Resenha

Uncover Me

Álbum de Peter Matuchniak

2012

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

23/06/2020



Um disco eclético e excelente de um músico talentoso e inventivo

Costumo dizer que é preciso certa classe e até mesmo charme para que se consiga criar músicas complexas e suaves. Onde mais podemos vez músicos com essa capacidade é certamente no jazz, navegando com as suas habilidades assustadores sem deixar de conseguir a atmosfera da música bastante descontraída – deixando claro que apesar de reconhecer isso, não sou necessariamente um entusiasta do jazz em seu estado mais puro. A música clássica – que é algo que eu de fato já gosto mais – é outro exemplo de onde existe esse equilíbrio. Mas por que estou falando isso? Bom, porque de certa forma o trabalho do multi-instrumentista Peter Matuchniak, apesar de não ser de natureza jazzística ou clássica, o mesmo princípio se aplica ao que ele fez em Uncover Me. Mesmo que tenha uma orquestração bastante rica e um número muito grande de convidados, no fim a essência musical deste álbum acaba sendo de uma peça íntima e otimista. 

“Falling Ash (Landscape Burning P1)” é a faixa que inicia o disco através de uma introdução de teclado muito boa e que logo se transforma em algo inspirado no som do Pink Floyd, onde Natalie Azerad canta na veia de Claire Torry, enquanto que Ted Zahn acrescenta a sua voz de uma forma nos faz imaginar como seria Roger Waters participando dessa música. Uma peça excelente, belas performances vocais e ótimas narrações, violão e teclados atmosféricos, além de ouvir Peter tocando guitarra de uma forma bem diferente do seu estilo, sendo influenciado por David Gilmour. 

“Running Blind” começa emendada com a música anterior, mas não segue a mesma linha, se transformando em algo mais melancólico com uma performance maravilhosa de Natalie e uma banda que está dando o seu melhor, com passagens explosivas de guitarra. Vale destacar também o linha jazzística do baixo de Jim DeBaun, criando assim um ótimo contraste com o desempenho mais pesado do resto do grupo. 

“Uncover Me” possui menos de dois minutos e pega de surpresa qualquer um que esteja acostumado com o som de Peter em suas bandas. Música de uma sonoridade folclórica e medieval, o trabalho de violão e de flauta é excelente, sendo ainda aprimorados novamente pelo belo vocal, serve quase como um interlúdio para a faixa seguinte. “Down In New Orleans” é uma balada com Ted cantando com certo toque country, Peter novamente oferece uma bela performance de guitarra, ganhando ainda mas brilho quando impulsionada pelo trabalho dramático de saxofone. 

“Running Back To You” é um som mais voltado para o mainstream, mas isso não faz com que ela deixe de ser uma música interessante. Boa combinação entre uma guitarra rock and roll e uns vocais mais jazzísticos. O trabalho de bateria também é de primeira. “London Vibe” é mais um dos momentos do disco voltado para o jazz, com umas linhas fantásticas de saxofone e teclado, que criam um contrasta bastante agradável com a próxima faixa. 

“Lionheart Betrayed” é lindíssima, a performance vocal muito agradável aqui fica por conta de Ted, mas por vezes ele fica muito bem acompanhado por doces coros de Natalie, além de uma flauta pastoral. “Sandcastles” é um pequeno interlúdio com pouco menos de um minuto, sonoridade bastante delicada e que prepare o ouvinte para a próxima faixa. “Across the Pond” é uma música bastante eclética, onde Peter passeia pelo blues, rock e o jazz, para quem conhece a música de Herp Alpert, provavelmente vai ficar mais familiarizado com o que é feito aqui.

“Rising Sun (Landscape Burning P2)” é a faixa mais longa do disco com pouco mais de oito minutos.  Trata-se de uma música extremamente bem elaborada. Novamente muito eclética, porem, com mais tempo para desenvolver cada uma de suas facetas. Apresenta tudo que um fã de progressivo pode querer, começa com algumas mudanças radicais que nos levam do folk ao jazz apenas para terminar uma seção progressiva complexa com reminiscência em King Crimson. É bom também perceber o quanto a música vai crescendo, saindo de uma peça melódica e suave para algo de linha frenética e vibrante, fazendo que esta seja sem dúvida a faixa mais marcante do disco. “Hippy In The Rain” é a faixa que encerra o álbum. Uma balada acústica muito legal, com influência em Beatles e Bob Dylan e que captura muito bem aquela essência musical dos anos sessenta, mas de alguma maneira pode lembrar outros nomes também como Donovan e Cat Stevens, com um tempero daquele cenário psicodélico de São Francisco. 

Uncover Me se trata de uma peça fundamental em qualquer coleção de boa música. De música fácil, já poder ser apreciado na primeira audição, mas a cada vez que ele é tocado novamente, o ouvinte pode receber algo diferente. Pouco conhecido no Brasil, mas recomendadíssimo.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Uncover Me

Álbum disponível na discografia de: Peter Matuchniak

Ano: 2012

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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