Resenha

Take Me To The Alley

Álbum de Gregory Porter

2016

CD/LP

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

28/09/2020



Consequências do amor

Gregory Porter é premiado e multivendedor. Numa época em que a indústria fonográfica amarga competição com o download maciço, o norte-americano consegue que mais de meio milhão de consumidores ao redor do planeta comprem seus álbuns de jazz pop.

Em 2016, saiu Take Me To The Alley, mostrando que a voz de veludo não lisinho continua seduzindo, mas jazz não tem muito. Isso não significa que o solo de Porter esteja ruim, pelo contrário, o recheio de baladas é sensacional.

A abertura Holding On não prenuncia o prazer do resto. A faixa ressalta com competência o alcance vocal, mas a desaceleração da canção do Disclosure perde a mediana graça que tem o original dance, em Caracal. Que tenha sido repetida ao fim do álbum, em arranjo que nada acrescenta ao primeiro, torna Take Me To The Alley um tiquinho redundante.

Don’t Lose Your Steam abocanha com certo vigor as raízes gospel R’n’B do intérprete, temperando-as com sax picante e clima bem Ray Charles. A edição de luxo traz 2 remixes: o Aufgang remix acrescenta interessante progressão pesadona ao piano e o de Fred Falke bota batidão à disco music Bee Gees. Agradavelzinho.

As próximas 8 faixas são puro baladeiro, onde o jazz apresenta-se em detalhes, que não desapontará corações românticos fãs de Burt Bacharach. Muitas canções estariam confortáveis no repertório 70’s/80’s, mas a produção discreta evita maneirismos inerentes a essas décadas. É tudo questão de clima e reminiscências mesmo. O ápice desse doce miolo é Consequence Of Love, brilhantemente simples, mas intoxicante e com potencial para se tornar estandarte no quesito “lutas por amores (quase) impossíveis”.

Como o jazz, muitas faixas recendem a gospel sob a superfície easy listening. Como tantas vozes negras, Gregory se formou musicalmente cantando em igrejas e não tem vergonha de intitular um álbum mainstream a partir de uma canção que fala sobre a segunda volta de Cristo. Sua mãe é pastora, a quem ele dedica a terna More Than a Woman, cuja letra diz que embora ela jamais tenha andado sobre as águas ou transformado água em vinho, fez os olhos cegos do filho verem (metaforicamente, bem entendido).

Porter é bom letrista além de cantor e os não religiosos não precisam recear carolice. A charmosa In Fashion – descendente direta de Bennie & The Jets, de Elton John – adota tom discretamente irônico sobre um casal “famoso” com letra quase tão esperta quanto as de seu xará em sobrenome, Cole. Carão.

Insanity vem em 2 versões, uma delas em forma de dueto com Lalah Hathaway, minha favorita, porque parece que estamos a ouvir programa de urban jazz/quiet storm tarde da noite numa FM metropolitana. Já que essa é a versão definitiva por que colocar uma sozinho?

O jazz ficou reservado para as 2 últimas faixas, Fan the Flames e French African Queen, onde o título já sugere entonações afro-latinas. Nessas canções, o fã de jazz deleitar-se-á em solos de sax, piano, trompete, scat singing, alguma dissonância e muita beebopice.

Take Me To The Alley tem tudo para agradar enamorados e fãs de pop jazz/soul. Se tivesse prestado atenção às gordurinhas das repetições desnecessárias, seria melhor.


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Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Nível: Colaborador Especialista

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Sobre o álbum

Take Me To The Alley

Álbum disponível na discografia de: Gregory Porter

Ano: 2016

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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