Resenha

Exposure

Álbum de Robert Fripp

1979

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

11/07/2020



As marcas musicais de Fripp lado a lado de estilos e influências diversas

Não é porque o King Crimson havia sofrido uma dissolução temporária que Robert Fripp deixaria de ser um músico bastante ocupado. O guitarrista continuava a se mexer tocando com várias bandas/artistas incluindo Talking Heads, Blondie, The Roches, Peter Gabriel, Daryl Hall e muitos outros. Além disso, Fripp também estava trabalhando no seu primeiro registro solo, que descobri mais tarde que deveria ser a última parte de uma trilogia que envolvia também o segundo de Peter Gabriel e o álbum solo de Daryl Hall. Mas as coisas não deram certo da maneira que deveriam, ainda que todos os três álbuns tenha sido lançados ao público. Quando lançado na época, o álbum solo de Hall não foi tão comercial quanto a gravadora queria. Eles temiam que isso prejudicasse o sucesso do Hall & Oats, então o álbum foi arquivado.

O plano original de Robert Fripp era a criação de um álbum tendo Daryl Hall como único vocalista, porém, novamente temos uma gravadora querendo intervir em decisões dos músicos – algo comum em todas as épocas, mas que sempre achei um verdadeiro pé no saco. Entre mais algumas brigas, Fripp – que não é um músico de abaixar a cabeça -, conseguiu reunir outros nomes de peso para cantar no disco, tais como Peter Gabriel e Peter Hammill. Inclusive essa ideia de muitos vocalistas funcionou muito bem e adicionaram ao disco um ar positivo. Existem algumas versões diferentes do disco devido a alguns problemas que Fripp teve, portanto, existem versões bem raras por aí. 

Quanto à música encontrada no álbum, certamente estamos falando de uma coleção de boas faixas. Existem ótimos momentos aqui, porém, não tem como fechar os olhos para alguns problemas que o álbum enfrentou e que acabou o deixando nem sempre muito coeso. A variedade musical é muito boa, mas às vezes trazendo uma sensação de desarticulação, mas podem ficar tranquilos, que não chega a ser tanto assim a ponto de estragar o álbum. Possui uma mistura entre sonoridades pesadas e aquilo que o King Crimson iria fazer futuramente, vocais e instrumentais pré-Frippertronic e bits sonoros e vozes misturados através de todo o álbum. No fim das contas, este disco funciona perfeitamente como uma ponte entre álbuns do passado e futuro tanto de Fripp, quanto do próprio King Crimson. Meio difícil ouvir, conhecer um pouco da história do disco e não se pegar imaginando como seria se tudo tivesse acontecido como Fripp queria, certamente estaríamos diante de uma verdadeira obra-prima, afinal, não é difícil de perceber ecos de sua genialidade por vários pontos do álbum. No que diz respeito aos trabalhos vocais, alguns soam ásperos e outros mais legais. Em "Here Comes the Flood" é uma verdadeira maravilha, principalmente graças aos vocais de Peter Gabriel. Apesar de uma boa voz, Daryl Hall oscila, sendo às vezes extremamente óbvios, enquanto que em outras são deveras surpreendentes. Os vocais de Terri Roche são muito bem-feitos e até soa parecido com Joni Mitchell – através de um bom efeito. Peter Hammill é aquilo de sempre, eu amo, mas nem todo mundo absorve bem seus vocais severos e ácidos. Instrumentalmente no geral não apresentam surpresas, são quase sempre músicas fluindo dentro daquilo que podemos esperar de Fripp. Exemplificando, o ouvinte obtém faixas de atmosferas industriais como, “Breathless" e "Disengage", encontradas em Discipline do King Crimson – que seria lançado no ano seguinte -, e notas sustentadas de sonoridades óbvias de Frippertronic, como em "Urban Landscape" e "Water Music II".

No geral o disco é muito satisfatório, muitas coisas acontecem e devem ser notadas e apreciadas. Porém, é uma grande pena que a coesão que também poderia existir nele, acaba se perdendo, isso muito provavelmente devido aos problemas com a gravadora, que tentava a todo custo se impor na composição do material, tentando comprometer a liberdade artística de Fripp, sendo isso algo que aconteceu com o guitarrista, já havia acontecido com outros, acontece e vai sempre acontecer com mais alguns. Tudo acabou valorizando mais ainda a capacidade de Fripp, pois mesmo com tudo isso, o guitarrista conseguiu entregar um ótimo disco, um verdadeiro marco tanto para os fãs de King Crimson quanto para os de sua carreira solo, afinal, é mostrado uma transição de estilos. Discipline, próximo disco do King Crimson e que estava por vir, tem uma sonoridade muito mais coerente e não parece tão abrupto depois que se conhece este disco de Fripp. Um disco indispensável em qualquer coleção de prog que também queira ver seus ídolos produzindo além de suas bandas consagradas.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Exposure

Álbum disponível na discografia de: Robert Fripp

Ano: 1979

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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