Resenha

Vs.

Álbum de Pearl Jam

1993

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

01/10/2020



Uma viagem sonora bela, diversificada e empolgante

A maldição de produzir um grande disco logo na estreia, que muitas vezes assombra grandes bandas quando estas passam a ser lembradas apenas pelos trabalhos iniciais, parece não ter incomodado os norte-americanos do Pearl Jam. Embora Ten (1991) ainda continue sendo a grande obra prima, disco que realmente venero e pelo qual as memórias afetivas afloram desenfreadamente, reconheço sem nenhum esforço a grande qualidade musical de Vs. O álbum foi lançado em outubro de 1993 pela Epic Records em meio a uma maratona de shows da turnê de Ten. Foi a primeira colaboração da banda com o produtor Brendan O'Brien e o primeiro álbum com o baterista Dave Abbruzzese.  

As expectativas eram muito grandes, principalmente pelo sucesso do debut, mas o Pearl Jam não apostou em fórmulas prontas e nem tampouco pousou em terreno seguro. Supreendentemente, a banda decidiu reduzir seus esforços promocionais para Vs., incluindo recusar-se a produzir videoclipes para qualquer um dos singles do álbum. Tanto que o baixista Jeff Ament chegou a dizer que não queria que as pessoas se lembrassem das músicas da banda como vídeos. Contudo, o efeito parece ter sido o contrário, talvez em razão de toda credibilidade auferida anteriormente por Ten, já que, após o seu lançamento, Vs. estabeleceu o recorde de mais cópias de um álbum vendido durante sua primeira semana, uma marca que manteve por cinco anos. Vs. ocupou o primeiro lugar na parada da Billboard 200 por cinco semanas, a duração mais longa para um álbum do Pearl Jam. 
O disco foi certificado sete vezes platina pela RIAA nos Estados Unidos. Para quem desprezou os esforços de marketing e publicidade (pode até ser que tal conduta tenha sido, na verdade, uma grande estratégia mercadológica), os números de Vs. eram impressionantes. 

Na produção, a banda adotou a abordagem de gravar uma música por vez e concordou com O'Brien em mixar as músicas conforme cada uma era finalizada. O'Brien tinha os membros da banda configurados da mesma forma que fazem ao vivo, e a maioria das músicas foram desenvolvidas a partir de jam sessions. Inclusive, esse clima mais descontraído pode ser sentido em algumas canções, a exemplo de Rats e WMA. O guitarrista Stone Gossard disse à época: "Acho que permitimos que as coisas se desenvolvessem de uma maneira mais natural, orientada para a banda, ao invés de eu trazer um monte de coisas que já estavam arranjadas. Eu vi como isso poderia mudar e evoluir, o que me deu muita inspiração para ir, podemos fazer baladas, podemos fazer coisas rápidas, podemos fazer coisas lentas, podemos fazer coisas punk.” Essa sistemática de trabalho acabou proporcionando aos integrantes da banda maior liberdade para criar e inovar, daí se apreende, talvez, a origem de toda variedade musical que Vs apresenta com tanta maestria em seus quarenta e seis minutos de duração. O resultado final acabou sendo, sem sombra de dúvida, um som muito mais solto e cru em comparação com o álbum de estreia. 

“Go” inicia com as batidas secas da bateria e um baixo pulsante, os riffs de guitarra que se seguem dão um ritmo bem contagiante à canção. Vedder canta com técnica sem abusar das extensões vocais. Os destaques sem dúvida são as linhas de baixo de Ament e a bateria de Dave. A canção chega ao final com Dave espancando seu instrumento sem dó nem piedade. Início bem animador. 

“Animal” começa com guitarras, baixo e baterias bem fortes, Vedder está contido, mas ocasionalmente aumenta o tom. Durante o refrão ele demonstra o quanto é bom em modulações. O solo é bem interessante, levemente distorcido. A música termina com a bateria em alta rotação. Boa faixa, pulsante e frenética. 

A bela “Daughter”, uma das minhas preferidas, conta a história de uma criança que é abusada pelos pais porque eles não entendem sua deficiência de aprendizagem. Tem em seus acordes iniciais a marcação da bateria e violões impressionantes. Vedder faz uma entrada vocal sensacional, aliás, ele sempre tem grandes performances em baladas. Sua empostação de voz consegue combinar suavidade e força de forma impressionante. Refrão muito bom. Do meio pro final ela dá uma acelerada e aparece um solo magnífico de McCready. Então a canção vai desacelerando lentamente com Vedder cantando quase aos sussurros. Faixa simplesmente genial. 

“Glorified G", uma canção cuja letra faz escárnios com os entusiastas de armas, por sinal, tema bem apropriado para o momento político e social do Brasil, no qual a sanha armamentista ganha força em detrimento de um aperfeiçoamento das políticas públicas de segurança pública, passando a impressão de que o cidadão deve ser o único responsável por sua própria segurança, já que o Estado falhou nessa missão. Curiosamente, essa letra foi inspirada por uma situação que envolveu o baterista Abbruzzese, que revelou aos demais membros da banda a compra de duas armas, o que gerou uma discussão mais reflexiva no grupo sobre o uso de armamentos. Tem guitarras pesadas, uma energia funky impressionante e refrão grudento. Vedder começa mais brando depois aumenta o passo. 

