Resenha

Sounds That Can't Be Made

Álbum de Marillion

2012

CD/LP

Por: Expedito Santana

Colaborador

19/09/2020



A consolidação de um caminho

Em minha opinião, o Marillion tornou-se uma banda acima do bem e do mal, notadamente por tudo que representa no meio musical e por ser detentora de uma vasta obra de grande qualidade e, em que pese alguns deslizes cometidos durante a sua história (Radiation,, Marillion.com etc), considero-a uma grande referência do rock progressivo, além de ser umas das precursoras da vertente neoprogressiva, atraindo sempre muita paixão, polêmicas e críticas, inclusive entre os próprios admiradores da banda.  

Sou fã confesso do Marillion e não dou muita bola para essa velha e interminável história de comparações entre as Eras Fish e Hogarth. Entendo que cada um dos vocalistas tem a sua importância e, apesar de respeitar todos aqueles que decidem cravar suas posições antagônicas, prefiro pensar no Marillion, às vezes, como duas bandas diferentes (antes e pós Fish). Sou apaixonado pela fase pré-Hogarth, o som da banda era muito bom e a discografia Fish no Marillion, pra mim, é impecável, ainda que os acusem de plagiar o Genesis (injustiça pura!!). Entretanto, faz-se necessário admitir que Steve Hogarth trouxe uma versatilidade vocal notável para o Marillion e segurou o bastão com muita dignidade (Seasons End é prova irrefutável disto), ganhando seu espaço com naturalidade e permitindo uma evolução musical da banda consequentemente. 

Feita esta breve introdução, passo então à análise de Sounds That Can't be Made. O referido álbum é o décimo-sétimo de estúdio dos britânicos, foi lançado em setembro de 2012. Produzido juntamente com Mike Hunter. É o primeiro disco inteiramente inédito desde Happiness Is the Road (HITR), de 2008 (esse também vale uma boa resenha, mas vou agora tentar preencher, humildemente, a lacuna ainda existente de Sounds That Can't be Made). 

“O álbum debutou em 43º lugar na parada britânica, 22º lugar na holandesa e 29° lugar na alemã. De maneira geral, recebeu críticas positivas. O Huffington Post ponderou que "os fãs não iriam ficar desapontados" e que este seria o trabalho mais completo da banda desde Marbles, de 2004. (Fonte: Wikipedia)  

A meu ver, o trabalho consolidou um caminho que vinha sendo trilhado pela banda nos anos anteriores. Podemos encontrar em Sounds That Can't be Made épicos progressivos, sonoridades híbridas com múltiplas variações de atmosferas e andamentos, para matar a saudade de faixas do tipo Ocean Clouds e The Invisible Man, ambas do álbum Marbles, bem como canções mais palatáveis, levemente inclinadas ao pop-rock, lembrando You`re Gone  (Marbles) e Dry Land (Holidays in Eden). Os temas são múltiplos e sem ligação entre si, quebrando, portanto, o arcabouço de obra conceitual de alguns trabalhos anteriores.  

"Gaza" é a faixa que abre o álbum, cuja letra aborda o dramático e eterno conflito entre árabes e israelenses na Faixa de Gaza. É a canção mais longa do álbum, possui cerca de 17 minutos, mudanças de variações constantes, momentos mais pesados e sons orientais incorporados. Recomendo prestar muita atenção ao belo solo de guitarra de Rothery aos 13 minutos, aliás, diga-se, esse cara discreto é um dos grandes responsáveis por coisas belíssimas que o Marillion já fez (vide solos de Easter, Runaway entre outras). Gaza termina mais acelerada com Hogarth, nos vocais, e Rothery, na guitarra, duelando em grande estilo. Uma boa faixa, mas um pouco longa demais (vale dizer que sou apaixonado por suítes), talvez uma versão mais enxuta melhorasse a minha avaliação sobre ela. 

