Resenha

Fairytales Of Slavery

Álbum de Miranda Sex Garden

1994

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

19/07/2020



Um disco aventureiro, estranho, dramático, mas acima de tudo, bonito

Miranda Sex Garden é uma banda que eu conheci recentemente, seu som me foi uma grata surpresa, tanto que pouco depois vim aqui no site para ver se a banda já havia sido cadastrada, ao contrário do que eu imaginava e para outra grata surpresa, a banda estava cadastrada. Mas ainda me restava dar de cara com outra surpresa, o grupo estava cadastrado apenas como rock alternativo, porém, isso acaba soando vago demais, o som da banda é muito rico e variado para ser classificado somente em um gênero. 

Falando sobre os vários gêneros em que a banda pode ser classificada, descrever este álbum acaba não sendo fácil, mas entre outros podemos ouvir toques evidentes e de grande influência gótica, folk, medieval, mas de certa forma apresentando uma margem sonora um pouco mais agressiva, fazendo com que a banda também soe perto do industrial e do post rock com uma pincelada sinfônica. Resumindo tudo isso, se eu fosse falar em poucas palavras, este disco é um disco de rock progressivo – mesmo que a banda não seja necessariamente uma banda do gênero. 

Como meu contato com a banda ainda é muito pequeno e essa é a primeira vez que escrevo algo sobre eles, achei que seria interessante dar uma conferida em como a banda era vista – digo era, pois eu estava esquecendo-me de mencionar algo, o grupo só esteve em atividade entre 1990 e 2000 -, como uma espécie de góticos do underground e que se mantinham escondido do mundo. Na parte do underground eu devo discordar, mas gótico certamente que são, pois neste caso estamos falando do sentido da palavra que nomeia cerca de dois séculos da música da Idade Média. 

Depois comentarei sobre os outros quatro discos da banda, mas decidi começar pelo seu terceiro álbum, Fairytales of Slavery, pois este foi o que mais me atraiu entre todos. Pelo que escrevi até aqui acho que ficou bem claro que estamos diante de um álbum obscurantista, mantendo intacta a sonoridade gótica, mas sem deixar de acrescentar muitas influências diferentes de maneiras complexas e elaboradas. 

Antes de falar sobre as faixas que compõe Fairytales of Slaveryé, bom deixar claro algo para que não haja viagem perdida, se por eu ter falado mais acima que considero este disco um trabalho de rock progressivo, você está procurando por épicos e mudanças bruscas de andamento, provavelmente este disco possa lhe desapontar, agora se você estiver aberto para músicas atmosféricas, sombrias e por vezes agressivas, certamente esta é uma excelente opção de disco, seria como se o Renaissance conhecesse o Fantomas, dando um resultado em partes até mesmo assustador, mas sem perder a qualidade. 

“Cut” é a faixa que dá início ao disco. Bastante incomum e baseada em um forte trabalho de guitarra e vocais que mais parecem flutuar acima de todo o “caos” sonoro. A viola é violenta e ao mesmo tempo deliciosa, além de frenética do começo ao fim. Destaque também para o trabalho sincrônico entre baixo e bateria. Tudo acontece sem muito tempo para que possamos respirar e claro, sempre com o acréscimo de sons estranhos e obscuros necessários em toda a atmosfera do disco. 

“Fly” começa através de uma guitarra em tom misterioso cercada por baixo e teclados bastante obscuros e assustadores, então que os vocais também se misturam neste ambiente fantasmagórico, até que uma explosão de repente mostra a faixa possui muita energia, mas logo regressa ao som mais suave e sombrio, a explosão aparece pela segunda vez, agora para marcar o final da faixa. 

“Peep Show” começa suave e até mesmo meio inaudível durante os seus primeiros trinta segundos. Porém, em uma fração de segundo tudo muda, e tanto a banda, quanto os vocais nos atacam baseados principalmente nos trabalhos de bateria, baixo e guitarra, os vocais soam em segundo plano, sempre de maneira distinta por parte de Katharine Blake. 

“The Wooden Boat” soa bem mais medieval, aqui a banda mostra toda a sua influência no post rock, através de instrumentais suaves, sons bastante estranhos e até mesmo perturbadores. Talvez o excesso de experimentalismo não fosse exatamente o que o disco estava precisando no momento, e com isso, acaba não agradando tanto quanto as faixas anteriores. 

