Resenha

Rockferry

Álbum de Duffy

2008

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

02/07/2020



Uma mistura completamente em chamas de soul, pop e rock

Há uma lenda que em algum lugar existe um manual – não oficial – de como criar álbuns de soul e os mesmos se transformarem em um material musical lendário. Neste livro, existe uma infinidade de conselhos para os novos artistas, tais como estragar a própria vida, ter seu coração partido de alguma forma, adquirir uns problemas e transformar tudo isso em música. Ouvindo Duffy e o seu Rockferry é mais do que evidente que a cantora galesa não leu este tal livro. A experiência quase que assustadora de uma mágoa é tangível por sua ausência. No entanto, no geral o que é tocado neste álbum é a paz espiritual por meio da leveza de composições elegantes de alma blues.

O que não faltam são pessoas que lutam pela fama, mas elas nunca param pra pensar nenhum pouco o quão difícil o caminho pode ser, não apenas para alcançar o sucesso, mas para se manter lúcido e suportar a pressão de quando você chega no topo. Mas por que exatamente estou falando isso? A jovem Duffy alcançou o estrelato já com o seu álbum de estreia, Rockferry, em 2008. O álbum mostrava uma emoção crua e completa da cantora, fazendo com que ela ganhasse uma grande exposição, porém, o que para muitos seria um sonho realizado, para Duffy, passava longe de ser. Tendo grande dificuldade em lidar com isso, em alguns casos, chegou a chorar no palco por causa de um sentimento que ela não sabia explicar. Após o lançamento do disco, pensou em não fazer shows, mas em respeito aos fãs, encarou os palcos. 

Mas apesar dos problemas com o psicológico, insegurança e medo que vieram depois, antes Duffy sempre esteve muito empenhada e trabalhou duro para que Rockferry virasse realidade, escrevendo, apagando e escrevendo de novo, gravando, deletando e gravando de novo até tudo tomar a forma ideal. E sinceramente, acho que todo o suor e lágrimas derramadas valeu, pois o resultado final foi brilhante. 

Rockferry inicia com um dos seus momentos mais fortes através da faixa título. A música começa cheia de leveza e suavidade por meio de melodia simples, os vocais de Duffy estão acalentadores. “Rockferry” em apenas quatro minutos consegue mostrar enormes variações de vocais e emoções. “Warwick Avenue” foi à primeira música do disco que ouvi e que me fez ter o interesse em conhecê-lo por completo – apesar de "Mercy", creio eu, ser a mais conhecida. Tem uma atmosfera onde não é difícil notar a sua referência aos anos 60. Novamente Duffy despeja sua voz com muita delicadeza em uma linha instrumental belíssima. 

“Serious” é uma música onde o brilho encontrado nas duas faixas anteriores é bem menos intenso. Infelizmente existe uma clara falta de emoção que foi definido nas músicas anteriores – principalmente na faixa título. O problema não é nem só a falta de emoção, mas carece de originalidade. Em termos de soul music, “Serious” é uma boa música, mas nesse caso, não chega a ser um mérito, afinal, falamos de um estilo comum e quase clichê usado no gênero. “Stepping Stone” traz o disco de novo para a qualidade do começo, ou melhor, o eleva a algo maior. É o tipo de som de alma sombria e arrebatadora que poderia ter sido lançado facilmente na década de 60. Apresenta uma aura melancólica, ferida e discretamente desafiadora. Uma joia musical em todos os seus níveis de profundidade possíveis. 

“Syrup & Honey” apresenta em grande parte, apenas Duffy acompanhada de uma guitarra elétrica – com no máximo algumas cordas sutis em pontos estratégicos. Trata-se de uma música de soul clássica que não faz questão alguma de soar como uma música de soul clássica. O seu excesso de delicadeza pode fazer com que seja descartada por ouvidos que talvez não entenda o ponto em que Duffy quer chegar. “Hanging On Too Long” é uma música levemente sinfônica e com refrão bastante forte – reforçados mais ainda por um excelente coro. Duffy tem uma grande entrega nesta peça. 

“Mercy”, como eu disse mais acima, se trata da música mais conhecida do disco, tendo liderado as paradas britânicas sem mesmo aviso prévio. Curiosamente, apresenta o desempenho vocal menos inspirado de Duffy. O baixo inicial lembra "Stand By Me", enquanto que o órgão nos remete a "Light My Fire". Possui uma pitada pop onde dentro do contexto do álbum, funciona como uma curva no seu som, sem fazer com que a audição deixe de se manter interessante. “Delayed Devotion” mantem a mesma maturidade sonora encontrada ao longo do álbum. Voz e música saindo da alma ligando-se em várias décadas de uma só vez sem soar datado. 

“I'm Scared” é uma música que me leva de volta a um tempo que eu não vivi, ou seja, a era de ouro da Motown. Duffy canta cheia de delicadeza, clareza e poder, onde é difícil não se apaixonar. “Distant Dreamer” é a faixa de encerramento do disco. Sempre achei que ela tem um ar meio de Abba, principalmente no seu refrão. Música e vocais mais uma vez são perfeitamente misturados. 

Escutando Rockferry três vezes seguidas, eu chego à conclusão de que ele é um exemplo clássico de música que funciona. Não há nenhum tipo de truque barato ou superprodução, ele simplesmente apresenta o que a música deveria ser. Um disco que tem a formula musical certa para agradar qualquer tipo de ouvinte, fazendo-o aproveitar cada um dos seus segundos. Após Rockferry, Duffy lançaria somente mais um disco, Endlessly, em 2010, sendo que depois, sumiria em um longo hiato, assim como aconteceu com várias cantoras do começo da década, voltando apenas a dar notícia de fato em 2020, porém, seu sumiço é por um motivo bem mais triste, mas aí é outra história, mas só procurar que é fácil encontra na internet.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado pela música progressiva em todas as suas facetas."

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Sobre o álbum

Rockferry

Álbum disponível na discografia de: Duffy

Ano: 2008

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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