Resenha

A Momentary Lapse Of Reason

Álbum de Pink Floyd

1987

CD/LP

Por: Cheap.

Usuário

06/08/2020



Um Lapso Momentâneo de Tédio

Pink Floyd sempre foi uma banda marcada por conflitos. Entre os integrantes, os que menos se bicavam, se pode ser colocado desta maneira, era Roger Waters e David Gilmour. Ambos tinham uma rixa criativa bastante prolongada. Repare, que Roger era instrumental na base corporativa da coisa, sempre inovando em riffs e linhas de baixo, e Gilmour era nas letras e no experimental creditado ao uso de sintetizadores. Não foram poucas as vezes em que ambos entraram em conflito, pois o que se iniciou após o segundo álbum, saída de Syd Barrett, reflete na conexão entre os dois. Uma parceria incrível, mas bastante autodestrutiva.

Momentary Lapse of Reason é o retrato disso. Sendo assim, vamos direto à crítica.

Repare o título da crítica. Eu não digo que o álbum é tedioso. Mas se a gente pudesse definir certamente o comprometimento da banda sobre o álbum, é bem perceptível que eles estavam cansados de toda essa coisa que a indústria botava acima deles. Estavam tão desgostosos que isso criou grandes atritos entre eles. Waters se definiu como orgulhoso. Quando ele se ausenta da banda por um tempo, entrega tudo às mãos de Gilmour e Nick Mason. A alma se perde neste período, pois depois o fundador oficial da banda, Barrett, havia saído, era Roger que tinha o controle de tudo isso. Inclusive, quando Gilmour entregou a confiança a Roger, este lhe disse, ignorante, que "não era capaz de fazer ***** nenhuma". Entre brados, David ignorou e partiu em frente, não deixando que a banda terminasse a sua história daquele jeito drástico. E eu te levanto a pergunta: por que isso? Por que não terminar a história marcando o impacto que já teve, como obras-primas como Animals, The Piper at the Gates of Dawn e Dark Side of the Moon? Era a maneira mais bela, e entre tantas ignorâncias, não é que o altão baixista estava certo sobre sua palavra? Não totalmente, mas estava: sem ele, Pink Floyd era outra banda. 

Admito, a força criativa não era gasta. Tanto material para produção era capaz de ser usado. Em 1987, os ritmos musicais estavam mudando muito. O punk estava caindo e o eletropop surgindo. O Jazz era só um sample e o Disco tinha que vir mesclado num compacto severo e explicável às medidas que a história continuava.

O letrístico é simplista. Não tem nada demais a oferecer, além de pequenas frases soltas, um minuto ou dois de instrumentalização e depois mais frases soltas e mais, mais, não tem um ritmo cadenciado e rítmico da coisa. A gente não pode ridicularizar isso. Como The Final Cut veio, era tão diferente quando o Momentary, com uma mixagem mais próxima de The Wall adjunto de Saucerful of Secrets/More. A partir dali, creio que muitos fãs não sabiam o caminho que a banda iria seguir, junto de uma descarga de medo e abandono que iriam ter. Foi exatamente isso que gerou uma explosão de vendas nos álbuns seguintes, estavam esperançosos para tudo voltar ao normal como era antes; quando o primeiro disco chegou nas bandas e eles compraram.

O desvio é muito forte aqui. Não é psicodélico, e não tem a essência do Floyd. É só um rítmico melódico, facilmente colocado em uma música de elevador em 8-bit que ninguém notaria bastante diferença. A magia vem pelos efeitos e causas que a gente escuta. Somos levados a crer que tudo ficará bem. Num primeiro momento, funciona. Na era, isso funcionou muito bem. No segundo, por outro lado, já sabendo onde a história termina, aparenta-se que distancia da banda e é um trabalho solo e com participações espaciais da marcha de apoio, com saxofones e percussões.

