Resenha

Black And Blue

Álbum de The Rolling Stones

1976

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

01/08/2020



Os Stones se rendem ao lado negro - e azul - da força !

Os Stones se preparavam para entrar em estúdio no final de 1974. A ideia era lançar o álbum no verão do próximo ano, quando fariam uma turnê americana. Porém, um dia antes de se iniciarem efetivamente as gravações, Mick Taylor informou que estava deixando o grupo, sem nenhuma explicação plausível, apenas insatisfação artística.

A noticia caiu como uma bomba no grupo, deixando todos surpresos e irritados, principalmente Keith Richards. Então, os Stones resolveram gravar o disco e ao mesmo tempo, utilizar as sessões de gravação como um tipo de audição para encontrar o futuro guitarrista  da banda. 

Dentre os inúmeros candidatos a vaga, vale destacar: Eric Clapton, Peter Frampton,  Wayne Perkins, Harvey Mandel e Ronnie Wood. Os três últimos parecem ter agradado mais ao grupo, pois chegaram a participar de faixas deste álbum. Perkins era um conceituado musico de estúdio, tendo gravado com Joe Cocker , Leon Russell , Jimmy Cliff , Jim Capaldi , Steve Winwood e muitos outros. Mandel, além de uma elogiosa carreira solo, havia integrado o Canned Head e gravado com John Mayall. E Wood integrou o Faces, Jeff Beck Group e já havia participado do disco anterior do grupo.  O narigudo acabou sendo o escolhido , porque, além de ser inglês, seu estilo se encaixava melhor ao de Keith, tendo as mesmas raízes bluseiras. Mas o fato de ambos serem amigos de longa data, dividindo porres e bebedeiras ajudou bastante, uma vez que possuíam uma intimidade única;

Apesar de ser o escolhido, Wood Tocou em apenas três faixas deste álbum, ajudando com alguns vocais de apoio em outras. “Black And Blue” foi gravado entre Rotterdan, Montreux e Nova Iorque, sendo concluída nesta ultima em fevereiro de 1976.

A pluralidade de convidados e guitarristas influenciou na sonoridade do disco, que se mostra bastante versátil e variada.  O álbum abre com “Hot Stuff”, um Funk encharcado de groove e soul. Foi composta em cima do riff de Keith e tem Harvey Mandel na guitarra;

“Hand of Fate”, é um rockão básico desses que se encaixam perfeitamente na voz de Jagger. Perkins demonstra nesta faixa porque era um músico de estúdio tão conceituado na época;

Então temos um Reggae, um cover para “Cherry Oh Baby” de Eric Donaldson. Richards nunca escondeu sua admiração pelo estilo, e Mick também já havia demonstrado afinidade com a música Jamaica. Apesar de ser uma releitura interessante, a faixa soa deslocada no álbum;

“Memory Hotel”, a faixa mais longa do disco fecha o lado “A” de maneira melancólica. É uma balada amparada pelos sintetizadores do convidado Billy Preston,  e novamente Mandel, dividindo as seis cordas com Keith;

O antigo lado “B” se inicia de maneira dinâmica, com “Hey Negrita”, um tema sincopado, com influência de soul, funk e música étnica. O riff e boa parte da canção foi composta por Ron Wood, por isso lhe deram o crédito  de “Inspirado por...”;

A seguir vem “Melody”, uma das melhores e mais originais faixas do álbum. É uma canção jazzy, totalmente “costurada” pelo piano de Billy Preston, que ainda ajuda nos vocais ao lado de Jagger, que dá uma interpretação malandra ao tema;

“Fool To Cry”, é uma balada extremamente passional, traz Nick Hopkins ao piano e Wayne Perkins na guitarra;

Encerrando o álbum, temos “Crazy Mama”, primeiro rock da banda a contar com a nova dupla de guitarristas. É um daqueles rocks pungentes com forte influência de soul e blues que o grupo adora compor;

O interessante é que, além dessas canções o grupo trabalhou em mais temas. Algumas não foram finalizadas e outras não entraram no álbum, sendo aproveitadas posteriormente como é o caso de “Slave” e “Worried About You” que entrariam em “Tatoo You”.

Ron Wood foi efetivado como membro da banda, mas só passou a receber uma parcela igualitária dos lucros anos depois, com a saída de Bill Wyman e a reestruturação no padrão financeiro do grupo. 

Sobre sua entrada, cabe uma história interessante: durante a concepção do disco, vários convidados apareceram para as Jam sessions realizadas entre as gravações para serem discretamente testados pelo grupo. Quando Eric Clapton se deu conta que era uma audição imediatamente argumentou com Ron: "Não sei se quero, mas me parece claro que eu sou um guitarrista melhor do que você. Não entendo o que ocorre aqui.". Wood não perdeu seu sorriso característico e devolveu: "Você é melhor sem dúvida, mas quem vai ter de aturar Keith ? Eu aguento na boa, e você? vai conseguir conviver com ele? Quanto tempo dois gênios da música vão ficar juntos?"

Essa resposta malandra e cheia de sarcasmo é a prova cabal de que o Wood estava muito mais preparado psicologicamente para integrar os Stones que o famigerado “deus da guitarra”.

“Black and Blue” foi produzido por Jagger e Richard tendo Gly Johns como engenheiro de som. A capa simples, com a foto do quinteto mostrava claramente a dicotomia que havia dentro da banda, com a imagem de  Jagger e Richards ganhando muito mais destaque.

O disco chegou as lojas em abril de 1976, tendo a balada “Fool to Cry” como single. Mesmo não sendo um clássico da discografia da banda, conseguiu o primeiro lugar nos EUA e segundo lugar na Inglaterra, alavancando ainda mais a carreira dos Stones.


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Sobre o álbum

Black And Blue

Álbum disponível na discografia de: The Rolling Stones

Ano: 1976

Tipo: CD/LP

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