“Havana Lied” é uma música estilo cabaret cantada em alemão – criando de certa forma uma atmosfera da Segunda Guerra Mundial, o trompete é perfeito. Esta música prova mais uma vez o quanto este grupo pode ser visto com um grupo estranho, porém, de muita criatividade e originalidade. No geral, outra faixa bastante experimental e repetitiva, mas sem deixar de ser interessante. 

“Cover My Face” é um dos momentos mais brilhantes do disco. Forte, violento e ao mesmo tempo suavizado pelos belos vocais que parecem se esconder de trás de toda a agressão instrumental proporcionada. Possui algumas influências em músicas antigas – egípcias talvez -, mas discretas e que mal podem ser ouvida acima de todo o cenário industrial criado. Dramática de um final de caos absoluto. Simplesmente sensacional. 

“Transit” começa com teclado e bateria simulando alguns sons que pode ser ouvido em algum engarrafamento – acho que isso justifica o nome da faixa -, mas devo ser honesto e dizer que esta não me agrada muito, tudo soa muito estranho, como se os instrumentos estivessem apenas lutando um contra o outro e a voz de Katherine fosse usada apenas para perseguir os instrumentos como uma sirene de polícia ou ambulância. 

“Freezing” é uma música que quando ouvi pela primeira vez os primeiros acordes da guitarra me lembraram “Overture” do disco Tommy do The Who, porém, os uivos de Katherine e das outras vozes devolvem o ouvinte a uma realidade diferente. Mais uma faixa estranha, curta e eficaz. 

“Serial Angels” é uma música muito bonita e diferente do que aconteceu na faixa anterior, não precisamos considerar os vocais como algo tão importante. O maior problema é que a primeira metade foi gravada em um volume tão baixo que é preciso aumentar bastante o volume pra compreender algo, não entendo o que a banda queria aqui, mas após isso, violão e bateria crescem e marcam a mudança para uma seção musical mais rítmica, tendo toda a sua melodia fornecida por um refrão suave. 

“Wheel” é quase como uma música cíclica que descreve perfeitamente um carrossel e parece extremamente repetitiva, mas como dica eu deixo que o ouvinte não se deixe levar com essa impressão, pois a cada repetição o ciclo se mostra diferente do anterior. Tem um começo claramente medieval, mas depois vai se transformando, sendo adicionado um instrumento a cada repetição, mais ou menos o mesmo tipo de procedimento usado por Mike Oldfield no fim de “Tubular Bells”, fazendo com que assim seja criado um caos. 

“Intermission” é a faixa mais curta do disco não chegando nem aos dois minutos, trata-se de uma colação de sons distorcidos, mas se notarmos bem na parte mais profunda da melodia, é possível notar sonoridades assustadoras. 

“The Monk Song” é aquela música que pode vir a ser a preferida daqueles que se identificarem mais com as estranhezas do disco. Começa com alguns arranjos vocais meio estranhos junto de muitos uivos e gemidos tudo muito bem sincronizado pelas três vozes femininas, inclusive, todas mostram um alcance incrível. As vozes então começam a ser apoiadas pelo baterista tocando principalmente pratos. Tudo é muito interessante, mas ao mesmo tempo meio perturbador.  

“A Fairytale About Slavery” é a maior faixa com quase nove minutos e também a que encerra o disco. Que final de disco mais maravilhoso, começa em uma linha bastante medieval através do piccolo, bateria e vocais angelicais – e incrivelmente soando assustadores ao mesmo tempo -, criando uma melodia belíssima. Os demais instrumentos vão se misturando progressivamente, criando uma atmosfera de fundo que aos poucos passa a assumir a liderança da música, rebaixando inclusive os vocais para um segundo plano, ao menos até chegar a um ponto de instrumentação mais pesada e agressiva, onde os vocais se misturam com uma guitarra pesada e distorcida. Algo interessante neste som é que a banda parece sempre está querendo criar uma mistura entre vários tipos de concepções musicais, como aliar algo onírico, antigo e sagrado com linhas musicais modernas e pagãs. No final de tudo a melodia se dissolve e encerra o álbum de uma maneira que não poderia ser melhor. 

Quando acabamos de ouvir um disco igual a este, é normal brotar algumas interrogações em nossas cabeças sobre em como classifica-lo. Considero este disco um trabalho excelente, indicado principalmente pra quem gosta de música sinfônica, folk, post rock e até mesmo um pouco de industrial. Quanto aos que não sentirem nada na primeira audição, eu peço que lhes deem mais um ou duas chances.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Fairytales Of Slavery

Álbum disponível na discografia de: Miranda Sex Garden

Ano: 1994

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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