Resenha

Love, Fear And The Time Machine

Álbum de Riverside

2015

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

30/09/2020



A melodia, o brilho e a elegância do rock progressivo

Após duas grandes obras, Anno Domini High Definition (2009) e Shrine Of New Generation Slaves (2013), os poloneses do Riverside ofereceram ao mundo prog mais um notável lançamento, "Love, Fear And The Time Machine", lançado em 2015, o qual marcaria, infelizmente, a despedida de estúdio de um dos grandes membros da banda, o guitarrista Piotr Grudziński, falecido em 2016, responsável por solos e riffs incríveis e absolutamente inesquecíveis em trabalhos anteriores. Sua ausência ficaria bem evidente no álbum Wasteland (2018), que, apesar de ser um bom trabalho, denuncia um vácuo no ofício de guitarra. Vale dizer que Mariusz Duda assumiu as guitarras em Wasteland, e, em que pese reconhecer o seu grande talento musical, está bem claro que a praia dele é mesmo o contrabaixo. A propósito, entendo que a banda deve procurar um guitarrista fixo com urgência, de preferência alguém que traga alguma semelhança com o timbre do saudoso Piotr. Desde a morte de Piotr a banda se transformou em um trio e tem contratado profissionais para assumir eventualmente as guitarras. 

Aprecio praticamente tudo que esses caras fizeram até então, Riverside é uma dessas bandas que raramente comete deslizes em sua carreira. E mesmo o concerto ambiental e inteiramente instrumental protagonizado em "Eye Of The Soundscape" (2016) não maculou nem um milímetro a bela discografia da banda, ao contrário, demostrou muita ousadia e coragem dos poloneses. 

Love, Fear And The Time Machine apresenta um direcionamento musical levemente distante de discos anteriores, porém não deixa de trazer a marca da excelência Riverside, possui uma sonoridade bem próxima dos álbuns solo de Steven Wilson, o que não desmerece em nada o trabalho da banda, que mescla com maestria sessões mais pesadas de guitarra com climas belíssimos baseados no som do Hammond. 

O disco começa com “Lost (Why Should I Be Frightened By a Hat?), Duda aparece vocalizando lindamente com o hammond de Lapaj por baixo fazendo uma bela cama, em seguida algumas notas licks de guitarra e o baixo de Duda bem marcante. Na segunda parte a música aperta o passo, os riffs entram mais fortes e os vocais perdem um pouco a suavidade. Essa canção é edificante, sua letra é uma espécie de ode à natureza e liberdade, exprimindo ainda um desejo de escape da realidade. Termina com a guitarra ameaçando explodir. Um começo triunfal! 

“Under The Pillow” abre com guitarras dedilhadas e os vocais de Duda por cima, tem um ritmo mais acelerado que a anterior, logo o baixo e os teclados aparecem com um clima bem etéreo, a canção continua com uma cadência rítmica mediana até que as guitarras começam a uivar e os teclados inserem um componente mais enérgico, passagem muito legal com um riff acentuado de guitarra que consegue ser pesado e melódico ao mesmo tempo. Um solo enérgico e pomposo dá o verniz que faltava. Gosto mais da segunda parte, mas toda faixa é boa. Termina com a bateria duelando com a guitarra e teclados numa sessão magnífica. 

“#Addicted” começa com uma linha de baixo proeminente de Duda, em seguida as guitarras inserem ganchos legais, os vocais de Duda são fantásticos, os teclados nem se falam, a coisa acelera mais um pouco, que começo inesquecível! Um rock que tem uns momentos de Green Day, por conta do baixo, e Deep Purple, principalmente pela guitarra. A bateria tem um desempenho igualmente notável, dando impulso ao vocal de Duda. Termina com um dedilhado de guitarra e o Hammond pranteando bem lentamente. 

Tenho dificuldade de eleger uma favorita, mas devo dizer que “Caterpillar And The Barbed Wire” me agrada muito. Suas letras abordam o amor e o aprisionamento das relações. "Eu quero voar / eu quero bater minhas asas/ E causar um furacão em seu coração/ Borboletas / Melhor mentir do que ódio / Mas eu não posso mais fingir/ estou cansado de suprimir todas as minhas necessidades/ eu quero pertencer para o céu sem nuvens / Não para o solo sombreado.” Apresenta-se inicialmente com um baixo cavernoso e vocais tensos de Duda, aliás, que linha de baixo genial, a bateria então entra juntamente com riffs de guitarra contagiantes. Pouco depois dos três minutos o baixo fica mais marcante ainda e a guitarra volta pro jogo, o solo é cirúrgico, minimalista e sem maiores firulas. E quando a gente pensa que a coisa vai esfriar, a partir dos cinco minutos um teclado simplesmente extasiante aparece para fechar com maestria, atmosfera densa e um clima épico. Outra grande faixa. 

