Resenha

Spectrum

Álbum de Hiromi Uehara

2019

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

04/09/2020



Um disco muito bem arquitetado, melodioso, belíssimo, divertido e lúdico

Hiromi Uehara é uma pianista de jazz do mais alto nível, com um estilo único e bastante eclético que a faz com que possamos encaixá-la tranquilamente também dentro do universo progressivo. Durante a sua carreira, ela fez vários discos tendo uma banda a acompanhando, mas em 2009, seu álbum chamado Place to Be, foi apenas para piano. Desde então ela havia lançado quatro discos e se apresentado com o seu projeto chamado The Trio Project, mas em 2019, novamente ela lançou um disco solo – dez anos após o último, Place to Be -, Spectrum, este, mais um álbum para piano. 

Todos os nomes das faixas de Spectrum têm a ver com cores. A professora de piano de Hiromi lhe disse certa vez que ela pensasse na música em que toca, tons de cores, sendo isso exatamente o que ela retrata aqui neste álbum. Hiromi também diz que quando se esta tocando um álbum que é totalmente piano solo, o artista acaba muito mais exposto e exigido, porque não há mais nada lá para encobrir quaisquer fraquezas ou erros. 

O álbum começa com a faixa, “Kaleidoscope”, provando de forma instantânea o quanto que Hiromi é única e tem um estilo de tocar e que é capaz de fazer com que o ouvinte pense que está ouvindo mais do que apenas um piano. Se você não tem familiaridade alguma com os trabalhos da pianistas, você notará o brilhantismo com que ela muda o toque das teclas para fazer tudo soar quase como um novo instrumento. Este é diferente de qualquer álbum solo de piano por causa de sua variedade de entrega que o faz soar tão em camadas como um pequeno grupo inteiro de instrumentos tocando junto com ela. Esta faixa apresenta várias passagens muito rápidas que utilizam toda a extensão do teclado. Logo na sua primeira faixa, Spectrum mostra que apesar de ser um disco apenas para piano, sua música não foi feita apenas pra pianistas ouvir. 

“Whiteout” é uma peça bem mais suave e que flui como uma neve voando pelo ar. Possui um som um pouco mais tradicional se comparado a faixa anterior, mas novamente o toque especial de Hiromi é de uma sutileza tão grande que faz com que o seu piano novamente se torne sua própria orquestra. Conforme a faixa vai se desenvolvendo é fácil perceber o quanto ela vai se tornando mais rapsódica – não sei nem se esse seria o termo exato - e dinâmica. De certa forma, soa como algo entre George Gershwin, mas também às vezes inspirado na Sonata ao Luar de Beethoven. 

“Yellow Wurlitzer Blues” é uma música em que não é necessário muito para poder falar sobre todo o seu brilhantismo. Ela possui um estilo baseado em boogie/blues/ragtime simplesmente belíssimo, divertido e lúdico, além de animado e jazzístico. “Spectrum” começa de uma forma mais frenética nos fazendo remeter ao fusion, espesso e complexo, algo muito parecido com que Keith Emerson pudesse fazer, mas novamente, Uehara não esquece der adicionar a sua peculiaridade e maneira única de tocar. Fazendo coisas com as teclas que produzem alguns sons e texturas diferentes que você normalmente não ouve de um piano. Há momentos em que as notas passeiam pela música em uma velocidade que fica difícil de acompanhar. 

"Blackbird" é mais um dos momentos bastante suaves, leves e fluidos do álbum. Não acho que exista algo mais a dizer sobre ela, somente que mantem o alto nível do álbum. “MR.C.C” é uma peça baseada em sua experiência de improvisação em um filme mudo de Charlie Chaplin. Hiromi se move para um estilo de jazz antigo e rápido, um pouco cômico e divertido, fortemente baseado em um estilo ragtime com um final lento e dramático. Um dos melhores momentos do álbum. “Once in a Blue Moon” retorna o álbum a uma atmosfera jazzística e pinceladas blues, além de carregar um maior sentimento de improvisação. Possui uma velocidade moderada, mas as notas novamente voam rapidamente, há também um retorno de Hiromi frequentemente ao tema principal da faixa. 

“Rhapsody in Various Shades of Blue”, com quase vinte e três minutos, é aquela que sem dúvida alguma pode ser vista como a peça central do disco. Trata-se de um medley de vários temas famosos em apenas uma única faixa. O início de tudo é através de uma visão de Hiromi em cima de “Rhapsody in Blue" de Gershwin. A dinâmica com que ela toca é o que torna essa faixa ótima. Novamente Hiromi coloca uma riqueza tão grande no som que ás vezes nós pensamos que ouvimos uma banda completa e não apenas um “simples” piano. Ela consegue fluir através de todos os infames temas de Rhapsody in Blue com uma graça e facilidade única. Conforme a música vai avançando, ela traz com ela vários temas e interpretações de jazz, mas sempre voltando para o tema central, Rhapsody in Blue de Gershwin. “Sepia Effect” é a faixa que finaliza o disco. Possui uma melodia muito bonita e um bom padrão de arpejos por de baixo dela. Um final de disco bastante adorável e apropriado para este álbum cheio de cores e emoções. 

É bastante nítido que o estilo de Hiromi neste álbum é fortemente baseado na melodia e no improviso em cima da melodia criada, não se trata de uma improvisação aleatória, pois cada faixa está ligada a fortes temas. O toque de ideias variadas faz com que o disco seja interessante do começo ao fim, com cada uma das faixas tendo sua própria personalidade. A capacidade que Uehara tem de mudar repentinamente de um estilo para outro com suavidade e graça é simplesmente incrível. Hiromi é incrível e sem a menor sombra de dúvida uma verdadeira mestre no teclado/piano, onde poucos atualmente no mundo tocam no nível dela. Um disco muito bem arquitetado, melodioso, belíssimo, divertido e lúdico.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Spectrum

Álbum disponível na discografia de: Hiromi Uehara

Ano: 2019

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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