Resenha

Live Dead

Álbum de Grateful Dead

1969

CD/LP ao Vivo

Por: Expedito Santana

Colaborador

09/10/2020



Registro “muito vivo” do ápice artístico e criativo de uma banda

É a primeira vez que faço a análise de um disco ao vivo de uma banda sem antes considerar quaisquer de seus registros de estúdio. Bem, tratando-se de Grateful Dead, tal fato pode ser plenamente justificado, uma vez que os três primeiros álbuns de estúdio dos caras não conseguiram captar toda a energia e virtuosismo que eles conseguiam imprimir em suas apresentações e shows, e que apareceram de forma cristalina e natural em Live Dead, por isso, a minha empolgação para comentar essa grande obra dos californianos. 

Por conta de seus lendários concertos, inclusive, o grupo arregimentava uma legião de fãs fiéis, quase sempre hippies doidões, que nutriam verdadeira idolatria pela banda. O fato é que ao vivo a banda era contagiante e bombástica, conseguindo a proeza de estender músicas de um repertório limitado por meio de improvisações psicodélicas e quase jazzísticas, sempre sob os acordes da guitarra de Jerry Garcia, porém, em estúdio a banda parece que perdia a sua verve e rebeldia, fazendo um trabalho mais burocrático e contido, como se perdesse o ânimo de tocar. 

Em seu álbum de estreia, autointitulado "Grateful Dead" (1967), não se pode dizer que estamos diante de um grande trabalho, muito pelo contrário, e, apesar de "Aoxomoxoa" (1969), terceiro de estúdio, ter uma performance um pouco melhor, com arranjos mais bem executados e uma veia meio folk,  "Anthem Of The Sun" (1968) parece ser o registro de estúdio mais digno da fase psicodélica, o que é muito pouco para uma banda que já se mostrava como um dos grandes nomes do cenário pop rock dos anos 60. Posteriormente, em American Beauty (1970), a banda iria finalmente atingir o seu grande trabalho de estúdio, na minha opinião, mas isso é tema para uma outra resenha. 

“Live Dead” foi originado de uma espécie de colcha de retalhos, já que reuniu canções de diversas apresentações ao vivo durante a turnê de 1969 no lendário teatro Fillmore East e no Ballroom D’ Avalon. O dado curioso e até surpreendente, no que tange ao lançamento de Live Dead, é que nem a banda e tampouco a gravadora Warner Bros esperavam um alto retorno comercial do disco, que fora lançado em formato duplo com apenas sete canções (por aí se vê que a coisa era meio inovadora, pra não dizer estranha), mas por uma dessas ironias do destino “Live Dead” acabou se tornando o primeiro sucesso comercial da banda. 

O título do álbum (Live Dead) apresenta um duplo sentido, já que remete à banda (os "Mortos") em performance “ao vivo,” o que é uma espécie de paradoxo, uma vez que introduz duas palavras em manifesta contradição. A arte de capa, que é de autoria de Robert Donovan Thomas, reforça essa justaposição, na medida em exibe a pintura de uma mulher flutuando sobre um caixão segurando uma faixa com os dizeres "Morto" atrás de um fundo com a palavra "Viva". 

Abre o disco talvez uma das mais emblemáticas músicas do grupo, "Dark Star", cuja versão é uma das melhores já executadas. Uma viagem psicodélica sem precedentes de cerca de vinte e três minutos, baseada principalmente na guitarra de Jerry Garcia, que executa solos similares a serpentes descontroladas e sem direção, conta ainda com linhas de baixo muito interessantes de Phil Lesh. A música segue com uma melodia hipnótica abrindo caminho para Jerry e o restante do grupo apresentarem suas capacidades de improvisação, numa espécie de jam session regada a ácido lisérgico e outros alucinógenos. Pouco depois da marca dos seis minutos, entra um vocal de modulação bem cansada e aparentemente passiva em uma sessão relativamente curta, só retornando quase ao final da música, como se não quisesse interromper toda exuberância instrumental. 

“Dark Star” carrega a identidade do grupo e representa uma síntese sonora do conjunto da obra. Não hesito em dizer que é a melhor do álbum e quiçá da história do Grateful Dead. 