Você percebe que o trabalho foi feito na força do ódio. Para mostrar mais do que precisava que todos eles eram capazes de ser melhores do que Waters no comando, After Face - álbum de estúdio de David Gilmour - é um projeto bastante interligado com esse. As premissas das músicas aparentam ser bastante simples, nada para oferecer muito, só que é só a imaginação. Tem bastante coisas para a gente investigar. Desde as palavras soltas, entregadas de mão beijada para nós, até coisas mais vespertinas.

Tem quem diga que o disco não é temático. Ao meu ver, ele é bastante temático. Desde a progressão de acordes até o lírico, os conteúdos velados são desconexos em certo ponto, porém tem seu destaque. Como mártir do próprio medo, é bastante difícil a gente tentar se manter ausente das atrocidades documentadas, cada uma com algo pessoal dos integrantes. Learning to Fly fala sobre aviação, porém para tantos outros é a fase da mudança e decolagem que o conjunto estava enfrentando com a saída do líder, que ficou no poder por quase 20 minutos. É um tom delicado, cruel e fiel à discografia, só que não tem algo ali... Não tem o espírito. Não tem aquela coisa característica que frequentemente é delineado nas pontas de uma história. É pura desanimação. É só uma música bastante forçada, por exemplo, sem cativante, sem restos de utensílios básicos para construir um prédio enorme, recheado de cimento para preencher as redundâncias. O que tem de admirável é o piano de Richard Wright, que é o pior defeito, mais alto do que deveria.

As canções incompletas se mesclam na corrente de passagens metódicas. Um zumbido se conecta com um piano; uma guitarra se conecta com o som de nota de baixo. Isso serve para desorientar ou para causar espanto, sensação de magia na sua frente. O mecanismo é essencial para gerar o conflito das faixas. Vou me sentir na obrigação de defender aqui, pois uma das críticas negativas é que não "soa como Roger". A gente pode perguntar a qualquer um deles porque precisa soar como Roger se tinha que soar como Pink? Soa como Pink, só não soa como Floyd.

Um eco persuasivo e maquinário, imaginário, que tinha em singles como Have a Cigar e Dogs é exclusivamente bonito na primeira faixa. O tribunal diabólica de The Trial tem mantido seu impacto nas melosidades mórbidas. Os caminhos mais executados são os longos, em Sorrow, com seus 8:46, tem a participação especial de tecnologia, destacando-se mais ativamente em Keep Talking, com as amostras de vozes de Stephen Hawking. Sem dúvidas, era um avanço enorme de um salto de 7 anos. Agora imagine-se, uma banda com vinte anos com o pé na estrada tendo que botar tudo a perder? As pirotecnias de palco, com as ferramentas metalúrgicas, o exercício mental para colocar tudo perfeitamente em seu estado complexo. Exato. Compreendo o desespero deles. Os medos, os anseios. Se deixassem o trabalho para trás, Momentary seria melhor. Se deixasse os problemas para trás, seria muito melhor. 

É a coisa mais louca. Estética, Momentary Lapse of Reason não é a coisa mais louca em termos líricos, nem técnicos; mas a sua história é a mais confusa. Foi algo apressado, só para resolver questões judiciais que diziam a respeito de detenção de direitos da músicas para um dos dois lados: Gilmour/Mason X Waters. Os três tentavam ficar um em cima do outro. Infelizmente, Wright, o mais subestimado dentre eles, não teve parte nisso. Não teve seu toque mágico, magistral e "nocivo" sobre preguiça. Ele era forte, abismal, muito, mas muito querido na arte do que fazia.

A Momentary Lapse of Reason fecha um ciclo pavoroso da banda. Só se resolveria um pouco em Endless River, com barulhos de panos de chão batendo na calçada de uma fachada. 

Erra, peca; mas se recupera em tão pouco tempos, com faixas imersivas e galgadas a um pico, até que desce, infelizmente, para provar o seu ponto.


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Sobre o álbum

A Momentary Lapse Of Reason

Álbum disponível na discografia de: Pink Floyd

Ano: 1987

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,15 - 13 votos

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