Resenha

Space Oddity

Álbum de David Bowie

1969

CD/LP

Por: Cheap.

Usuário

05/08/2020



Space Oddity não é uma obra-prima; mas é uma obra imperiosa

David Bowie é considerados por muitos um inovador. Em tudo o que fez e fundou, ele domina vários aspectos e dramas postos em estrofes simples, mas ricas em detalhes, que funcionam em seus discos alternativos - e conceituais -, com a nociva e perigosa rebeldia de um homem não amargurada, mas que quer causar amargura. Provocando o sintético, a letargia suave e a sinergia que cada contra cria em uma liga metálica de suas canções, não é de pouco falar que o britânico que mais admirava outros cantores além de si mesmo, tinha um ímpeto e a estamina de um cara novo. Entre tantos personagens, sabia diferencia-los de si mesmo. Cada momento de sua vida reflete na criação de uma pessoa nova, uma história era construída álbum por álbum. Os piores álbuns dele, sem negar, tem a produção desleixada, mas maneira, uma "moleque", assim dizendo. Um resgate de quem ele era na infância e quem ele é como adulto. Se quer começar por ele, esqueça Ziggy Stardust, esqueça Heroes, esqueça Diamond Dogs: comece por Space Oddity.

Você poderia considerar que Space Oddity é um desvio de Bowie. Não é ele mesmo, é outra pessoa. O que se sabe é que com uma reconstrução de material, de início é meio suspeito, até porque não é tão pegajoso como os outros. Contudo, a marca está ali. Bem na sua cara, apertando com os dedos o seu rosto e deixando marquinhas de unha na extensão das maçãs. É fundamental se sentir imerso na música. Bote fones de ouvido, feche a cortina dos quartos e desligue as luzes. Space Oddity é um ode à alegria. Tão barulhento, tão galáctico; pondo conosco o sentimento de impotência e rebaixamento, inferioridade. Inclusive, a primeira faixa é exatamente isso. Um começo lento, o final trágico: propositalmente, somos colocados no núcleo da história, somos o astronauta em perigo no meio do espaço. Cada acorde tocado é só uma sinfonia grudenta, suja e cadencia gradualmente numa espécime jocosa. Indiretamente, nosso amigo cantor é indireto. Puxa influências Dylanescas, puxa influências Beatlemaníacas e até comportamentais.Quanto mais o álbum avança, mais sujeito à ignorância ele fica. O terror é pasmo, como um quadro negro sendo riscado por uma régua fina, com o estalido agudo transportando sons para seus ouvidos. O que dá a impressão é que algumas músicas estão ali só para encher seus ouvidos, não tem muito propósito, só servem para estender mais do que 20 minutos. Um problema muito escondido, mas perceptível quando a atenção é focado nisto.

Cada suave nota é menor do que o alcance vocal de Bowie. Essencial para a gente se sentir tocado na cosmologia de suas "fábulas", e sempre envolve um temor, um medo de um cara preocupado e ansioso com o mundo a seu redor. Ou seja, se já temos Space Oddity na primeira faixa, porque a última é necessária ter Ragazzo Solo, Ragazza Sola, se esta poderia vir num compacto italiano, ouso até falar num CD separado, numa versão só estrangeira?

Entre baladas, Space Oddity facilmente poderia ser uma trilha sonora de 2001: Uma Odisséia no Espaço se fosse um filme destinado à obra de 1969 do cantor. Pois, se a gente esquecer de lado a melancolia do filme, e só deixar as partes interessantes, na nave, Space Oddity daria muito bem. Janine seria uma maçaneta de porta à construção do final; trágico, confuso. 

Creio que muitos vão achar estranho ouvir Space Oddity pela primeira vez. Se estão habituados à ouvir só as famosas - Life on Mars, The Man Who Sold the World -, aqui só vai se reconhecer com a faixa homônima. Algumas faixas budistas ou com cunho religioso é bem deslocado, até pois não é uma releitura, um impacto; parece só estar lá para compreender um bloco restando no pico da construção. No lançamento inicial, as vendas foram baixas - ainda que as críticas fossem positivas. E eu entendo o porquê. Ninguém 'tava preparado pra isso, um cantor novo na indústria construindo uma cronologia e hierarquia para si próprio. O álbum não aparenta ser sério, é como um grupo de amigos tocando música e rindo por um erro na letra. 

Com os acréscimos de sons do órgão, claramente tem um progressivo aqui e um art rock por ali. Os primeiros fluidos da carreira do Bowie estavam aqui, na nossa frente, e teimamos a não ver isto. Ignorantes, mentes fechadas vão se descontentar por não ser um início digno. Mas vamos lá, diante de materiais de pontapés, como Black Sabbath ou Caribou, Space Oddity chega a ser pés? Digo: sim. Chega nos pés no amadorismo, só peca na tentativa de ser mais intelectual do que era. 

Cygnet Committee é o magnus opus deste disco, dando-nos os primeiros vislumbres da composição-cabeça que Bowie traria um ano depois, com composições mais fortes, impactantes e sem papas. Porém, o único desânimo duma faixa fica nas mãos de Unwashed and Somewhat Slightly Dazed. Boa, mas extensa demais, os últimos dois minutos podendo ser reduzidos, sem o preenchimento de instrumental básico e simplista.

Space Oddity é bom, entre trancos e barrancos, deslizando em algumas forçações e forjadas matemáticas de construção, mas nos apresentando a Robert Jones, no seu som cabaret e avant-garde.


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Sobre o álbum

Space Oddity

Álbum disponível na discografia de: David Bowie

Ano: 1969

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,12 - 4 votos

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