Resenha

Crafty Hands

Álbum de Happy the Man

1978

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

10/07/2020



Dentro de uma zona de conforto, um ótimo disco

Apesar de eu mesmo reconhecer que se trata de um preconceito bobo, acabo sempre pensando com muita tenacidade acerca de bandas que levam com elas nomes de músicas ou algo que as relacionem com grandes grupos – neste caso, “Happy the Man” é um single do Genesis de 1972 -, pois fica parecendo que o grupo já no início de carreira não quer nada além do que usar a fama de grandes músicos pra suprir a sua falta de imaginação. 

Mas para o meu bem, às vezes tendo não levar essa máxima adiante e me dou à chance de ouvir trabalhos que já haviam me passado batido. Crafty Hands é um disco excelente do começo ao fim, e só poderia soar melhor se Peter Gabriel tivesse aceitado o convite deles em participar do disco – não sei se esse boato é verdadeiro, mas teria sido maravilhoso se tivesse ocorrido. 

“Service With A Smile” é uma faixa instrumental e que não tem nada em comum com que o nome da banda pode sugerir, exceto claro, por suas estruturas perfeitas. Os teclados são simples, viajantes e muito adequados para a música e interagem perfeitamente com os demais instrumentos. 

“Morning Sun” é uma faixa bem mais suave que a anterior, onde podemos perceber algo entre Genesis e Camel, mas bem de leve, com poucas semelhanças com qualquer uma das duas bandas mencionadas – exceto por de certa forma uma atmosfera meio na veia de “A Trick of the Tail”. Flauta e violão são os destaques e combinam perfeitamente com os trabalhos de teclas. 

“Ibby It Is” começa de maneira mais efusiva, baseando-se nas suaves mudanças e nos contrastes de leve trabalho de guitarra e as passagens mais pomposas de teclado. Mas novamente a banda mantém o interesse quase sempre no coletivo e em como a banda consegue unir seções contrastantes em um trabalho cuidadoso e de arranjos muito bem elaborados. 

“Steaming Pipes” me faz lembrar um pouco Larks Tongues in Aspic – mas isso não quer dizer que você vá sentir o mesmo -, sendo uma faixa muito interessante, com mudanças graduais e baseadas na sua melodia, fazendo com que a faixa não soe somente como uma experimentação inútil e sem propósito algum. Mesmo algumas dissonâncias a banda consegue fazer parecer coerente e melódica. 

“Wind Up Doll Day Wind” traz a banda à uma atmosfera bastante genesiana mais uma vez, mas se comparada com a apresentada anteriormente, é muito mais misteriosa e sombria. Se a ideia de Peter Gabriel no vocal é verdade, aqui é um dos motivos, se com Gabriel eles soariam maravilhosos, com Stanley Whitaker são completamente desnecessários e arruínam parte da faixa, mas apesar disso, a banda ainda faz uma pausa instrumental poderosa e pomposa. O que a deixa a faixa fraca aqui são os vocais, mas a música em si é ótima. 

“Open Book” é mais uma música de contrastas, através de uma breve introdução ela leva o ouvinte a crer que estará diante de uma música ao melhor estilo onírico do Camel, mas não demora muito para teclado e guitarra destruir essa primeira impressão. A atmosfera criada é algo quase jazzístico muito bem sustentada por uma melodia em uma espécie de crescente. Acontece uma mudança radical e a música começa a soar quase que medieval ao melhor estilo dos trovadores viajantes. Não contentes com isso, eles ainda pegam uma linha mais agressiva e segue com ótimas percussões e teclados, mas sem jamais perder o humor onírico. Sensacional. 

“I Forgot To Push It” é uma das melhores introduções do álbum, desta vez influenciada pelo King Crimson. Possui um excelente uso de saxofone com teclados dissonantes, além de uma bateria complexa e simplesmente incrível, a mudança de andamento para uma linha jazzística é brilhante. A banda segue mudando o rumo das coisas, tornando a sempre mais interessante e complexa. 

“The Moon, I Sing (Nossuri)” é a faixa que encerra o disco. O começo é bastante suave e onírico, além de bela melodia aprimorada por um refrão que parece ser produzido por um mellotron que combina muito bem com a atmosfera muito agradável. Porém, nota-se muita tensão na música, pois a música parece sempre crescer em intensidade, anunciando um clímax explosivo que parece não chegar nunca, então que depois de uma mudança na qual esperamos uma explosão, a banda simplesmente retorna à melodia suave e misteriosa agora com algumas dissonâncias. No fim das contas a música não leva o ouvinte a lugar algum, ainda que ocorram algumas preparações em determinados momentos, simplesmente vai desaparecendo progressivamente. 

Um disco de momentos brilhantes, mas que há um problema, o que ocorre de maneira evidente na última faixa, também acontece ainda que menos evidente em demais peças. A banda sempre parece estar levando o ouvinte a algum tipo de ápice ou estopim, porém, este lugar nunca chega, dando a sensação de estar andando somente em círculos. Mas apesar disso, certamente é um ótimo disco, apenas poderia ter sido melhor ainda.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Crafty Hands

Álbum disponível na discografia de: Happy the Man

Ano: 1978

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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