“Saturate Me” tem riffs de guitarra bem empolgantes e até meio funky no início e um baixo de respeito preparando o caminho. Os teclados são bem discretos, mas muito bons também. A partir dos dois minutos os teclados assumem o protagonismo e lançam um clima espacial e inebriante. Os vocais de Duda são muito bons. As baterias em seguida tomam conta da cena, inserindo peso enquanto as guitarras uivam por cima. A guitarra reaparece com força a partir dos quatro minutos solando com pujança, acompanhada de perto pelo baixo rasgado. E os teclados fazem inserções espaciais e psicodélicas, espetacular, imperdível essa passagem. Termina com dedilhados, teclados e Duda cantando de forma magnífica. Não precisa dizer mais nada, perfeição pura!!

“Afloat” é basicamente uma peça acústica, de grande suavidade, por sinal, remetendo a ninguém menos que Steven Wilson, os vocais de Duda são de uma ternura admirável, o violão de Piotr tem efeito tranquilizante, Lapaj cria um clima incrível, quase celestial, o conjunto instrumental lembra muito Anathema. 

“Discard Your Fear” começa um pouco eletrônica, o baixo de Duda é bem funky, e o lick de guitarra põe um suspense no ar. Os teclados fazem seus arranjos com discrição e beleza. Momentos pesados são inseridos com grande harmonia. Há algumas puxadas de guitarras bem rítmicas com a bateria e o baixo ajudando a manter a empolgação. Duda canta com técnica e se mantém contido. O solo de guitarra é levemente distorcido. Mais uma bela faixa.

“Towards The Blue Horizon” tem uma bela melodia desde o início, com dedilhados doces e Duda cantando por cima com grande emoção e doçura. Uma daquelas músicas que te cativa logo de cara. Alguns riffs de guitarra grudentos, uma bateria que marca posição na segunda metade e um solo de guitarra bem minimalista. Retoma a sua melodia chorosa a partir dos seis minutos, com Duda bem choroso e quase cantando em sussurros, volta de repente ao seu ritmo mais enérgico depois dos sete minutos, a bateria e as guitarras parecem brigar por espaço. Canção repleta de nuances. Vale repeti-la para tentar captar todos os seus detalhes.  

“Time Travellers” abre com violões e uma acústica bem legais, os vocais de Duda são bem fortes e ditam o ritmo das coisas aqui, até que o baixo resolve participar da festa e dar uma beleza incomum à canção, não deixando, porém, o tom acústico desaparecer. Sem dúvidas, o Riverside sabe trabalhar estas sessões mais lentas e viajantes com uma competência ímpar. Solo de guitarra soberbo e que não quebra o clima natural da canção. Essa faixa é uma grande pedida para um final de tarde numa praia deserta, encanto e beleza em abundância!!

O disco encerra com “Found (The Unexpected Flaw Of Searching)”, que continua em sonoridade bem análoga a anterior, dando seguimento lírico ao tema da busca e do desejo de paz em um mundo de caos: “Oooh, é uma vida encantadora/ Você chegou tão longe / Não desista / Oooh, é uma vida encantadora/ Você tem que ir com / O que você acha que é certo”. Depois de um minuto e pouco a bateria dá uma quebrada e anuncia uma pequena crescente até explodir num solo passional belíssimo de Piotr, um clima levemente melancólico se instala, a canção termina com dedilhados e o vocal de Duda em grande estilo. Não havia fechamento melhor! 

Considero este álbum mais uma grande obra da banda, demonstrando a inabalável coragem para, novamente, assumir e implementar mudanças musicais significativas sem perder a identidade. Se por um lado alguns fãs podem achar que “Love, Fear And The Time Machine” possui um pouco mais de suavidade e leveza que alguns trabalhos antecessores, por outro, com certeza, a qualidade musical do Riverside permanece intacta, a melodia, o brilho e a elegância de seu rock progressivo técnico exalam com abundância aqui, sem abandonar a emoção e a verve contemporânea. Por tudo isto, não canso de afirmar: Riverside é uma banda imprescindível à cena neoprogressiva moderna. Audição obrigatória!


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaRed Hot Chili Peppers - Californication (1999)

    06/11/2020

  • Image

    ResenhaThe Watch - Planet Earth? (2010)

    19/05/2021

  • Image

    ResenhaPorcupine Tree - Up The Downstair (1993)

    19/01/2021

  • Image

    ResenhaRatos de Porão - RDP Vivo (1992)

    21/04/2021

  • Image

    ResenhaSylvan - Sceneries (2011)

    25/03/2021

  • Image

    ResenhaAirbag - A Day At The Beach (2020)

    26/03/2021

  • Image

    ResenhaVan Der Graaf Generator - A Grounding In Numbers (2011)

    05/03/2021

  • Image

    ResenhaNirvana - In Utero (1993)

    10/10/2020

  • Image

    ResenhaAlice In Chains - Jar Of Flies (1994)

    03/04/2021

  • Image

    ResenhaGenesis - Genesis (1983)

    15/05/2021

Visitar a página completa de Expedito Santana



Sobre o álbum

Love, Fear And The Time Machine

Álbum disponível na discografia de: Riverside

Ano: 2015

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Love, Fear And The Time Machine



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.