A faixa título dá sequência ao disco, tem um começo bem marcante com teclados inesquecíveis (sempre lembro involuntariamente dessa melodia), uma prova inequívoca da competência de Mark Kelly, exuberância pura. Aliás, a faixa é toda construída em torno dos teclados. Uma vez vi uma entrevista do The Edge, guitarrista do U2, na qual ele disse que as belas melodias passam a impressão de que sempre existiram, é o caso aqui. A quebra de ritmo depois dos 4 minutos é sensacional, seguida de um lindo solo de teclados. Hogarth está magnífico (adoro quando ele canta em falsete: “silent and high”) e na parte final entoa seus versos com Rothery solando lindamente por cima, uma pintura!! A arte levada ao nível extremo da perfeição. Essa música desperta em mim os sentimentos mais puros e ternos, me traz uma leveza indescritível. Repita essa faixa sem medo de enjoar. Grande destaque. 

“Pour My Love”, cujas letras abordam a morte e renascimento do amor, mostra-se um pouco diferente da sonoridade do restante do álbum, soa um tanto incoerente com o conjunto. Tem baixos bem legais de Trewavas e possui um ritmo meio funky, com vocais comportados de Hogarth. As pequenas inserções de guitarra de Rothery e o solo bluesy curto que faz aos quatro minutos dão um verniz mais charmoso à música. Apesar de bastante agradável, não pode ser considerada uma grande faixa. 

“Power”, que tem letras que abordam a dinâmica do poder, vem logo depois, e não escondo de ninguém que é uma das minhas preferidas (como adoro a versão ao vivo dessa música!!). Tem um começo bem genuíno, exala um breve suspense, até que Hogarth entra de forma magistral, tudo acompanhado por uma linha de baixo sensacional de Trewavas, uma bateria de Mosley em compasso bem discreto e teclados bem encaixados de Kelly. Quando vem o refrão marcante, Hogarth despeja toda sua veia dramática e densa, de arrepiar! Ela começa a crescer na segunda parte com a guitarra de Rothery puxando o restante da cozinha, até explodir totalmente num solo passional desse grande discípulo de David Gilmour. Momento magnífico do álbum. Esse tipo de faixa mostrou-se como uma grande marca da Era Hogarth, uma oportunidade para o vocalista esbanjar todo o seu talento melódico e versatilidade e, ao mesmo tempo, conferir uma veia mais comercial ao som da banda. Não vejo problema algum nisso, desde que o Marillion continue criando música de qualidade, respeitando seus milhares de fãs e sua própria história. Ouça em volume alto, ótima faixa. 

“Montréal” é a segunda mais longa do disco, catorze minutos, sua letra trata de incursões que a banda fez na cidade de Montreal, uma espécie de caderno de memórias de shows. Faixa bem parecida com algumas coisas de Happiness Is the Road - Volume 1 – Essence, principalmente a faixa-título deste. Possui uma atmosfera cativante, um tanto aconchegante, diria. Hogarth está novamente comportado aqui, mas não deixa de executar uma bela interpretação, com agudos ocasionais perfeitos e uma extensão bem técnica no refrão. Os teclados de Mark Kelly são lindos nesta faixa (aliás, como esse cara é bom!!), apoiam-se em variações climáticas etéreas. Rothery bem sutil em suas notas. Trewavas também tem linhas de baixo muito boas. A partir dos 10 minutos a faixa adquire um ritmo mais acelerado, com Mosley batendo sem pena suas baquetas, até que dá uma nova parada a partir dos 11 minutos e depois volta a aumentar o compasso após os 12 minutos. Estamos diante de um épico progressivo muito bem executado pela banda, combinação sinérgica de emoção e técnica. 

“Invisible Ink” começa com Hogarth cantando bem calmamente e apenas os teclados de Kelly ao fundo. Mais ou menos a partir dos dois minutos a faixa engata uma terceira marcha e acelera, a bateria de Mosley fica bem nítida. Não a considero uma grande música, porém, não deixa o nível cair. Ela é uma daquelas fórmulas que o Marillion sabe construir com primor e sem possibilidade de erro. Eles são bons em entregar faixas medianas e aprazíveis aos ouvidos.  