“Dissident”, cujo título é bem sugestivo de sua temática, conta a história de uma mulher que acolhe um fugitivo político. Começa com uma linda guitarra solando e a bateria fazendo a base. Depois se acalma e Vedder entoa seus versos com muita emoção. Adoro essa música, principalmente pelas guitarras uivantes ocasionais. Como disse antes, o trabalho de bateria neste álbum está bem cru, deixando tudo absolutamente mais forte e ostensivo. Essa música combina vocais leves em alguns momentos e um peso instrumental notável.    

“WMA” tem letra inspirada por um incidente que aconteceu fora do estúdio de ensaio, no qual Vedder entrou em uma contenda com um grupo de policiais que incomodou um amigo negro dele. Quando Vedder entoa: “Não erre, corte tão limpo/Suje as mãos dele, vem tão certo/Policial/Policial/ Policial/ A polícia parou meu irmão novamente/A polícia parou meu irmão novamente”, parece falar de um tema comum da atualidade, tanto nos EUA quanto no Brasil, notadamente a ligação entre ação policial e racismo. “WMA” exibe um instrumental bem percussivo no início, Ament brilha com seu baixo fazendo uma linha funky sensacional, ótima entrada. As guitarras ficam em inserções mais discretas, com riffs charmosos e swingados, simplesmente perfeito. O trabalho de bateria de Dave comanda a festa, impecável. Vedder está mais uma vez irrepreensível, interpretação técnica e emotiva com agudos gritados.  
“Blood” aborda o tema da mídia, também está calcada numa cadência funky, começa bem pesada com riffs de guitarra estupendos e efeitos de pedal, a bateria é bem frenética, quase punk, e Vedder completa o caos com seus vocais gritados. Ouça bem alto!!

"Rearviewmirror" é uma grande surpresa desse álbum, começa com um baixo lindo de Ament. Essa música me traz boas memórias, um tempo que não volta, mas que faz muito bem lembrar. A bateria entra com muita pegada e Vedder está contido no início. As guitarras chiam riffs elétricos, até que Vedder vai pouco a pouco sendo mais incisivo em suas notas. Esse cara canta com uma paixão enorme. As guitarras mudam do meio para o final e depois de um solo curto a música explode e Vedder dá um show, só uma palavra: esse cara sabe criar climas em suas interpretações. A guitarra sola como se chorasse, impressionante também. Verdadeira mistura de velocidade, peso e melodia.  

Segundo Vedder, “Rats” é sobre a ideia de que “os ratos são provavelmente muito mais admiráveis do que os humanos”.  E, de fato, a crítica social está impregnada na letra, basta prestar um pouquinho de atenção: "Eles não fazem fraude, não lutam/ Não oprimem um de iguais direitos estabelecidos/ Deixam o pobre passar fome assim eles podem ser alimentados bem/ Enfileiram seus buracos com o pão dos mortos”. Seu instrumental retoma o ritmo funky do baixo de Ament que comanda o show, Vedder entra com primor, as guitarras são bem discretas. Vedder canta novamente explorando sua capacidade de barítono. 

“Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town", que conta a história de uma senhora idosa que passou a vida toda presa em uma pequena cidade, começa com um violão sensacional e Vedder entoando notas graves. O baixo de Ament marca presença, mas dessa vez quem dá o ritmo é o violão elétrico, com Vedder na guitarra base. Aliás, o baixinho está sensacional na segunda parte, quando canta só com o violão ao fundo. Grande momento do disco. Termina bem calma com a bateria quase acústica. Mais uma faixa pra não esquecer. 

"Leash" parece até um som punk no início com o baixo de Ament dando as coordenadas. As guitarras uivam com muita força e a bateria confere um caráter de rock direto e sem rodeios. Vedder está cantando como nunca, inclui boas variações e um refrão marcante. Soa como um The Who mais moderno, energizante do início ao fim.  

"Indifference” é uma canção acústica simplesmente fascinante. Perdi as contas das vezes em que escutei essa música bem quieto, no escuro. Vedder se esbalda nesse tipo de canção: graves, agudos, sussurros e o que precisar ele faz com primazia. As guitarras acústicas inserem um componente instrumental altamente sedutor à música com solos ocasionais e melódicos bem charmosos. Na segunda parte Vedder faz qualquer um chorar, já que tira da cartola uma interpretação dramática e emotiva com sua voz inconfundível. Aprecio muito a versão ao vivo que foi executada com a participação de Ben Harper. Fechamento nota 10!!

Vs é um disco honesto, que oferece em alguns momentos um rock bem direto e cru, estilo The Who, e noutros um repertório de canções melódicas de derreter o coração até dos mais insensíveis, mantendo o precedente trazido por Ten (Black, Garden e Release). Está longe de ser uma obra prima da grandeza de sua estreia, como já enfatizado anteriormente, mas proporciona uma viagem sonora bela, diversificada e empolgante. Ouça sem fazer comparações e aposto que vai se surpreender.


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Sobre Expedito Santana

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"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

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Sobre o álbum

Vs.

Álbum disponível na discografia de: Pearl Jam

Ano: 1993

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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