"St. Stephen" aparece logo em seguida, uma faixa que começa suave com notas de guitarra, mas que avança calcada em riffs muito bons, daqueles que ficam tatuados na mente, integra o disco "Aoxomoxoa", e devo dizer que essa versão ao vivo está a anos luz da gravada em estúdio. Caracterizada por complexas e sutis mudanças de tempos que sequer são percebidas pelo ouvinte menos atento. Vai ganhando corpo até se mostrar uma passagem blues impagável, repleta de ocasionais e breves solos de guitarra e todos os demais ingredientes que uma boa salada blues/jazz deve conter. Apresenta um interlúdio mais calmo no meio, mas depois a coisa esquenta novamente. 

“The Eleven" é a terceira excursão dessa jornada alucinante, um instrumental comandado pela guitarra inspirada e inquieta de Jerry Garcia. São pouco mais de nove minutos de duração que apresentam Garcia em momentos de grande versatilidade. As linhas de baixo são bem marcantes e jazzísticas, mais uma vez, e a bateria um tanto frenética, não dando trégua. Os vocais só aparecem perto dos seis minutos e também de forma breve, ou seja, parecem seguir mantra idêntico ao de Dark Star. Boa faixa e emenda com a seguinte. 

"Turn On Your Love Light" apresenta contornos jazzísticos bem evidentes e carrega um ritmo bem otimista, empolgando logo no seu início. Uma oportunidade para o grupo abrir sua caixa de ferramentas com total liberdade, abusando dos solos e riffs de guitarra e passagens de bateria que se afiguram bastante engenhosas e criativas. Sem dúvida, um dos grandes destaques do disco com sua proeminente alma blues. 

Uma sedutora versão com textura mais psicodélica de "Death Don’t Have No Mercy", do Rev. Gary Davis, continua a jornada. Devo dizer que aprecio bastante esta releitura do Grateful por conta da performance de Garcia (ele de novo se destacando). Obviamente, o blues está presente aqui novamente com toda força. Recomendo ouvir atentamente e viajar com os solos de guitarra. A cozinha também não deixa a desejar, e ainda peço que observem com muita atenção o órgão de Ron "Pigpen" McKernan calibrar notas maravilhosas fazendo a cama para vocais dramáticos incríveis.   

A experimental "Feedback" vem logo em seguida, usa e abusa da distorção e microfonia, psicodelismo levado ao grau extremo, esses californianos tinham muita convicção do som que queriam fazer. Não há hesitação e nem temor. Quem não gostar que saia da sala!!  

Cabe a "And We Bid You Goodnight" fechar os trabalhos, uma breve e singela canção de apenas trinta e sete segundos pautada tão somente nos vocais. Uma espécie de compensação para o fato de o disco ser quase instrumental, creio eu!! 

Live Dead representa uma prova inconteste da competência desses californianos e foi um marco na carreira da banda, constituindo-se num registro “muito vivo” do ápice artístico e musical marcado pelo experimentalismo e criatividade, e gerou, sem dúvida alguma, influências estilísticas que iriam transcender a história do The Grateful Dead.


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaVan Der Graaf Generator - Do Not Disturb (2016)

    08/03/2021

  • Image

    ArtigoOs 20 discos que mais apreciei em 2020 (my best) - Parte 1

    31/12/2020

  • Image

    ResenhaSteven Wilson - Grace for Drowning (2011)

    02/12/2020

  • Image

    ArtigoOs 20 discos que mais apreciei em 2020 (my best) - Parte 2

    31/12/2020

  • Image

    ResenhaPorcupine Tree - Up The Downstair (1993)

    19/01/2021

  • Image

    ResenhaQueens of the Stone Age - Songs For The Deaf (2002)

    25/02/2021

  • Image

    ResenhaRoxy Music - Avalon (1982)

    12/08/2021

  • Image

    ResenhaRed Hot Chili Peppers - Californication (1999)

    06/11/2020

  • Image

    ResenhaJethro Tull - Stand Up (1969)

    28/05/2021

  • Image

    ResenhaTim Buckley - Happy Sad (1969)

    22/04/2021

Visitar a página completa de Expedito Santana



Sobre o álbum

Live Dead

Álbum disponível na discografia de: Grateful Dead

Ano: 1969

Tipo: CD/LP ao Vivo

Avaliação geral: 5 - 1 voto

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Live Dead



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.