Resenha

Beggars Opera Act One

Álbum de Beggars Opera

1970

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

21/10/2020



Ainda que não seja exatamente uma obra-prima, trata-se de uma joia subestimada

Podemos chamar de destino, azar ou qualquer coisa que seja, mas a Beggars Opera é uma banda formada em um momento que podemos chamar de preciso, sendo que eles ainda possuem uma grande influência psicodélica, muito apropriada para o ano de 1970, mas ao mesmo tempo também avançaram um passo para a linha progressiva sinfônica. Mas mesmo que eles tenham tocado a música certa, no momento certo e com muito talento, nunca conseguiram um lugar na história do rock progressivo da forma que mereciam. 

Beggars Opera Act One é uma estreia excelente, com um som em reminiscência no The Nice, porém, particularmente eu acho que eles tinham um melhor trabalho vocal, e apesar de não ter um cara como Keith Emerson – algo compreensível quando falamos de alguém completamente fora da curva -, o som de órgão é maravilhoso. Não entendo tão pouco reconhecimento pra um grupo desse. 

“Poet and Peasant” é uma música frenética e que abre o disco, baseada na obra homônima de Franz von Suppé, bastante conhecida por fazer parte de inúmeros filmes e desenhos antigos. A faixa se inicia através de uma breve introdução seguida de uma seção central furiosa através de um exímio trabalho de baixo e bateria. Em relação aos teclados de Alan Park, podemos notar ainda uma sonoridade clássica dos anos 60, mas também possui um toque barroco mais consistente com um som 70’s. Os vocais de Martin Griffiths são bastante emocionais e perfeitos para a música. Esta faixa possui absolutamente tudo que um amante de rock progressivo clássico pode querer, excelentes quebras instrumentais, maravilhosos solos de teclados, enfim, há tudo aqui. 

“Passacaglia”, apesar de possuir o mesmo nome de uma obra de Bach, aqui não se trata de uma nova versão para a criação do músico alemão. Mas ainda assim, a faixa possui em sua linha barroca certas reminiscências na música de Bach. Os vocais em segundo plano são impressionantes, muito bem distorcidos para o som como uma transmissão de rádio. Há uma criação de grande efeito com o órgão trabalhando como instrumento principal. Novamente bateria e baixo trabalham de forma simplesmente arrasadora. No meio da faixa acontece uma mudança extremamente radical, transportando o ouvinte para o cenário estadunidense de hard rock do começo dos anos 70, inclusive, com uma sonoridade pesada em que poderia passar facilmente como algo criado pela Grand Funk Railroad. Mas então a música regressa ao século XVIII através de um incrível trabalho de órgão. 

“Memory” , com menos de quatro minutos, é a faixa mais curta do álbum, mas porém, mais violenta que as duas anteriores. Aqui estamos falando do mais puro rock com novamente ótimos trabalhos de teclados. Há um bom uso de mellotron, ainda que não seja tão evidente. As seções instrumentais uma hora frenética, em segundos carregam a faixa para uma linha mais suave. Possui alguns acenos à "Witches Promises" do Jethro Tull, o que não creio que seja mais do que uma coincidência, pois as músicas foram lançadas em uma diferença de poucos meses. Talvez esta faixa possa soar como a mais “fraca” do álbum, mas de certa forma eu considero ela uma mudança necessária. Menção mais do que merecida para Ricky Gardiner e o seu trabalho matador de guitarra. 

“Raymond's Road” é a primeira das duas maiores faixas do disco e que o encerrarão. Trata-se de uma faixa no estilo “Rondo” da The Nice, apresentando seções tanto de “Tocata” quanto “Fuga”, ambas de Bach,  “Na Gruta do Rei da Montanha”, composição de  Edvard Grieg para a obra de Henrik Ibsen Peer Gynt, “Abertura de Guilherme Tell” de Gioachino Rossini e a “Marcha Turca” de Mozart. Não se trata de algo original devido a música anterior da The Nice, mas de qualquer forma, eu sempre acho muito bom ouvir este tipo de colagens clássicas. Raymond Wilson na bateria novamente faz um trabalho de tirar o fôlego. Inclusive se o nome da música for uma referência ao seu nome, seria algo mais do que merecido. 

“Light Cavalry” é a faixa que encerra o disco em sua versão original. Outra versão de uma peça musical de Von Suppé, sendo que desta vez a banda fica muito mais próxima da original, mas com tempo suficiente para que o ouvinte possa curtir mais uma vez toda a interação entre o teclado de Park e a bateria de Wilson, além de vocais muito bons. Com algumas mudanças radicais e seções de improvisos psicodélicos a banda finaliza o álbum da mesma maneira excelente que começou. 

Creio que a música da banda possa soar um pouco datada – para os ouvidos mais jovens principalmente -, mas é inegável que o trabalho aqui é de uma musicalidade e composições excelentes, além de uma interação muito boa entre os instrumentos. Ainda que não seja exatamente uma obra-prima, trata-se de uma joia subestimada.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado pela música progressiva em todas as suas facetas."

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Sobre o álbum

Beggars Opera Act One

Álbum disponível na discografia de: Beggars Opera

Ano: 1970

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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