Resenha

The Polite Force

Álbum de Egg

1971

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

24/06/2020



Músicas às vezes loucas e complexas, mas agradáveis e frequentemente melódicas

Quando estou diante de The Police Force, sinto que estou diante de um dos discos referências de uma das cenas mais criativas da música 70’s, ou seja, a cena de Canterbury. Um disco aventureiro e muito além do que era criado na época, ou mesmo para os padrões atuais de música, um registro cheio de encantos únicos e que soam atemporais em uma mistura incrível de jazz, música de vanguarda e progressivo sinfônico. 

Egg não é uma banda tão conhecida, mas seria um prazer indicar ao menos este disco para os fãs de Emerson, Lake & Palmer que queiram mergulhar um ou dois dedos na cena de Canterbury. E muito admirável a abordagem de Dave Stewart em relação ao órgão, embora sejam menos chamativas que Keith Emerson ou Rick Wakeman – o que sequer chega a ser algum demérito – ele possui um estilo bastante brilhante e charmoso. No geral este disco é maravilhoso, mas acho que principalmente para os amantes de órgão. 

“A Visit To Newport Hospital” começa o disco em um tom meio ameaçador e penoso, mas que de uma hora pra outra muda a sua direção para uma linha mais suave e sinfônica liderada por um trabalho de órgão. Linhas dinâmicas de baixo complementam muito bem as criações de paredes estofadas de órgão. Os vocais são esparsos e inofensivo. As camadas de som se congelam em uma excelência psicodélica. Um disco que começa com uma faixa bem construída do primeiro ao último segundo. 

“Contrasong" é uma música que não me agradou inicialmente, mas conforme fui ouvindo, também fui gostando mais. Possui alguns ritmos estranhos, metais e baseada em piano. A música apresenta um pequeno problema nos vocais que acabam se perdendo um pouco na cacofonia dos intrumentos. Mas fica bem óbvio que a banda aqui não queria criar nada além de um jazz trio. 

“Boilk” é uma música que adoro, mas não tem como eu ignorar que também se trata da música que mais pode afastar o ouvinte do álbum. O seu começo é encantador, um som de água corrente e um órgão baixo, além de sinos de uma catedral que tocam ao longe. O experimentalismo desta música não é pra qualquer um. Então que adota ruídos esvoaçantes com um tom de mellotron que é manipulado de forma dolorosa. Alguns ruídos parecem seguir sem muita direção, de forma confusa, porém, a ideia – ainda que não muito aceita - parece ser exatamente essa. Para quem aprecia o lado mais estranho do rock progressivo de vanguarda, certamente vai vê nisso algo fascinante, por outro lado, quem aprecia um lado mais musical e menos “chocante e desorientado”, não aproveita nada desta faixa. Novamente, é uma faixa que não me agradou inicialmente – neste caso, algo mais compreensível -, porém, com o tempo ela passou a me hipnotizar de uma maneira muito boa. 

“Long Piece No. 3” é a suíte de quatro partes que finaliza o disco com seus mais de vinte minutos. Se a faixa anterior apesar de muito experimental, as coisas estavam devagar, a primeira parte da faixa já mostra uma banda trabalhando em estruturas musicais da música clássica, enquanto utiliza de instrumentos de jazz/rock como bateria, baixo e uma grande variedade de órgão. A segunda parte retorna a uma sonoridade mais palatável, digamos assim, como a encontrada lá na faixa de abertura do disco, mas agora com muitas reviravoltas melódicas e aventureiras em toda a parte. Porém, antes dos dois minutos tudo muda para um som mais onírico, etéreo e até mesmo perturbador, como se estivesse ouvindo a trilha sonora de um filme de terror. Algo incrível de se pensar sobre a banda é que dois dos seus integrantes – Stewart e Campbell – não tinham nem vinte anos nessa época, mas mesmo assim, estavam compondo de forma muito madura. A terceira parte começa com uma peça de jazz de Vincent Guaraldi, antes que entre um órgão ao estilo Keith Emerson. Inclusive e ainda que seja uma comparação meio forçada, consideraria fazê-la com “ Karn Evil 9, Third Impression" – lembrando que The Police Force foi lançado antes. Embora as seções seguintes da música sejam muito semelhantes às usadas na música clássica, novamente é bom ver o desenvolvimento através de instrumentos mais convencionais e que a música clássica não costuma usar. A quarta e última parte é também a menor delas. Os momentos finais da suíte – e do álbum – são um verdadeiro deleite sinfônico de Canterbury, com ritmos e órgão pulsante. O trabalho de teclado é incrível, assim como a constância da bateria e baixo.  Nada como finalizar o disco colocando em destaque as proezas que cada um dos membros da banda em uma exibição total. 

Eu posso não ter assimilado todo o disco na primeira audição na época que o conheci, mas a avaliação tem que ser feita dentro do que ele significa agora pra mim, e hoje certamente é um trabalho perfeito do começo ao fim. Mesmo que suas músicas às vezes soem como loucas e complexas, elas continuam sendo capazes de criar temas verdadeiramente agradáveis e frequentemente melódicos. Uma das obras-primas não só da cena progressiva de Canterbury, mas do progressivo em geral.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

The Polite Force

Álbum disponível na discografia de: Egg

Ano: 1971

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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