“Lucky Man” tem letras que abordam a simplicidade como possibilidade de ser feliz, como se o segredo fundamental residisse em querer menos e estar satisfeito com o que se tem. Estes versos me lembram a teoria do filósofo Epicuro, cuja ideia central era fazer da vida simples e frugal a base da felicidade. Começa um tanto pesada e depois entra num ritmo bem leve, com teclados pop-espaciais de Kelly. Tem riffs bem edificantes de Rothery e se mostra bem adequada para os shows da banda. Confesso que ela me cansa um pouco, geralmente dou uma pulada lá do meio para o final. De qualidade mediana. 

“The Sky Above the Rain” fecha o disco, é a terceira mais longa, com duração um pouco superior a dez minutos. Liricamente aborda relacionamentos. Aquela velha história de um casal amoroso que ainda se gosta, que claramente passou por toda a jornada que a maioria dos casais passa (fim da paixão, desgaste, rotina...), porém, começam a experimentar incompatibilidades que inviabilizam que continuem juntos. Seu instrumental está baseado num loop de piano muito singelo de Mark Kelly. Perto dos oito minutos Hoghart explode vocalmente, linda interpretação desse cara, sentimental, forte, como se cantasse com uma faca enfiada no coração. (Adoro o refrão dessa música). Enfim, sem palavras. Uma peça sonora capaz de produzir grande emoção, dessas coisas que só a música e a arte são capazes. Gran Finale !!

Por fim, talvez surja então a questão sobre como avaliar Sounds That Can't be Made. Nesse sentido, cabe destacar que não o considero uma obra-prima da estatura de Brave ou Marbles, por exemplo (não quero aqui citar discos da Era Fish). Contudo, como dito anteriormente, mostra a consolidação de um caminho musical escolhido pela banda, com um som ainda avançando criativa e emocionalmente, combinando com muita competência algumas peças excepcionais de música com outras apenas agradáveis, mas resultando num todo bastante harmônico e digno da história da banda.  

Audição obrigatória para todos aqueles que apreciam um rock progressivo melódico, emotivo e corajoso. E para os fãs, assim como eu, mais um grande motivo para continuar cultuando essa grande banda. 

Vida longa ao Marillion!


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Expedito Santana

Nível: Colaborador

Membro desde: 27/07/2020

"Sou um fã de música inveterado, principalmente de rock and roll, daqueles que podem ficar dias e dias imerso em discografias sem se preocupar com o mundo lá fora. Meu gosto é bastante eclético dentro do gênero rock, curto progressivo, hard, metal, alternativo etc."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaQueens of the Stone Age - Queens Of The Stone Age (1998)

    27/01/2021

  • Image

    ResenhaGenesis - Genesis (1983)

    15/05/2021

  • Image

    ResenhaNirvana - In Utero (1993)

    10/10/2020

  • Image

    ResenhaVan Der Graaf Generator - Do Not Disturb (2016)

    08/03/2021

  • Image

    ResenhaDead Kennedys - Fresh Fruit For Rotting Vegetables (1980)

    01/02/2021

  • Image

    ResenhaPearl Jam - Vs. (1993)

    01/10/2020

  • Image

    ResenhaU2 - All That You Can't Leave Behind (2000)

    12/10/2020

  • Image

    ResenhaAnathema - Weather Systems (2012)

    23/02/2021

  • Image

    ResenhaRaul Seixas - Novo Aeon (1975)

    01/02/2021

  • Image

    ResenhaHelmet - Meantime (1992)

    21/04/2021

Visitar a página completa de Expedito Santana



Sobre o álbum

Sounds That Can't Be Made

Álbum disponível na discografia de: Marillion

Ano: 2012

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 4 votos

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Sounds That Can't Be Made



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.