Resenha

Islands

Álbum de The Flower Kings

2020

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

05/11/2020



Islands é mais um belo feito de uma banda extremamente prolífica

Acho que algo que todos nós sabemos é que nenhuma banda pode ser considerada uma ilha, por mais original e singular que ela seja. Pior ainda se o gênero em questão seja o rock progressivo moderno, afinal, suas influências nos anos sessenta e setenta é algo onipresente. A The Flower Kings nunca escondeu as suas inspirações nas composições que criam, porém, desta vez eles foram além e podemos notar essas reminiscências até mesmo na capa do álbum, tendo estampado uma arte de Roger Dean – artista conhecido por criar capas de várias bandas, mas lembrado principalmente pelo trabalho feito para o Yes.  

No ano passado a banda sofreu uma espécie de “renascimento”, quando seis anos após o lançamento de Desolation Rose o grupo lançou Waiting For Miracles, trazendo também mudanças na formação, onde o tecladista Tomas Bodin deu lugar para Zach Kamins, enquanto que na bateria, Felix Lehrmann saiu para a entrada de  Mirko DeMaio. Agora, com apenas um ano depois – na verdade onze meses -, a banda reaparece com Islands, um álbum duplo. Essa rápida conclusão certamente se deve à pandemia, já que se por um lado a banda não está fazendo shows, por outro tem todo o tempo do mundo para compor – outros álbuns em 2020 também saíram antes do planejado inicialmente.

The Flower Kings sempre foi uma banda conhecida por fazer discos longos, aqui não é diferente e as suas vinte uma músicas – sem nenhum épico – podem assustar inicialmente, porém, vi em uma entrevista que Stolt diz que tudo foi feito de uma forma para ser entrelaçado e apreciado de uma vez, em resumo, como se o ouvinte estivesse diante de uma grande peça musical dividida em 21 atos. Porém, não sei se consigo concordar muito com ele nessa parte, pois Islands não tem um seguimento como “The Garden of Dream”, deles mesmos, ou “Whirlwind” do Transatlantic, isso pra citar apenas dois exemplos e que de fato são nitidamente epopeias musicais. 

Ao menos que você seja aquele tipo de fã de rock progressivo que possui um pensamento do tipo, “se não tiver nenhum épico eu nem vou me dar o trabalho de ouvir o álbum”, será fácil perceber que Islands consegue oferecer um pouco de tudo para todos e dificilmente algum fã da banda não irá encontrar muitos motivos para degustar deste álbum por um bom tempo, com uma série de composições inventivas, instrumentais requintados e ótimos momentos curtos e peculiares. “From the Ground” é daquelas faixas que podemos dizer que é a The Flower Kings em seu estado mais acessível – poderia passar até mesmo em uma rádio – através de um vocal suave e melodia extremamente agradável. “Black Swan” é mais um momento acessível, uma faixa pop com incursões progressivas e algo na veia de Queen e Beatles. “Broken” é um dos momentos em que a banda mostra ao ouvinte o The Flower Kings clássico. A música traz em seu núcleo uma seção instrumental maravilhosa. “All Need Is Love”, pra quem também conhece o Musical Companion, outro projeto do Hasse Froberg, pode notar nesta música alguma semelhança com que já foi feito lá. O destaque maior fica por conta do maravilhoso solo de guitarra de Stolt. 

Acho que já devo ter falado em alguma outra resenha da banda que, apesar de um exímio guitarrista, Stolt nunca teve uma voz que me agradasse muito, porém, na “Northern Lights” ela soa muito bem e entrelaçada com o baixo fretless de Jonas Reingold o resultado é extremamente positivo. “Tangerine” é uma faixa que eu considerei bastante divertida, novamente o baixo de Reingnold é um dos destaques ao ser processado em um sintetizador, vale mencionar também as linhas jazzísticas oferecidas pelo tecladista Zach Kamins, além de uma entrega de um duo vocal de Froberg e Stolt muito apropriado. “Solaris” é a faixa mais longa do álbum, possui um estilo sinfônico cósmico que faz com que todos os pontos fortes da banda sejam destacados. Há alguns momentos influenciados por Steve Hackett. 

O disco possui algumas numerosas peças instrumentais, sendo elas de dois tipos, algumas sendo de certa forma uma desculpa – muito bem vinda por sinal – para que Stolt possa brilhar na sua guitarra, já outras são instrumentais mais focadas no conjunto. Dois bons exemplos disso são primeiramente, “A New Species”, que começa com um clima evocativo e depois evolui para um amalgama de jams acenando fortemente para o jazz, e “Man In A Two Peace Suit” que é um dos grandes momentos inspirados da guitarra de Stolt em que são exibidos tons simplesmente perfeitos. Menção mais do que honrosa para a faixa título – também instrumental - que encerra o disco e que é belíssima. 

O disco possui vinte e uma músicas e nem todas serão mencionadas aqui, mas antes de caminhar para o final desta resenha, acho válido mencionar duas faixas que não conseguem transmitir o que parecem querer. Logo na faixa de abertura, “Racing with Blinders On” começa de forma promissora com uma seção rítmica maravilhosa, como se fosse até mesmo uma espécie de “overture” para uma jornada épica, mas perde força e termina sem qualquer ligação com a faixa seguinte. “Heart of the Valley” acontece algo parecido, apresenta um começo sinfônico e exuberante com influência em Yes, como quem promete uma exploração musical profunda, mas a banda acaba entregando muito menos do que o ouvinte espera. Essas duas músicas chegam a ser ruins? Claro que não, mas poderiam ser mais do que são. 

Mas então, no fim das contas o que esperar de Islands? Em termos de novidade, nada, mas se você é apaixonado pela maneira como quase sempre a banda proporciona viagens melódicas através de um rock progressivo sinfônico moderno, bom, então este disco duplo é altamente recomendado para você. Em poucas palavras, Islands é mais um belo feito de uma banda extremamente prolífica.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Islands

Álbum disponível na discografia de: The Flower Kings

Ano: 2020

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 2 votos

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