio de relaxamento, ótima para um final de tarde numa praia. Aliás, o som do RHCP é bem litorâneo e solar.  

“Emit Remmus”, cujo título significa horário de verão (Summer Time) soletrado de trás para frente, foi inspirada em um breve relacionamento de Anthony com Melanie Chisholm da Spice Girls e mostra um rock mais cadenciado com pitadas de psicodelismo, incluindo guitarras uivantes com efeitos que marcam a paisagem sonora e riffs fortes. Entra em sessões mais vigorosas, porém, nunca explode totalmente. Boa canção, muitas vezes pode ser subestimada pelo ouvinte menos atento. Acredito que os amantes do grunge dificilmente vão deixar de apreciá-la. 

Em “I Like Dirt” o baixo funk de Flea está a todo vapor, com a guitarra de Frusciante também reverberando boas notas. O DNA do Red Hot está estampado nesta música, tudo que o fã tradicional sonha pode ser encontrado aqui: um vocal mais descontraído de Kiedis, o clima alegre e o baixo pulsante de Flea. 

“This Velvet Glove” é outra ótima faixa, calcada em riffs levemente swingados de Frusciante, com a bateria de Chad Smith fazendo um trabalho simplesmente empolgante e Kiedis cantando em bom nível, dando, inclusive, tons mais melódicos em alguns andamentos.  

“Savior” não é uma das minhas preferidas, possui um ritmo meio quebrado que não me agrada muito, mas é uma canção que vai ganhando corpo e não compromete o conjunto. Destaque para os vocais de Kiedis que proporcionam timbres interessantes em determinados seguimentos e uma competente linha de baixo de Flea, para variar, complementados pelo riffs de Frusciante e a guitarra utilizando efeitos pesados por meio da técnica do delay. 

 “Purple Stain” tem o baixo tradicional de Flea e os riffs descontínuos de Frusciante comandando a festa. Sem dúvida, RHCP na veia, mais uma vez. Lembra trabalhos anteriores, assim como “I Like Dirt”. Poderia até dizer que parece uma combinação dos primórdios do Faith No More com Talking Heads. 

“Right On Time” soa agitada e otimista, com a guitarra de Frusciante liderando a sessão rítmica, conta ainda com bons vocais de apoio do próprio. O baixo de Flea entra com fôlego na segunda parte. 

“Road Trippin” é uma canção acústica, com uma sinfonia de cordas bastane aprazível. A canção fala de uma viagem ao longo da Pacific Coast Highway, em que Kiedis, Frusciante e Flea surfaram no Big Sur após o regresso do guitarrista à banda. Fecha os trabalhos de maneira calma, talvez até deixando alguns fãs tradicionais mais frustrados, mas acenando para um novo nicho de admiradores do RHCP. 

Este álbum traz um redirecionamento musical audacioso da banda, que apostou em camadas sonoras mais melódicas e sóbrias, a despeito de não haver abandonado completamente suas trilhas funky-rock-punk mais agitadas. Por sua qualidade tão homogênea e maestria musical, “Californication” envelheceu muito bem e até hoje soa como um rock alternativo moderno e pujante, uma obra-prima da banda e um dos grandes discos da história.


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Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Californication

Álbum disponível na discografia de: Red Hot Chili Peppers

Ano: 1999

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 4 votos

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