Resenha

The Wall

Álbum de Pink Floyd

1979

CD/LP

Por: José Esteves

Colaborador Especial

06/10/2020



Um disco extraordinariamente pessoal de Roger Waters

Uma cuspida em um fã durante uma turnê e um ego inflado fizeram Roger Waters, o idealizador principal da banda no momento, perceber o quão desconectado ele estava da realidade. Enquanto os outros membros da banda trabalhavam em seus projetos solos, Waters decide escrever um material intimo sobre sua vontade de isolamento e seu relacionamento com seu pai, que havia morrido na segunda guerra mundial. Com a ajuda de David Gilmour e Bob Ezrin, contratado para ajustar algumas arestas, o disco conceitual é lançado no final de ’79. Sendo recebido momentaneamente negativamente, a crítica especializada o considera pretensioso, sendo futuramente muito elogiado e figurando em várias listas de melhores discos de todos os tempos, alcançando certificação diamante e sendo o trabalho mais lucrativo da banda, apesar de ter sido o último disco com um quarteto,

É impactante e um tanto constrangedor o quão pessoal é esse álbum, com Roger Waters basicamente abrindo a alma e colocando embaixo de uma lupa tudo que ele sente que são os problemas que ele tinha na época, e isso pode afastar um ouvinte qualquer. Para quem passar desse obstáculo, a experiência desse álbum é tão profunda e avassaladora que, assim como outros discos do Floyd, se torna mais uma experiência de auto conhecimento do que uma distração auditiva. São obras como essa que salientam música como uma arte de impressionante capacidade transformativa, colocando em cheque algumas outras produções que se vendem como sendo apenas um entretenimento de 30 minutos. Não é só liricamente que o álbum é introspectivo, é na construção dele: a guitarra do David Gilmour não faz uma nota que não seja cortante e ecoante, o teclado do Richard Wright é grave e sombrio, a bateria do Nick Mason é providencial, o baixo do Roger Waters é condutor da clima e os vocais compartilhados de Roger Waters e David Gilmour encaixam perfeitamente.

O disco é duplo e conceitual, seguindo a história de um rock star fictício chamado Pink Floyd que começa a se isolar criando uma parede a sua volta (com “Another Brick in the Wall” tendo três partes, seguindo o mesmo tema mas sendo cada vez mais crítico e sério), até o total isolamento. Cercado pelo muro, ele começa a querer a companhia que ele buscava antes, só encontrando ajuda com as minhocas, que são os pensamentos negativos que conseguem atravessar esses tijolos (“Confortably Numb”, uma balada psicodélica com um dos melhores solos de guitarra de todos os tempos compara uma doença que ele teve quando criança com a sensação que as minhocas trazem, e “Waiting for the Worms” é basicamente uma marcha nazista com palavras de ordem). No final, as minhocas o julgam culpado (“The Trial”, uma farsa colocando o como responsável por tudo que as pessoas o impuseram, com pompa e circunstância de tribunal), até o momento que ele dubiamente derruba o muro. Outros pontos altos são “Don’t Leave Me Now”, uma desculpa para solos de guitarra melancólicos com o vocal de Roger Waters contribuindo fortemente para a sensação de infelicidade e impotência, e “Nobody Home”, uma balada de piano em que Bob Ezrin, pianista contratado, dá um show transmitindo o sentimento de solidão em um piano sem efeitos.

A melhor faixa do álbum é a abertura do segundo disco, “Hey You”, um rock que vai pegando velocidade com o vocal do David Gilmour, até voltar no tema do álbum com um solo de guitarra, prosseguindo com o vocal de Roger Waters cheio de sofrimento e amargura. O chamado a ação de evitar o isolamento nessa faixa é persuasivo, apesar de triste e desesperador, quase obrigando o ouvinte a considerar os seus relacionamentos e como eles afetam as pessoas que sofrem neles. A bateria, como em quase todo o disco, ataca de surpresa, e os detalhes do teclado são incríveis, mas o que faz essa música é o David Gilmour, com sua guitarra incrível cimentando-o como um dos melhores guitarristas de todos os tempos.


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Sobre José Esteves

Nível: Colaborador Especial

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Sobre o álbum

The Wall

Álbum disponível na discografia de: Pink Floyd

Ano: 1979

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,16 - 19 votos

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