Resenha

The Final Cut

Álbum de Pink Floyd

1983

CD/LP

Por: José Esteves

Colaborador Especial

07/10/2020



O ego de Roger Waters

Com o sucesso estrondoso que foi o The Wall e quatro álbuns seguidos que foram sucessos de crítica e de vendas sob a liderança absoluta de Roger Waters, não foi inesperado o surgimento de um álbum dois anos depois. Com a demissão de Richard Wright, tecladista e membro fundador da banda, durante a produção do The Wall, Roger decidiu pegar algumas músicas que não entraram no disco duplo que ele criou e fazer uma outra epopeia teatral mais íntima ainda, com referências diretas ao pai dele que morreu na segunda guerra mundial. O disco resultado foi um disco conceitual anti-guerra com foco especial na disputa pelas ilhas Malvinas ou Falkland Islands, com uma recepção mista da crítica especializada da época que não impediu alcançar certificação platina. Apesar de ter sido praticamente um projeto solo do baixista e vocalista, esse foi também o último disco que ele participou no Pink Floyd, com a banda seguindo sem ele.

Esse disco tem em seu conteúdo músicas boas, mas tem uma lista de coisas incômodas. Primeiro, o Roger Waters decidiu sozinho tudo desse álbum, com David Gilmour e Nick Mason sendo tangenciais ao projeto. Segundo, o disco é lotado de baladas de piano, o que cria esse cenário em que o Roger Waters demitiu o Richard Wright para obter mais controle criativo na banda e depois contratou pianistas e tecladistas para não precisar do Gilmour e de Mason na parte de execução. Terceiro, o The Wall é uma experiência super pessoal, mas relacionável: solidão, isolamento, depressão, tudo isso são sentimentos universais; perder o pai na Segunda Guerra Mundial em uma batalha específica e o fato dele ter morrido ser uma traição (porque é assim que o Roger Waters pensa) não são conceitos tão universais assim, então o ouvinte é alienado. Quarto, instrumentalmente, é um álbum pobre, sem muitos solos de guitarra e teclados esquisitos, lembrando muito mais aquelas sessões dos discos mais antigos com cada um tendo domínio sobre uma parcela feito por um artista triste com um piano (o que é esquisito, considerando que ele demitiu o tecladista).

As músicas sofrem pesadamente do mesmo problema que a maior parte dos discos do The Doors sofrem, com a música sendo mais uma plataforma para uma mensagem e uma poesia do que a música em si. Boa parte do álbum são baladas de piano (“The Final Cut”, “Paranoid Eyes” e “The Gunner’s Dream”, essa última tendo toda a pinta de ter sido idealizada em um momento teatral em que o herói perde as esperanças), com algumas faixas gritando seus defeitos (no caso de “Not Now John”, quase literalmente, porque a música foi escrita para o vocal do Roger Waters e o David Gilmour não alcança bem aquelas notas, sendo desperdiçado nesse sentido). Existem poucos solos de guitarra nesse disco (“Your Possible Parts” apresenta coisas positivas dos outros discos tipo Animals, apesar de ter sido recusado anteriormente no The Wall), mas o que salva mesmo são as músicas que misturam a pomposidade instrumental com o vocal ácido do Waters (como na pequena “Get Your Filthy Hands Off My Desert”).

A melhor faixa do disco é um dos exemplos de pomposidade instrumental, “The Fletcher Memorial Home”, que fala sobre um asilo em que todos os ditadores e autocratas da época vão (ele cita eles pelo nome) para viver juntos enchendo o saco uns dos outros, até A solução final. A orquestra funciona bem, o solo de guitarra (de novo, um dos poucos) é mordaz e sombrio, a bateria funciona bem (ao contrário de ser o óbvio o resto do disco todo) e o vocal do Roger Waters se encaixa perfeitamente por conta da temática perfeita para alguém agoniado e cuspindo veneno.


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Sobre José Esteves

Nível: Colaborador Especial

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Sobre o álbum

The Final Cut

Álbum disponível na discografia de: Pink Floyd

Ano: 1983

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,08 - 12 votos

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