Resenha

Back To Black

Álbum de Amy Winehouse

2006

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

01/07/2020



Os sentimentos de Amy derramados em sua obra-prima

A morte de ícones revela um estranho fenômeno cultural  - mesmo que não conheçamos essas pessoas, onde estávamos quando elas morreram está gravado para sempre em nossas mentes. Não existe uma geração que não passe por pelo menos uma morte icônica em sua vida, muitas vezes trágica e precoce, nos deixando perguntando uns aos outros coisas como, “onde você estava quando ficou sabendo?” ou “com quem estava?” E quando esses artistas morreram, seus fãs os colocaram em um pedestal ainda mais alto de grandeza, plenamente conscientes de que o mundo havia perdido alguém insubstituível, como, por exemplo, Amy Winehouse. 

Amy quando morreu vítima por ingestão excessiva de bebida alcóolica, ela já era vítima de toda uma sociedade, um exemplo clássico de culpabilidade cultural. Dentro de suas letras e sua arte, Amy oferecia uma extrema vulnerabilidade, mas todos a tratavam como se ela não fosse um ser humano real e estivesse acima de tudo isso. Estava sendo sempre sufocada por fotógrafos cruéis e manchetes interessadas em apenas humilhá-la, fazendo com que antes mesmo que percebêssemos que Amy não havia mais nada a oferecer, com apenas 27 anos a cantora evaporou na frente de todos. 

Ao ouvir Back to Black, fica bastante evidente do tamanho do talento que perdemos de maneira tão precoce.  Se em Frank – primeiro disco de Amy – a influência jazzística tem certa evidência, em Back to Black a cantora basicamente desertou o jazz da sua música e abraçou com toda a força o R&B contemporâneo. A sonoridade de Back to Black ainda pode ser vista de certa forma semelhante a Frank, mas sem sombra de dúvida soando de maneira muito mais charmosa e inspirada por grupos e cantoras dos anos 60.

Winehouse tinha uma capacidade incrível em escrever sobre a sua dor, começando o disco afirmando desafiadoramente que ela não estava indo para a reabilitação, para depois passar as próximas músicas documentando porque um período de descanso e recuperação pode não ser uma má ideia. Usou sua música como uma saída, uma maneira de lidar com as batalhas intermináveis com os outros, bem como com seus próprios demônios.  Apenas uma olhada em suas letras e alguém poderia saber que algo não estava certo. 

Diferente da sua estreia, aqui Amy indicava um desejo raivoso de crescer a cada lançamento. Em Back to Black encontra-se uma cantora dizendo o que bem entende através de uma voz que pode transformar sentimentos mesmo mundanos em declarações poderosas, solidificando o lugar de Amy como uma das melhores – para muitas a melhor – cantora/letrista de sua época. 

Tanta coisa já foi dita em relação ao que contém neste disco, que uma resenha faixa a faixa se torna completamente desnecessária, mas claro que algumas destas músicas devem ser mencionadas. Na primeira música – como já foi dito mais acima -, “Rehab”, a letra é extremamente reflexiva, nos fazendo pensar sobre a curta vida de Amy, seu destino resumindo em, “eles tentaram me fazer ir para a reabilitação / eu disse: não, não, não". Que Amy lutava contra uma dependência química, acho que não era segredo pra ninguém, porém, ouvir este disco agora é como estar diante de um casaco de pele, é fofo e lindo, porém, houve um sofrimento extremo para cria-lo. 

Pra falar de outro som chave deste disco, é impossível não falar também de Blake Fielder-Civil, seu então marido de um relacionamento turbulento e que serviu de inspiração para faixa, “You Know I'm No Good” – na verdade ele serviu de inspiração em vários momentos do disco -, um diário lírico que faz com que o ouvinte odeie esse sujeito – e ele merece ser odiado mesmo. Basicamente ela está implorando por ele e ainda se culpando por tudo o que deu errado entre eles, quando ela não tem culpa alguma, sendo ele a única coisa errada da situação. Blake Fielder-Civil foi o pior tipo de companheiro que alguém na condição que Amy poderia ter ao lado, não a ajudava com seus vícios, muito pelo contrário, facilitava o acesso da cantora a drogas e álcool, inclusive em determinado momento tendo a abandonado, mas regressando quando Amy estava novamente na mira de holofotes e surfando no sucesso. Na letra de “You Know I'm No Good” ela dá a entender que jamais ia querer Blake de volta na sua vida, mas apesar de chegar muito perto de limpá-la da toxicidade dele, acabou sendo atraída de volta. Na faixa-título, Amy canta algumas de suas frases mais poéticas sobre um trabalho instrumental sombrio e que coloca você no centro exatamente do que Amy estava sentindo. A música é simples, com uma simples progressão de acordes, melodia simples, mas suas letras são o que faz desta a peça central do álbum – não por isso em dar nome ao disco. 

Mas saindo um pouco do clima bastante pesado das faixas citadas, “Tears Dry On Their Own”, apesar de também estar ligada a Blake, traz um tom irônico, mostrando que Amy apesar de triste, iria superá-lo. Amy sempre foi leal aos seus relacionamentos, onde faixas como, “Some Unholy War”, são uma prova da disposição de Amy em superar qualquer obstáculo por seu homem, podendo ser considerada uma espécie de “Stand by Your Man”, de Tammy Wynette, mas com um obstáculo mais depressivo e movido a drogas, ao contrário do “Stand by Your Man”. Outra música que merece ser mencionada é, “Love is a Love Game”, outro dos momentos mais sombrios do disco. De maneira bastante doce, Amy mais uma vez entrega palavras fortes através de uma metáfora intensa, descrevendo a garantia de perda em que ela acha que o jogo do amor terminará. 

Ouvir um disco como este e não lamentar a morte de Amy é simplesmente impossível. Acho que se todos tivessem reconhecido e compreendido a sua doença, talvez a cantora estivesse aqui até hoje, mas apesar de tantos elogios e reconhecimentos póstumos, no momento em que Amy mais precisava, a mídia se preocupava muito mais em ridicularizá-la. Mas onde estava tanto reconhecimento enquanto esteve viva? E cadê as listas que a nomeavam como uma das maiores cantoras do nosso tempo? Creio que se tivéssemos compreendido e reconhecido melhor a sua situação, em vez de usar do talento e vício de Amy para nossa própria diversão, já ajudaria bastante. Amy não foi a primeira e certamente não será a última, mas serão cada vez menos conformes formos reconhecendo que coletivamente e como sociedade, podemos – e devemos evitar - abusar daquele que nós admiramos. No fim, Back to Black foi o ponto final precoce de uma artista que encontrou um fim trágico cedo demais. Se existe algum tipo de beleza nessa tragédia? Sim, a da música que ela deixou pra trás, a congelando em forma de um talento raro que vai ecoar por toda a eternidade.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Back To Black

Álbum disponível na discografia de: Amy Winehouse

Ano: 2006

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,83 - 6 votos

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